IFS mira crescer 30% ao ano na América Latina; clientes como Sanmartin e CPFL aceleram projetos com a empresa

“Não dá simplesmente para construir um ERP com inteligência artificial (IA)? Por que eu preciso comprar um?” Em plena negociação com a IFS, o CIO de uma indústria familiar do Meio-Oeste dos Estados Unidos colocou em xeque a necessidade de contratar o sistema. Filho do dono, jovem, ambicioso e recém-chegado ao cargo, ele lançou o desafio à fornecedora e aos consultores que o assessoravam.

Barend Oelofse, Chief Operating Officer (COO) para América do Norte e América Latina da IFS, conta a história para falar do futuro do setor de software.“É uma pergunta séria e válida. Qual é o futuro das grandes marcas de software se você pode pedir a um agente que construa a solução, o banco de dados, tudo?”, questionou, em entrevista ao IT Forum durante o IFS Unleashed 2026, em Orlando*, nos Estados Unidos. A empresa do Meio-Oeste, aliás, acabou fechando o contrato.

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Para o executivo, a resposta passa por velocidade. “A menos que os fornecedores de ERP se reinventem, e rápido, vai haver cada vez menos clientes dispostos a investir em ERP”, avaliou. O contra-argumento da IFS é de que a inteligência artificial (IA) só é tão boa quanto os dados, os sistemas e os processos que estão por baixo dela.

A companhia de origem sueca chega ao evento em pleno reposicionamento. No lobby do hotel, a marca já aparece como “IFS.ai”. Nesta semana, a empresa anunciou o IFS Intelligence, que se soma ao Nexus Black e à camada de agentes da plataforma.

“Ao olhar a IFS de dez anos atrás, a percepção era de um ERP de mid-market para indústrias intensivas em ativos e serviços. Daqui para frente, seremos a plataforma de inteligência operacional que sustenta as indústrias centrais da IA industrial”, resumiu Oelofse, que passou cerca de 20 anos como consultor da SAP antes de chegar à IFS, há pouco mais de três anos.

Ele faz questão de dizer que a virada não nasceu de uma crise. “Reinventamos a IFS a partir de uma posição de força, não porque estávamos falhando”, afirmou. Segundo o COO, foi o desempenho do produto principal, especialmente das soluções de field service (FSM) e de otimização de recursos (PSO), que deu à empresa fôlego financeiro para mudar com o avião em pleno voo.

O executivo também aponta um risco para quem decide construir o próprio sistema com IA. Se a empresa terceiriza esse desenvolvimento e, mais tarde, precisa adaptar o sistema a uma nova exigência fiscal ou regulatória, volta a depender de quem o construiu. “São algemas de ouro”, comparou. Com um fornecedor, argumenta, vêm as atualizações regulatórias, o compliance, a padronização e o suporte.

O outro trunfo, na visão dele, é o conhecimento setorial acumulado em mais de 40 anos. “Esse é um conhecimento que você não adquire de um gênio da IA que mora na rua de baixo. Ele entende o que a tecnologia pode fazer, mas não vai saber dizer ao cliente qual é um bom processo de negócio naquele setor”, observou.

E a verdade é que nem o próprio executivo arrisca dizer como estará esse mercado em dois anos. “Em três anos, a IFS se transformou totalmente, e naquela época estávamos só começando com IA. Imagine daqui a três anos”, ponderou.

Do vapor ao Concorde

Oelofse diz já ter vivido alguns ciclos de euforia tecnológica, da bolha das pontocom ao momento em que tudo que levava um “e” na frente parecia ser a próxima grande coisa. Desta vez, garante, é diferente. “Acredito sinceramente que, agora, o hype é real”, disse.

Para ele, o setor de software corporativo atravessa uma transição parecida com a da indústria automotiva quando os carros elétricos chegaram para disputar espaço com os motores a combustão. O executivo lembra que, antes, era preciso rodar relatórios e sentar para interpretar os dados. Hoje, basta uma instrução para que o sistema mapeie dependências e consequências de uma mudança e proponha a correção antes que o problema apareça.

Essa aceleração, porém, cobra uma contrapartida dos fornecedores. Oelofse lembra de uma piada comum nos tempos de implementação de ERP antigamente. O executivo que assinava o cheque no início do projeto nunca era o mesmo que aprovava a entrega no fim, tamanha a demora. “Compra-se algo hoje e entra em produção dois anos depois. Enquanto isso, tudo andou tão rápido que você já está muito atrás quando chega lá”, observou.

Para explicar o novo momento aos filhos, por exemplo, ele usa uma imagem simples. “Saímos da locomotiva a vapor direto para o Concorde. E os clientes esperam que tudo se mova nesse ritmo”, contou. “A ideia de viver de projetos de dois, três anos acabou.” A meta, segundo ele, é encurtar ao máximo o tempo até o retorno de valor para o cliente.

Um time só

É nesse contexto que a América Latina ganhou outro peso na IFS. Até cerca de um ano atrás, a operação latino-americana respondia à Europa, onde o próprio Oelofse estava baseado. Ao se mudar para os Estados Unidos, ele passou a juntar as equipes norte-americana e latino-americana em um único time, com um único go-to-market para Estados Unidos, Canadá e América Latina.

A mudança responde a uma demanda direta dos clientes. Segundo o executivo, todos os que encontrou em Orlando chegaram com duas perguntas. A primeira era como adotar o que tinham acabado de ver, como o IFS Intelligence e o Nexus Black. A segunda, se teriam suporte ao seguir por esse caminho.

“Os clientes do nosso escritório de São Paulo querem fazer isso, mas são cautelosos, porque querem saber se nós, daqui, vamos apoiá-los”, revelou. A ideia é compartilhar profissionais entre projetos e levar o conhecimento técnico acumulado nos Estados Unidos aos clientes da região, e vice-versa.

Os números da empresa explicam a prioridade. A IFS cresceu 47% na América Latina no último ano, e a ambição é manter uma expansão acima de 30% ao ano. “Espero o mesmo ritmo, se não mais”, assinalou. É, segundo ele, a métrica pela qual é medido.

O raciocínio é que nove em cada dez clientes globais da empresa têm escritório, operação ou fábrica em algum país da região. Depois de começar pelo Brasil, a IFS contratou vendedores e montou práticas para atender os países de língua espanhola, além de buscar parceiros com credibilidade em mercados como Argentina, Chile e Colômbia. O México também está no radar. A venda será direta, indireta e em co-sell. “Poderíamos dobrar nosso negócio fazendo um bom trabalho na América Latina e indo além do Brasil”, apontou.

Os desafios, reconhece, não são poucos. Há vários países, dois idiomas e diferenças culturais que pesam no jeito de conduzir projetos e na aversão a risco. Isso fez com que a empresa revesse o perfil dos profissionais que contrata, que agora precisam reunir domínio de IA e fluência em espanhol. Nascido na África do Sul, Oelofse diz que se sente em casa no Brasil, onde vai cinco ou seis vezes por ano.

23 anos de parceria

Do lado dos clientes, a transição para a nuvem e para a IA já está em curso. O Grupo Sanmartin, de Caxias do Sul (RS), que fabrica equipamentos para produção e envase de bebidas, usa IFS desde 2003. O go-live aconteceu em 2005, e a empresa usa hoje o ERP completo da fornecedora, com finanças, engenharia, projetos, manufatura, distribuição e logística.

“O gerenciamento de projetos é o mais complexo. Temos de 30 a 40 projetos andando ao mesmo tempo”, contou Arnaldo José Fogaça, coordenador de TI do Grupo Sanmartin. Cada projeto pode ser uma fábrica nova para um cliente de bebidas, por exemplo. No sistema, circulam de 15 mil a 20 mil ordens de fabricação abertas ao mesmo tempo, cerca de 370 mil itens cadastrados e perto de 2 mil ordens de compra por mês. São 386 usuários em todo o grupo.

A trajetória acompanha a evolução da própria IFS. Em 2015, o grupo migrou de versão e levou o sistema para as unidades do México e da Argentina. Mais recentemente, iniciou a migração para a versão 10, mas interrompeu o processo no meio para seguir direto para o IFS Cloud. A estrutura montada para a migração anterior será aproveitada. Os key users das quatro fábricas já estão definidos e o mapeamento de processos já foi feito.

O que mais chama a atenção de Fogaça, além da IA embarcada, é o fim das grandes migrações periódicas de versão, substituídas por atualizações contínuas. A expectativa é de melhorar a rotina dos usuários e redesenhar processos internos.

Em paralelo, o Sanmartin criou quatro agentes de IA com uma consultoria. Dois já estão em produção e dois entram nas próximas semanas, acompanhados de treinamento para os usuários. “Não tem como segurar o uso da IA, mas temos de ter governança em cima disso para não perder o controle”, indicou o coordenador, que cita a preocupação com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e com o vazamento de dados sensíveis.

Sobre a relação com a fornecedora, ele destaca a proximidade. Algumas pessoas que participaram da primeira implantação, há 23 anos, ainda estão na IFS. “Temos livre acesso para conversar sobre qualquer assunto com eles”, completou.

Ativo por ativo

Na CPFL Energia, com sede em Campinas (SP), um dos maiores grupos privados do setor elétrico brasileiro, tem um projeto de outra natureza. A empresa está em processo de implementação do módulo de gestão de ativos (EAM) do IFS Cloud, para controlar o ciclo de vida dos ativos das quatro distribuidoras do grupo, cuja área de concessão cobre boa parte do estado de São Paulo e parte do Rio Grande do Sul.

O objetivo é maximizar o retorno dos ativos e garantir o fornecimento de energia com qualidade. “Queremos gerenciar cada ativo como um objeto individual e enxergá-lo bem antes de ele falhar, para nos anteciparmos em casos hoje considerados de emergência, como quando queima um transformador ou uma chave”, explicou Carlos Simões, gerente de engenharia de processos da CPFL Energia.

Ele explica que equipamentos de grande porte, como subestações e torres de transmissão, já são acompanhados individualmente. O desafio está no que a empresa chama de varejo, as centenas de milhares de transformadores de rua que alimentam as residências e que hoje são analisados em massa. Com a nova ferramenta, cada um poderá ter um índice de saúde (health index), indicando a necessidade de manutenção ou troca antes de um desligamento.

A CPFL substitui uma solução interna. Na disputa com outros fornecedores, pesou a quantidade de funcionalidades da IFS. “O produto era novo para nós. Fizemos muitas agendas com os times de vendas da IFS e do implementador até entender que atenderia às nossas necessidades”, relatou Tiago Fialho, IT Business Partner do departamento de engenharia da companhia.

O blueprint foi concluído, com representantes de todas as áreas e empresas, e o projeto está agora em fase de desenvolvimento. O EAM faz parte de um programa com outras duas soluções que conversam entre si, por isso a entrada em produção será conjunta, em um “big bang” por empresa. A primeira onda, com duas distribuidoras, está prevista para abril de 2028. As outras virão em julho e setembro do mesmo ano.

São cerca de 150 usuários da IFS, mas 2,1 mil profissionais impactados diretamente pelo ecossistema, que inclui uma solução de mobilidade própria da CPFL. Por isso, a companhia montou um time de gestão de mudança, com comunicação que vai da alta liderança ao colaborador, e um cronograma de treinamento escalonado.

A predição, porém, ainda é um passo à frente. “A predição precisa de dados. Vamos passar os próximos anos gerando esses insumos”, ponderou Fialho. Na sequência, a ideia é usar IA para analisar o grande volume de dados e priorizar ações. “Primeiro, temos de concluir a implementação do nosso sistema”, adiantou ele.

*A jornalista viajou a convite da IFS

Fonte: https://itforum.com.br/noticias/ifs-mira-crescimento-al-sanmartin-cpfl-aceleram-projetos/