Nesta terça-feira, 15 de setembro, acontece o primeiro dia do Mind The Sec, em São Paulo, que inicia com um painel conduzido por Wendy Nather, diretora de pesquisa da 1Password, empresa especializada em gerenciamento de senhas e dados confidenciais. Ela apresenta a palestra “Dangerous Data: Integridade de Dados e Risco Semântico com o Avanço da IA”, baseada em uma constatação que vai na contramão do discurso do setor de tecnologia. “Toda vez que os dados são monetizados vai existir o crime”, afirma.
Com essa afirmação, a executiva propõe uma reflexão sobre como o significado dos dados vem se transformando à medida que a inteligência artificial (IA) passa a ocupar um papel central nas operações corporativas e sobre os riscos que essa transformação carrega quando a integridade da informação deixa de ser prioridade.
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A IA é a vilã?
É justamente essa inversão de prioridades que guia o discurso da diretora da 1Password, de que a inteligência artificial não criou os problemas de integridade de dados, mas os tornou mais visíveis e mais graves. “Agora tudo está pior por causa da IA, as coisas estão muito mais perigosas e complicadas”, afirma. Na avaliação dela, parte do problema está na forma como as organizações têm lidado com o novo momento da tecnologia: “o maior problema que eu tenho com dados e IA é o jeito que estamos tratando como se a IA fosse independente”.
O cenário descrito pela pesquisadora encontra respaldo em levantamentos recentes do setor. Um relatório de ameaças publicado pela Anthropic em 10 de setembro de 2026, com base em casos identificados e interrompidos entre dezembro de 2025 e agosto de 2026, mostra que modelos de IA passaram a ser incorporados a fluxos de trabalho persistentes e sistemas automatizados usados em operações de cibercrime, espionagem, fraudes e outras atividades maliciosas, uma mudança de escala em relação ao uso pontual de chatbots para perguntas isoladas.
Já o relatório de previsões de cibersegurança do Google Cloud para 2026 aponta a inteligência artificial como o principal fator de transformação do cibercrime no período, com destaque para o crescimento de ataques de injeção de instruções contra sistemas de IA, capazes de manipular modelos e abrir caminho para o acesso indevido a dados sensíveis.
Esse duplo papel da tecnologia, como ferramenta de ataque e também de defesa, é justamente o ponto que Wendy busca reforçar: “dados são tanto motivo de ataque quanto de defesa”, diz.
Segundo ela, quando um incidente acontece, o desafio vai além de conter a invasão: “é necessário descobrir o que mudou, o que exatamente aconteceu com sua informação e o quanto isso vai custar”.
A área de negócio comercializa a segurança
Retomando o ponto sobre a monetização de dados como porta de entrada para o crime, a executiva chama atenção para a falta de diálogo entre as áreas responsáveis por proteger os dados e as áreas responsáveis por lucrar com eles. “O departamento de cibersegurança é muito diferente do de negócios, e em muitos pontos elas não trabalham juntas, são duas direções diferentes que deveriam estar unidas em prol da integridade”, afirma.
Para a executiva, esse descompasso traz um risco pouco falado: o custo de um ataque despercebido pode ser ainda mais alto do que o de um ataque que vem a público. “Já é ruim quando uma organização é atacada, mas é igualmente assustador imaginar que foi atacada e descobrir só muito tempo depois, com diversos sistemas silenciosamente comprometidos”, afirma.
Na visão de Wendy, reduzir esse risco começa por um exercício simples, mas raramente feito com rigor pelas empresas: o de entender de fato o que se tem, por que se tem e o que precisa ser protegido. “O negócio precisa olhar para os dados como algo que merece ser estudado e valorizado, respondendo às perguntas: o que temos? Por que temos? E por que precisamos proteger?”, diz.
Como os dados podem ser solução, não risco
Responder a essas perguntas, segundo a diretora da 1Password, ficou consideravelmente mais difícil com o avanço da inteligência artificial, mas nem por isso deixou de ser necessário. Ela ilustra o tamanho do desafio de visibilidade que as organizações enfrentam hoje ao questionar a capacidade delas de reconstruir o que aconteceu com sua própria informação e sistemas em caso de incidente. “Quantas organizações têm certeza de que possuem logs suficientes para conduzir uma investigação de seus próprios dados? Nenhuma”.
O avanço dos grandes modelos de linguagem, as LLMs, aprofunda ainda mais essa complexidade. Segundo Wendy, fatores como onde um dado está armazenado e quem é o responsável por ele mudam a forma como esse dado deve ser interpretado e protegido. “A química dos dados, a localização e quem é dono podem mudar como vemos ele”, explica.
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Por isso, defendeu a executiva, é preciso rastrear, do início ao fim, qualquer relação comercial: “é necessário garantir que todo dado inserido em um contrato, em uma negociação, seja usado somente para o propósito combinado; além de ter o discernimento de quando descartar esse dado e ter clareza sobre as decisões de negócio que vão influenciar a segurança e a privacidade”.
Wendy ainda reflete: o cerne da questão não está apenas na proteção, mas em entender exatamente a fase atual do setor. “Não é apenas o que tem na base de dados, nem o que protege essa área, é o significado do dado que mudou, entender isso é muito importante para evitar a confusão e uso equivocado”, afirma.
Como mensagem final, a diretora de pesquisa da 1Password defende uma abordagem que vai além de tecnologia e inovação. “Eu acredito que a camada de confiança dos dados não pode ser construída sem uma camada de confiança nas pessoas e nos processos”, conclui.
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/monetizacao-dados-wendy-nather-mind-the-sec/


