A corrida da Tesla para colocar o robotaxi Cybercab nas ruas dos Estados Unidos esbarra em barreiras regulatórias, horas depois de a empresa ter iniciado as operações do veículo em Austin, no Texas. O modelo, que não tem volante, pedais nem retrovisores, já enfrenta auditoria federal aberta pela Administração Nacional de Segurança no Tráfego nas Rodovias (NHTSA).
A fiscalização foi anunciada nessa sexta-feira (4), poucas horas após o evento de lançamento no centro de Austin. A agência Reuters, que acompanhou o rollout, noticiou que a NHTSA abriu auditoria de cerca de mil unidades do Cybercab para verificar se a Tesla cumpriu os procedimentos de certificação de segurança exigidos pela legislação federal.
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O problema central é estrutural: os padrões federais de segurança veicular nos Estados Unidos foram escritos para veículos com controles manuais operados por motoristas humanos. A Tesla optou pela autocertificação de conformidade, caminho que dispensa aprovação prévia da NHTSA, mas que impõe à montadora a responsabilidade de demonstrar que o modelo atende às normas vigentes.
O que dizem os especialistas
Especialistas do setor questionam se essa demonstração é possível. “Não acredito que haja uma interpretação razoável que possa sugerir que o Cybercab consegue cumprir os Padrões Federais de Segurança Veicular”, diz Michael Brooks, diretor-executivo do Centro para Segurança Automotiva, grupo de defesa do consumidor.
Philip Koopman, professor de engenharia da Universidade Carnegie Mellon e especialista em segurança de veículos autônomos, afirma que a Tesla historicamente testou limites e empurrou fronteiras nas regulamentações e que espera totalmente que a Tesla teste os limites. Ele avalia que a empresa pode criar uma “interpretação criativa” das normas, se autocertificar e “inundar o mercado” com os veículos. “Isso poderia levar a NHTSA ou os reguladores estaduais anos para resolver. Enquanto isso, a Tesla poderia estar operando nas vias públicas”, observa.
Bryant Walker Smith, professor de direito da Universidade da Carolina do Sul especializado em regulamentação de direção autônoma, vai além. “Nenhuma informação pública sobre as capacidades da Tesla sugere que a empresa está sequer próxima de conseguir implantar com segurança e confiabilidade um sistema de direção automatizado em toda a amplitude de condições que seria exigida para um veículo sem controles convencionais”, afirma.
A Tesla não respondeu a pedidos de comentário.
O precedente da Zoox
O caminho da autocertificação já foi tentado por um concorrente com desfecho desfavorável. A Zoox, subsidiária da Amazon, desenvolveu um veículo sem controles de direção, com dois bancos de passageiros voltados um para o outro, e optou pela mesma rota. Após a autocertificação, a NHTSA abriu investigação e a Zoox retirou a declaração. Cerca de um ano depois desse episódio, em julho deste ano, a empresa obteve a isenção federal para operação comercial limitada.
Para veículos que não atendem aos padrões de segurança vigentes, a NHTSA oferece um processo de isenção que autoriza o uso comercial, mas limita a frota a 2.500 unidades por ano. O engenheiro-chefe da Tesla, Lars Moravy, afirmou no início deste ano, pela rede social X, que o Cybercab não estará sujeito a esse limite, sem detalhar o fundamento. A NHTSA já havia dito anteriormente que a Tesla não havia solicitado essa isenção.
Histórico e desafios técnicos
A Tesla começou a fabricar o Cybercab em abril deste ano. O fundador Elon Musk prometeu que a produção cresceria “exponencialmente” ainda em 2026 ou em 2027, e afirmou, durante a apresentação do modelo em 2024, que os veículos seriam vendidos a menos de 30 mil dólares.
Desde o início deste ano, a empresa já opera um serviço de robotaxi pago, limitado ao Texas e à Flórida, utilizando os esportivos utilitários (SUVs) Model Y. Esses veículos mantêm os controles manuais exigidos pelas normas federais e, em alguns carros, contam com motoristas de segurança a bordo.
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A capacidade técnica da frota autônoma da Tesla também é contestada. Entrevistas da Reuters com ex-funcionários que treinaram o software de direção autônoma da empresa mostraram que o sistema continuava com dificuldades em manobras básicas. A Tesla afirma que o seu software Full Self-Driving, versão do qual equipará os Cybercabs, é até dez vezes mais seguro que motoristas humanos, e que o serviço em Austin opera sem acidentes fatais até o momento.
Caso a NHTSA questione a autocertificação da Tesla, a disputa pode ir parar na Justiça. Três ex-altos funcionários da agência disseram à Reuters, antes do evento dessa quinta-feira (3), que esse cenário já ocorreu outras vezes. “Isso acontece de vez em quando e, o que é importante, a NHTSA nem sempre vence esses casos”, diz um deles.
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/tesla-lanca-robotaxi-cybercab-e-enfrenta-auditoria/

