Prisão domiciliar para Bolsonaro ganha força no STF e vira autoproteção

O Supremo Tribunal Federal vive um momento de cálculos políticos e humanitários de alto risco. O que antes era uma discussão estritamente jurídica sobre a execução da pena de 27 anos e 3 meses de Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado, transformou-se em uma estratégia de autoproteção institucional. Com o quadro de saúde do ex-presidente em visível deterioração na Papudinha, um grupo de pelo menos cinco integrantes da Corte já defende abertamente, nos bastidores, a concessão da prisão domiciliar como forma de mitigar danos ao próprio tribunal.

O fantasma da “responsabilidade clínica”

A internação de Bolsonaro em Brasília, ocorrida na última sexta-feira (13), após episódios de broncopneumonia e mal-estar súbito, acendeu o alerta vermelho no STF. Para os ministros favoráveis à domiciliar, a manutenção do ex-presidente em uma unidade militar (o 19º Batalhão da PMDF) sob condições de saúde frágeis é uma “bomba-relógio”.

A avaliação é pragmática: se houver uma evolução negativa drástica no quadro clínico do antigo mandatário enquanto ele estiver sob custódia direta do Estado, o custo político recairá integralmente sobre o Supremo. O objetivo, portanto, seria afastar a Corte do epicentro de uma crise de comoção popular, transferindo o cuidado (e a responsabilidade) para o ambiente familiar.

O cálculo político do Planalto e o “fator Flávio Bolsonaro”

Curiosamente, a tese da prisão domiciliar encontra eco em setores do governo Lula e da cúpula do PT. Reservadamente, governistas admitem que uma piora severa de Bolsonaro na prisão pode “vitimizar” o ex-presidente, sensibilizando o eleitor indeciso e turbinando a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência.

O temor no entorno de Lula é que qualquer revés fatal ou irreversível seja colocado na “conta” de Alexandre de Moraes e do atual presidente, gerando um combustível eleitoral incontrolável para a direita. Para o PT, Bolsonaro em casa, cercado de conforto, reduz o apelo emocional de sua situação, embora exista o risco real de que ele recupere influência política direta e atue como general de brigada na campanha do filho.

Divergências e a “barreira Moraes”

Apesar da pressão, o consenso está longe de ser alcançado dentro da Corte. A ala mais rígida do Supremo pontua que existem diferenças cruciais entre a situação atual e outros precedentes de peso, como o caso do ex-presidente Fernando Collor. Diferentemente de Collor, que obteve a prisão domiciliar amparado por laudos médicos que comprovavam um prejuízo concreto à saúde na manutenção do regime fechado, a perícia realizada pela Polícia Federal no caso de Bolsonaro ainda não indicou a necessidade estrita de tratamento em ambiente doméstico.

Além da questão clínica, o histórico do ex-presidente no cumprimento de ordens judiciais é um entrave significativo para os ministros mais legalistas. Pesa contra a concessão do benefício o fato de Bolsonaro já ter descumprido medidas cautelares anteriormente, incluindo episódios de violação no uso da tornozeleira eletrônica. Para esse grupo, tais antecedentes criam uma barreira técnica que dificulta a substituição da prisão preventiva por uma medida mais branda, mesmo diante do apelo por sua fragilidade física. Moraes, por óbvio, está neste grupo.

A “saída de emergência” para Alexandre de Moraes

Para interlocutores do Judiciário, a decisão de mandar Bolsonaro para casa pode servir também como um “balão de oxigênio” para o próprio ministro Alexandre de Moraes. Alvo de desgaste recente devido aos desdobramentos do escândalo do Banco Master, Moraes poderia utilizar a medida como um gesto para baixar a temperatura política do país e sinalizar uma postura de equilíbrio humanitário, sem abrir mão da condenação.

A palavra final, contudo, permanece envolta em mistério. O relator ainda não emitiu sinais claros, mas o agravamento clínico de Bolsonaro nas próximas horas pode acelerar uma canetada que, mais do que uma questão de saúde, tornou-se uma estratégia de sobrevivência política para as instituições de Brasília.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/prisao-domiciliar-para-bolsonaro-ganha-forca-no-stf-e-vira-autoprotecao/