No centenário da Semana de Arte Moderna, o casal Fernanda e Pagu, ela uma bailarina, ele um grande muralista, forjado na arte de rua, decidiram marcar a data com uma nova exposição de arte visual, só que dessa vez sem o caráter elitista da primeira, mas mantendo seu espírito antropofágico.
Antropofagia, literalmente, significa o ato de comer carne humana — de anthropos, homem, e phagein, comer. Mas os modernistas, sobretudo Oswald de Andrade, deslocaram esse sentido literal para uma metáfora cultural radical: em vez de simplesmente imitar a cultura europeia, deveríamos devorá-la, assimilá-la criticamente e transformá-la em outra coisa, brasileira, nossa. O Manifesto Antropófago, publicado por Oswald em 1928, levou adiante uma ideia que já aparecia no projeto da poesia Pau-Brasil: não rejeitar o que vinha de fora, mas incorporá-lo e reinventá-lo a partir da experiência brasileira.
Era um deslocamento de sentido que correspondia, de certo modo, ao próprio gesto dos modernistas de 1922. Na literatura, estavam Mário e Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Ronald de Carvalho e outros; nas artes visuais, Anita Malfatti, Victor Brecheret e Di Cavalcanti; na música, Heitor Villa-Lobos; e em diferentes campos artísticos, artistas que ajudaram a romper com os modelos acadêmicos e a buscar uma linguagem brasileira moderna. A Semana, realizada no Theatro Municipal de São Paulo em fevereiro de 1922, reuniu pintura, escultura, literatura, música, dança e conferências, sob forte influência das vanguardas europeias, mas com a intenção de adaptá-las e transformá-las em uma experiência artística brasileira.
Décadas depois, esse mesmo espírito antropofágico seria evocado pela Tropicália. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e Gal Costa, entre tantos outros, misturaram tradição e vanguarda, música popular e erudita, referências brasileiras e estrangeiras, sem aceitar a obrigação de escolher entre uma coisa e outra. O mesmo espírito pode ser reconhecido, em linguagens diferentes, em José Celso Martinez Corrêa, Torquato Neto e Hélio Oiticica. A antropofagia oswaldiana atravessaria assim a música, o teatro, a poesia e as artes visuais brasileiras, chegando a uma nova geração como uma espécie de método: devorar, misturar, transformar.
A intenção do casal — Fernanda e Pagu (ele com o mesmo apelido de uma das musas do modernismo de 1922, a poeta, atriz e jornalista Patrícia Galvão) — era tirar as “belas artes” dos museus excludentes já mesmo em suas arquiteturas, mas também em suas curadorias muito pouco polifônicas, nem simpáticas a migrantes de classe, nem principalmente a artistas cujas obras são politicamente destemidas e afrontam os poderosos. Ou seja, a proposta era levar mais adiante e aprofundar o projeto dos modernistas de 1922: a arte visual não pode ser um privilégio de brancos ricos nem mercadoria para lavar dinheiro. Pagu e Fernanda decidiram transformar as empenas (as fachadas “cegas”, sem janelas) dos prédios de São Paulo em paredes dessa arte do século XXI tributária das vanguardas do modernismo.
Nesse sentido, e sabendo que eu era também um artista visual saindo da crisálida em pleno exílio; e sabendo que duas obras minhas já haviam integrado duas coletivas, uma em Nova York, outra em Londres, Pagu convidou-me a participar e contribuir com uma obra.
Lisonjeado e pouco depois de falar com ele, a ideia me veio à cabeça como uma epifania: o modernismo SOMOS NÓS; São Paulo SOMOS NÓS. Sim, “NÓS”, nos dois sentidos desta palavra: o plural de “NÓ” e a primeira pessoa do plural do caso reto. Veio-me, na sequência sináptica que todo artista experimenta no momento da criação, uma imagem bem comum no imaginário das centenas de milhares de baianos que passeiam e trabalham sob a garoa de São Paulo: uma mão segurando um punhado de fitas coloridas que começam em nós e terminavam em texturas que se dissipavam. Poderiam ser as fitas do Senhor do Bonfim, mas também as fitas de Nossa Senhora Aparecida, tremuladas pelo vento que sopra do Vale do Paraíba e afasta os maus humores dos rios Tietê e Pinheiros. Poderia ser também o arco-íris, símbolo global do movimento LGBTQIAPN+.
Segurando-as, uma mão negra anônima (nascida da mestiçagem entre indígenas originários, pretos africanos escravizados, imigrantes italianos, sírio-libaneses, judeus do leste europeu, japoneses, brancos bandeirantes e os novos imigrantes — chineses, sul-coreanos, senegaleses, nigerianos, angolanos, bolivianos, venezuelanos e todos os nordestinos e nortistas do Brasil), mão do povo que carrega este estado nas costas, povo trabalhador e honesto; povo que aprendeu com o tempo a se respeitar e a cooperar, mas que infelizmente também foi infectado pelo ódio da extrema direita transmitido via mídias sociais a partir de 2016; mão sem gênero porque de todos os gêneros e transgênero ao mesmo tempo.
Estava formada a ideia, e esta tomou minhas mãos e estas, as tintas, e assim nasceu “NÓS”, minha humilde contribuição às comemorações do centenário da Semana de 1922! Pagu e Fernanda Bueno amaram!
Não sou dos artistas que gostam de interpretar a própria obra, pois sei que qualquer obra de arte carrega sentidos que escapam à consciência de seu autor ou autora, sentidos que estão nos inconscientes individual e coletivo. Mas “NÓS” traduz São Paulo em sua diversidade cultural e em sua dureza.
Ao retornar do exílio em 2023, escolhi o Estado de São Paulo e a cidade de São Paulo para recomeçar minha vida quase do zero. Minha rede de amigos paulistas e paulistanos e outras e outros que não nasceram aqui, mas que são igualmente paulistas porque aqui vivem e aqui pagam seus impostos, me recebeu de braços abertos. A velha amizade — verdadeira, leal, rica e feliz — é o que esboça o país mais real. Sou grato demais aos amigos e amigas de verdade que me estenderam as mãos e formaram nós com as minhas.
Da Aclimação para o Arouche, a paisagem de São Paulo já não me espanta. De São Bento do Sapucaí a Salto de Itu; de Bom Jesus dos Perdões a Ribeirão Preto; do ABC a Catanduva, passando por Holambra, vi um novo estado se revelar para mim, ora conservador e reacionário, ora progressista e aventureiro.
Nesta campanha eleitoral nascida coletiva desde sempre, e cujo lema é “São Paulo pra todo mundo” — um slogan que quer ser mais um verso, já que apresenta o estado ou o anseia como uma terra de oportunidades para todas e todos, mas também um lugar aberto às influências do mundo globalizado e em crise climática —, novos NÓS se ataram e desataram em minha vida. Conheci cidades e gente nova, acendi a chama da esperança em muita gente, aprendi novas coisas e aprendi melhor as que já sabia.
Fizemos uma campanha linda, solidária e criativa com os pouquíssimos recursos que nos deram. Ela é a prova de que não é apenas a força que ergue coisas belas. Com recursos humanos como inteligência natural, bom humor e criatividade, deixaremos um case de sucesso em marketing digital baseado quase exclusivamente no repertório cultural, decência, coerência e experiência de um candidato que é múltiplo e gosta de assim o ser: jornalista, escritor, ativista dos direitos humanos, integrante do movimento LGBTQIAPN+, professor e artista visual, em horas vagas também diretor artístico de shows.
A eleição é domingo agora, dia 4 de outubro, primeiro turno das Eleições Gerais de 2026. Não sei qual será o resultado para mim. Posso perder, claro. Mas posso vencer também. Está nas mãos de Deus, de D’us, das deusas, das e dos orixás, de todas as entidades benignas, de Meishu-Sama, de Buda, dos caboclos e caboclas originárias e dos muitos avatares de Nossa Senhora, em especial o de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Aprendi cedo a respeitar a dimensão sagrada e a não me queixar dos resultados que ela traz para minha vida, pois tudo tem um propósito.
Seja qual for o resultado, eu saio um ser humano melhor dessa campanha, com um conhecimento mais agudo das paixões boas e ruins que movem os seres humanos nesta vida. Portanto, independentemente do que acontecer domingo, dia 4, sinto-me um vencedor! Tô que nem criança: TÔ DE ALMA LIMPA! Quantos nesta eleição podem dizer o mesmo?
Por isso, hoje as minhas flores em vida não serão dadas a um intelectual ou artista que contribua para o progresso espiritual da humanidade. Eu as darei ao Estado de São Paulo que me abriga, às minhas amigas e amigos que me convenceram a entrar nessa empreitada e que não soltaram a minha mão até agora, mostrando-me que a vida presta muito, e às eleitoras e eleitores que se engajaram de corpo e alma nessa campanha linda. OBRIGADO!
No domingo, dirijamo-nos todos e todas com a vontade de desatar os nós que nos prendem ao passado escravocrata e aos que querem prender o Brasil ao banditismo e ao neocolonialismo. Que cada pessoa faça sua escolha de acordo com sua consciência, suas convicções e seus sonhos para o Brasil.
Jean Wyllys é escritor, jornalista e artista visual. Autor, entre outros livros, de “O anonimato dos afetos escondidos” (Tusquet Editores, 2025) e “Falsolatria” (Editora Nós e Edições Sesc SP, 2024).
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/eu-vejo-nos-em-sao-paulo/


