Por Verônica Taquette
O mercado de gestão de recursos vive um descompasso entre a aceleração da tecnologia e a qualificação das equipes de operações. Enquanto a adoção de ferramentas de inteligência artificial avança em ritmo acelerado, a formação dos profissionais responsáveis pela conferência e validação dos dados permanece estagnada. E essa assimetria compromete a segurança das operações corporativas, visto que a sofisticação tecnológica exige uma barra de qualidade operacional equivalente.
Ouço com frequência, em negociações comerciais, uma frase que resume esse descompasso. O cliente reconhece o preço do sistema e justifica a resistência dizendo que sabe não aproveitar tudo que a ferramenta oferece. Em outros casos, gestoras gastam meses tentando concluir a implantação de sistemas sem conseguir avançar por causa da falta de mão de obra qualificada dentro da própria equipe, agravada pela alta rotatividade.
Esse gargalo pode ser agravado por uma ausência. A gestão de portfólio tem a Certificação de Gestores Anbima, o compliance regulatório tem o módulo específico do Programa de Qualificação Operacional da B3, mas o backoffice de uma gestora não tem uma certificação à altura. A versão de backoffice desse mesmo PQO foi desenhada para profissionais de corretoras e distribuidoras, conforme descreve a própria B3 em seu material institucional, e não mapeia as competências específicas de quem é responsável pela operação de uma gestora de fundos.
Leia mais: Novos executivos da semana: SumUp, BeFly e Smollan
Universidades e cursos voltados ao mercado financeiro reforçam essa lacuna. O currículo concentra atenção em análise, precificação e gestão de risco de mercado, a linha de frente que atrai o interesse de quem escolhe a carreira. Middle e back office ficam de fora, e quem acaba nessas áreas aprende na prática, dentro de cada gestora, produzindo conhecimento fragmentado, difícil de transferir de uma empresa para outra e de uma pessoa para outra dentro da mesma equipe.
Essa lacuna de formação se agravou recentemente porque o mercado mudou de composição mais rápido do que as equipes conseguiram acompanhar. Fundos multimercado registraram resgate líquido de R$ 58,9 bilhões em 2025, segundo a Anbima, e fundos de ações perderam R$ 54,5 bilhões no mesmo período. Enquanto essas classes tradicionais encolhem, os FIDCs somaram patrimônio líquido de R$ 852,7 bilhões até junho deste ano, com o número de classes de fundos saltando 26,7% entre dezembro de 2024 e novembro de 2025. A migração para crédito estruturado e para carteiras de Wealth trouxe uma exigência operacional que equipes formadas para a lógica de FIAs e FIMs ainda se preparam completamente para acompanhar.
O problema de suprimento de talento qualificado não é exclusividade brasileira nem exclusividade de backoffice. A Millennium Management, gestora americana com US$ 86,3 bilhões sob gestão, iniciará em 2027 um programa formal de formação de investidores depois de constatar dificuldade para encontrar gente suficiente para alocar o capital que capta. Desde 2022 a gestora aumentou o capital administrado em mais de US$ 30 bilhões, contratou 160 gestores de portfólio só em 2024, e ainda assim o ritmo de contratação ficou atrás do crescimento dos próprios ativos, segundo reportagem do Business Insider replicada pela Exame.
Citadel, Point72 e Balyasny, alguns dos maiores e mais influentes fundos de hedge multigestores do mundo, seguem caminhos parecidos, com estágios ampliados e trilhas estruturadas da universidade até a cadeira de gestor de portfólio. Fundos desse porte têm capital para bancar uma academia interna inteira, mas a maioria das gestoras brasileiras, sobretudo as que operam FIDCs e wealth com equipes enxutas, não tem escala para replicar esse modelo sozinha.
O custo de não resolver esse gargalo aparece de forma silenciosa até se tornar visível demais para ignorar. O conhecimento sobre como um processo funciona vai embora junto com cada saída de backoffice, porque a maior parte dele foi apenas praticada e passada pra frente, mas nunca documentada. Sistemas de automação ficam subutilizados, porque a equipe não tem preparo para explorar todo o potencial que a ferramenta oferece, o que devolve trabalho manual a processos que já deveriam rodar sozinhos.
O risco operacional cresce junto com a sofisticação regulatória, a exemplo do que a Resolução CVM 175 exigiu em termos de segregação de responsabilidade entre gestor e administrador. Some a isso a pressa em automatizar com inteligência artificial sem essa base resolvida. O Gartner projeta que, até 2027, 40% das organizações vão desativar agentes de IA por falhas de governança identificadas somente depois que esses sistemas já estavam em produção. No Brasil, 57% das empresas usam IA de forma ativa, mas apenas 13% mantêm processos estruturados de teste e auditoria sobre esse uso, segundo o mesmo levantamento, divulgado em junho deste ano. Um agente de IA supervisionado por alguém sem domínio da regra de negócio que deveria aplicar desloca esse risco para um ponto ainda mais difícil de auditar depois.
Já vi gestora pagar caro pelo sistema errado, pelo contrato mal negociado, pela integração que não performou como prometido. Nunca vi uma pagar mais caro do que quando descobriu tarde demais que o problema nunca esteve na ferramenta, mas na ausência de alguém preparado o suficiente para operá-la, questioná-la e corrigi-la antes que o erro chegasse ao investidor. Enquanto essa lição continuar sendo aprendida caso a caso, gestora por gestora, o mercado inteiro segue pagando um preço que uma certificação bem desenhada ajudaria a mitigar.
Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!
Fonte: https://itforum.com.br/artigos/ilusao-automacao-perfeita/


