Da busca na internet ao hit da Copa do Mundo: a inteligência artificial já é parte importante da nossa rotina

Por Leandro Herrera

As tecnologias que realmente transformam a sociedade costumam seguir um caminho curioso: deixam de chamar atenção justamente quando passam a fazer parte da rotina. Foi assim com a internet, com os smartphones e, agora, com a inteligência artificial. Depois de anos sendo tratada como uma inovação distante ou restrita a laboratórios e grandes empresas, a IA passou a atuar nos bastidores de decisões cotidianas, muitas vezes sem que as pessoas sequer percebessem sua presença.

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Hoje, ela organiza deslocamentos, personaliza recomendações de filmes, séries e músicas, ajuda instituições financeiras a identificar movimentações suspeitas em tempo real e torna experiências de compra mais inteligentes ao compreender padrões de comportamento. Em vez de substituir o cotidiano, a inteligência artificial passou a potencializá-lo, tornando as tarefas mais ágeis, serviços mais personalizados e processos mais eficientes. Sua presença é cada vez menos extraordinária e cada vez mais estrutural (e necessária).

Naturalmente, essa transformação também chegou à economia criativa. E a música talvez seja hoje um dos exemplos mais visíveis dessa mudança.

Durante a Copa do Mundo de 2026, a canção “Brasil com S” ganhou enorme repercussão nas redes sociais ao ser produzida com apoio de ferramentas de inteligência artificial. Mais do que um fenômeno viral, o episódio chamou atenção porque mostrou que a IA já participa da criação artística, ajudando a desenvolver melodias, letras, arranjos e até elementos visuais associados a uma produção musical.

Esse caso, no entanto, não deve ser interpretado como um sinal de que a tecnologia está substituindo artistas. Pelo contrário. Assim como acontece em diversas outras atividades, a inteligência artificial funciona como uma ferramenta que amplia possibilidades, reduz etapas operacionais e acelera processos criativos.

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Hoje, músicos e produtores utilizam IA para experimentar diferentes harmonias, criar versões alternativas de uma composição, realizar masterizações, gerar demos em poucos minutos e testar ideias que antes demandariam horas de estúdio. O papel da tecnologia é oferecer caminhos; a decisão sobre qual deles seguir continua sendo humana.

Esse movimento acompanha uma tendência global. Segundo projeções da consultoria Grand View Research, o mercado de inteligência artificial aplicada à música deve registrar crescimento superior a 25% ao ano nos próximos anos, impulsionado tanto por artistas independentes quanto por grandes estúdios. Ao mesmo tempo, plataformas de streaming utilizam algoritmos de IA para recomendar conteúdos personalizados a milhões de usuários diariamente, tornando essa tecnologia parte da experiência de ouvir música mesmo quando o público não percebe.

Esse talvez seja o ponto mais interessante da discussão. A inteligência artificial já não é uma inovação isolada, mas uma tecnologia transversal, presente em diferentes setores da economia. Ela apoia médicos na análise de exames, auxilia advogados na pesquisa jurídica, otimiza processos industriais, melhora sistemas financeiros e também encontra espaço na criação artística.

Isso não significa que todas essas profissões serão substituídas. Significa que elas estão incorporando uma nova ferramenta de trabalho. Na música, por exemplo, a criatividade continua sendo essencial. Uma inteligência artificial pode sugerir centenas de melodias, mas não compreende o contexto cultural de um país, não sente a emoção de um momento histórico nem entende por que determinada letra conecta milhões de pessoas. Cabe ao artista dar direção, fazer escolhas e transformar possibilidades em identidade.

Talvez esse seja o maior aprendizado da atual revolução tecnológica. O valor da inteligência artificial não está em criar sozinha, mas em ampliar a capacidade humana de criar. Ao longo da história, toda inovação tecnológica provocou receios semelhantes. Foi assim com os sintetizadores, com a gravação digital, com os softwares de edição e com o streaming. Em vez de eliminar a criatividade, essas tecnologias expandiram as formas de expressão e abriram novas oportunidades para artistas e criadores.

A inteligência artificial parece seguir esse mesmo caminho. Ela não substitui a sensibilidade, a experiência ou a originalidade. Apenas oferece novos instrumentos para que elas se manifestem.

No fim, talvez a maior prova de que a IA já faz parte da nossa rotina seja justamente esta: muitas vezes ela está presente sem que percebamos. Da rota que seguimos até a música que escolhemos ouvir, ela atua como uma facilitadora. E, na arte, seu papel não é ocupar o lugar da criatividade humana, mas ajudá-la a ir ainda mais longe.

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Fonte: https://itforum.com.br/artigos/inteligencia-artificial-rotina/