A inteligência artificial (IA) pode tornar software tão seguro que governos percam a capacidade de usar ferramentas de invasão contra criminosos e terroristas. A tese, levantada pelo professor de criptografia Matthew Green em agosto de 2026, gerou debate na comunidade de segurança cibernética e divide especialistas do setor.
Green publicou um fio no X (antigo Twitter) e um artigo em seu blog que circulou amplamente entre profissionais da área. O argumento central é que modelos de linguagem de grande porte (LLMs) estão se tornando mais eficientes na identificação de vulnerabilidades em escala, o que pode levar empresas a corrigir um volume sem precedentes de falhas e tornar os sistemas muito mais difíceis de comprometer.
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O equilíbrio atual e a ameaça da IA
Desde que aplicativos como Signal, WhatsApp e o iMessage da Apple adotaram a criptografia de ponta a ponta, por volta de 2014, governos não conseguem mais interceptar ligações e mensagens em tempo real da forma tradicional. Em resposta, passaram a investir em ferramentas de invasão e spyware para contornar a segurança dos dispositivos; uma solução de compromisso que Green chama de “trégua instável”.
Para Green, a IA ameaça esse equilíbrio. Se as ferramentas baseadas em LLMs acelerarem a correção de falhas em software, os governos podem se ver sem os pontos de entrada de que dependem hoje para vigiar alvos de investigações. O professor alerta que, nesse cenário, autoridades poderiam voltar a pressionar por backdoors; portas traseiras embutidas em dispositivos por design, que comprometeriam a segurança de todos os usuários.
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Pesquisadores divididos
A pesquisadora Luna Tong, que trabalhou em duas empresas especializadas em busca de falhas e desenvolvimento de exploits para governos, concorda com a avaliação. Ela diz que há “uma corrida do ouro de bugs agora, mas é um fenômeno temporário e elas vão escassear novamente em breve”.
Paolo Stagno, diretor de tecnologia da Crowdfense, empresa conhecida por desenvolver, adquirir e vender vulnerabilidades desconhecidas; os chamados zero-days; a governos, afirma que “está claro que nenhum Estado vai abrir mão da possibilidade de vigilância”. Stagno explica que o modelo atual, baseado na exploração de falhas de segurança para acessar dispositivos, é “o sistema mais democrático que temos”, mas reconhece que o status quo pode não se manter se as vulnerabilidades se tornarem muito difíceis de encontrar.
Outros profissionais do setor ofensivo divergem. Hamid Kashfi, fundador da empresa de segurança ofensiva DarkCell e integrante da startup de segurança cibernética com inteligência artificial Xbow, diz que “para cada bug encontrado e reportado pela IA, há provavelmente 20 que não são reportados”. Para Kashfi, pesquisadores que não desejam divulgar falhas aos fabricantes ainda conseguirão encontrar vulnerabilidades complexas e valiosas.
Três profissionais que atuam atualmente no setor ofensivo, e um ex-integrante da área, contestam a tese de Green. O argumento deles se divide em três frentes: falhas simples serão mais fáceis de encontrar; falhas complexas, em geral mais valiosas para governos, não vão desaparecer; e a IA pode ativamente auxiliar os pesquisadores que vendem vulnerabilidades a autoridades.
Proteções de dispositivos e pressão por backdoors
Eva Galperin, diretora de segurança cibernética da Electronic Frontier Foundation (EFF), organização de direitos digitais, avalia que o ataque tem vantagem hoje por dois motivos: a capacidade da IA de encontrar bugs e o aumento de vulnerabilidades introduzidas pelo desenvolvimento de código gerado por IA sem revisão criteriosa, o chamado vibe-code. Ao mesmo tempo, ela argumenta que encontrar mais falhas não significa necessariamente que elas serão corrigidas com rapidez; ou que serão corrigidas de forma alguma, dado que o processo de correção é complexo. Galperin afirma que haverá uma nova pressão por backdoors em algum momento, porque regimes autoritários sempre buscam “acesso excepcional”.
Katie Moussouris, fundadora e diretora-executiva (CEO) da Luta Security, que ajuda empresas a lidar com vulnerabilidades e corrigi-las há décadas, observa que “ainda temos um bom caminho a percorrer antes que os telefones e laptops mais recentes estejam completamente livres de bugs“.
Moussouris afirma que “haverá um ponto em que encontrar bugs será muito mais difícil, e isso pode desencadear pressões para incluir backdoors“. A executiva estima, porém, que “temos pelo menos até depois da próxima eleição presidencial antes que a comunidade de inteligência esteja suficientemente prejudicada para pressionar por backdoors de forma séria”.
Com informações do TechCrunch
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/inteligencia-artificial-dificultar-vigilancia-governos-softwares/

