Modernizar sem substituir completamente: qual é o papel dos sistemas legados e como orquestra-los com novas tecnologias

Em junho deste ano, a Gartner fez uma previsão que deveria chamar a atenção de qualquer CIO. Mais de 70% dos projetos de saída de mainframe iniciados neste ano não conseguirão entregar os benefícios pretendidos. Entre as razões apontadas está a superestimação da capacidade de ferramentas de inteligência artificial generativa para transformar e migrar códigos legados extremamente
complexos.

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O problema, porém, vai além da tecnologia. Uma decisão equivocada de migração pode não apenas elevar custos, mas comprometer a própria continuidade operacional.
O dado me parece especialmente relevante porque confronta uma ideia que acompanhou boa parte da transformação digital nas últimas décadas, que é a de que modernizar significa substituir.

Durante anos, criamos quase uma associação automática entre legado e obsolescência. Cloud, novas plataformas e inteligência artificial passaram a representar o futuro.

Na prática, operações complexas raramente permitem uma divisão tão simples. Existem sistemas desenvolvidos há 20 ou 30 anos que continuam processando milhões de transações com enorme confiabilidade e carregam regras de negócio construídas e aperfeiçoadas durante décadas. Ao mesmo tempo, existem aplicações recém-implantadas que aumentam a fragmentação, criam novas dependências e elevam o custo operacional. Por isso, acredito que precisamos separar a tecnologia antiga e a tecnologia inadequada. Elas não são, necessariamente, a mesma coisa.

A pergunta mais importante para um CIO deveria ser “esses sistemas ainda cumprem bem sua função dentro da arquitetura que queremos construir?”.
Essa mudança de perspectiva é importante porque ajuda a evitar um dos erros mais caros da modernização, o chamado big bang. É quando ERP, mainframe, aplicações proprietárias e sistemas desenvolvidos internamente entram, quase simultaneamente, em uma grande agenda de substituição. No planejamento, a promessa costuma ser uma arquitetura mais simples. Durante a execução, começam a aparecer regras de negócio escondidas, integrações não documentadas, dependências entre áreas e exceções operacionais acumuladas ao longo dos anos.

A próprio Gartner recomenda uma abordagem mais pragmática: avaliar workloads individualmente e direcioná-los ao ambiente mais adequado, ao invés de assumir que a saída completa de determinada plataforma é sempre o melhor caminho.

Para mim, essa é uma visão muito mais madura de modernização.
Alguns sistemas realmente precisam ser substituídos. Outros podem ser modernizados internamente. Além disso, determinadas ferramentas fazem sentido na nuvem, mas outras podem permanecer onde estão, e há sistemas que talvez não precisem de uma grande transformação tecnológica.

O problema é a falta de orquestração entre os sistemas. Quando observo organizações de grande porte, percebo que muitas delas não sofrem necessariamente com falta de tecnologia. Em alguns casos, acontece exatamente o contrário. Há ERP para registrar transações, CRM para concentrar informações de clientes, sistemas legados com regras críticas, aplicações específicas para determinadas áreas, ferramentas colaborativas, APIs, robôs e, cada vez mais, inteligência artificial e agentes de IA.

Mesmo assim, o trabalho continua dependendo de e-mails, planilhas, aprovações manuais e pessoas transportando informações de um sistema para outro. Isso acontece porque o processo real raramente começa e termina dentro de uma única aplicação. A rigidez criada por modelos tradicionais de integração exige abordagens mais dinâmicas e orientadas a plataformas para ampliar a flexibilidade operacional.

Esse movimento ajuda a enxergar a modernização por outra perspectiva. Ao invés de substituir toda a infraestrutura existente, podemos construir uma camada capaz de orquestra-la.
Na prática, podemos pensar em três níveis. Na base estão os sistemas de registro, como ERP, CRM, sistemas financeiros, RH e aplicações legadas. Na outra ponta estão os canais de interação, como e-mail, chat, aplicativos e portais. Entre eles, existe uma camada de orquestração e execução, responsável por conectar processos, regras, integrações, pessoas, dados, automações, IA e outras tecnologias em jornadas coordenadas e rastreáveis.

Mas há um ponto importante: agentes de IA não deveriam se transformar em mais uma camada isolada de tecnologia. Para gerar valor em ambientes corporativos complexos, precisam operar conectados aos processos, dados, sistemas e regras da organização, com permissões, governança e rastreabilidade sobre suas ações.

É possível construir uma arquitetura na qual sistemas novos e antigos desempenhem papéis complementares, enquanto cada componente é modernizado no momento em que existe uma justificativa técnica, operacional e econômica para isso.

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Fonte: https://itforum.com.br/artigos/modernizar-sistemas-tecnologias/