Como o talento brasileiro ajudou a acelerar a transformação digital em Portugal

Por Filipe Carvalho

Durante anos, a escassez de talento foi apontada como um dos principais obstáculos ao crescimento das empresas tecnológicas em Portugal.

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À medida que a transformação digital acelerou, a procura por profissionais especializados em tecnologia, dados, inteligência artificial e engenharia de software cresceu a um ritmo superior à capacidade do mercado para responder. O diagnóstico parecia simples: faltavam pessoas.

Mas a realidade é mais complexa.

Nos últimos anos, uma parte significativa da capacidade de execução que hoje existe no setor tecnológico português foi reforçada pelo talento internacional. Entre todos os grupos profissionais que contribuíram para esta transformação, os profissionais brasileiros assumiram um papel particularmente relevante.

O debate é frequentemente apresentado como uma questão de preenchimento de vagas. Na prática, o impacto tem sido muito mais profundo.

A minha experiência pessoal permite-me observar esta realidade de forma particularmente próxima.

Ao longo dos últimos 19 anos participei em projetos de transformação empresarial em Portugal, França, Estados Unidos, Brasil e outros mercados internacionais. Trabalhei com equipas multiculturais, diferentes modelos de gestão e contextos organizacionais muito distintos.

Em muitos desses projetos encontrei profissionais brasileiros a assumir funções críticas, não apenas do ponto de vista técnico, mas também na liderança de equipas, gestão de stakeholders e execução de iniciativas estratégicas.

A realidade que observei repetidamente foi simples: os profissionais mais valorizados não eram definidos pela sua nacionalidade, mas pela sua capacidade de gerar resultados.

Talvez seja precisamente essa a principal contribuição que muitos destes profissionais trouxeram para o mercado português.

Além da competência técnica, existe frequentemente uma forte combinação entre capacidade de adaptação, orientação para resultados, facilidade de comunicação e vontade de assumir responsabilidade. Num contexto em que as organizações procuram acelerar programas de transformação cada vez mais complexos, estas características tornaram-se diferenciadoras.

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Ao mesmo tempo, Portugal criou condições particularmente favoráveis para esta integração.

A proximidade linguística, a afinidade cultural e a crescente internacionalização do mercado tecnológico permitiram que muitos profissionais brasileiros conseguissem gerar impacto rapidamente dentro das organizações portuguesas.

O resultado foi positivo para ambas as partes.

As empresas reforçaram a sua capacidade de execução.

Os profissionais encontraram oportunidades de crescimento, exposição internacional e desenvolvimento de carreira.

Mas existe uma lição ainda mais importante.

As organizações mais bem-sucedidas não são necessariamente aquelas que conseguem encontrar todos os recursos de que necessitam dentro das suas fronteiras. São aquelas que conseguem atrair talento, integrar diferentes perspetivas e transformar diversidade em vantagem competitiva.

Num mercado global, o talento já não tem nacionalidade.

As empresas que continuam a pensar apenas localmente enfrentarão limitações cada vez maiores. As que conseguirem construir equipas verdadeiramente internacionais estarão melhor preparadas para competir, inovar e crescer.

Olhando para a próxima década, acredito que esta tendência se irá intensificar.

A Inteligência Artificial irá automatizar muitas tarefas, mas não eliminará a necessidade de talento qualificado. Pelo contrário. As organizações precisarão cada vez mais de profissionais capazes de combinar conhecimento técnico, visão de negócio, capacidade de adaptação e execução.

Neste contexto, a competição entre empresas será também uma competição entre países.

Os mercados mais competitivos não serão necessariamente aqueles que formam mais profissionais, mas os que conseguem atrair, integrar e reter talento internacional de forma sustentável.

Portugal deu passos importantes neste caminho. Mas existe ainda espaço para melhorar a velocidade de integração, reduzir barreiras burocráticas e criar condições para que profissionais altamente qualificados possam desenvolver carreiras de longo prazo.

O talento continuará a circular globalmente. A questão é saber quais os países e organizações capazes de transformar essa mobilidade numa vantagem competitiva.

Os vencedores da próxima década não serão aqueles que tiverem acesso à tecnologia mais avançada.

Serão aqueles que conseguirem reunir as melhores pessoas e criar as condições para que trabalhem juntas em torno de um objetivo comum.

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Fonte: https://itforum.com.br/artigos/talento-brasileiro-portugal/