A ascensão da extrema direita, ao contrário das otimistas previsões de alguns comentaristas políticos, não arrefeceu. Mais do que isso, a extrema direita tornou-se um modo de vida. Entre os influenciadores mais populares, destacam-se justamente aqueles identificados com esse campo político. Seu discurso tornou-se popular não por mero acaso, mas porque o caldo cultural do sobrevivencialismo, produzido pela lógica neoliberal, tornou-se profundamente arraigado às relações interpessoais.
No dia 20 do mês passado, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou um projeto de lei que pretende alterar o local de realização da Parada do Orgulho LGBTQIA+ e proibir a presença de crianças e adolescentes no evento. Em votação simbólica, a proposta recebeu 45 votos favoráveis.
Esse resultado, por si só, já revela o caráter reativo da Câmara paulistana, que vem, dia após dia, produzindo políticas de cunho conservador e reacionário. O texto foi apresentado por ninguém menos que Rubinho Nunes, cuja trajetória política está ligada ao MBL (Movimento Brasil Livre), grupo que prometia renovar a política nacional, embora o próprio vereador seja filho de políticos tradicionais.
Uma das grandes habilidades da extrema direita, inclusive do ponto de vista histórico, foi fugir das questões estruturais, alimentar bodes expiatórios e aliar-se ao tradicionalismo – inclusive às suas violências constitutivas – por meio de novos discursos. Ela precisa apresentar-se como novidade, ainda que carregue consigo todo o peso da velhacaria. Com a nova ascensão não foi diferente.
A extrema direita que emergiu com o MBL possui uma habilidade ímpar para manejar o conservadorismo difuso da sociedade brasileira e, infelizmente, a esquerda tem demonstrado pouca capacidade de enfrentá-lo. Aliás, pode-se dizer até mesmo que a esquerda institucional evita o confronto com as chamadas “temáticas sensíveis”. O resultado é o fortalecimento de um caldo cultural conservador, que forja um horizonte cada vez mais reacionário e faz com que os representantes dessa mesma extrema direita se apresentem como a voz dos chamados “cidadãos de bem”.
O cálculo – aliás, bastante simples – consiste em manter a base engajada por meio dos chamados temas sensíveis, mobilizando o conservadorismo e preservando os privilégios da classe que representam. Nesse sentido, um tema particularmente candente – e que desperta as paixões conservadoras – é a sexualidade.
Historicamente, no Brasil, a sexualidade esteve fortemente associada a uma concepção idealizada da família, tomada como núcleo central da experiência de “ser homem”. O pano de fundo que alimenta essa fantasia reacionária foi historicamente o catolicismo e, mais recentemente, a crescente influência política de setores do evangelicalismo.
O passado histórico do Brasil foi marcado por uma noção desenvolvimentista articulada a um imaginário familiar compatível com as relações nucleares burguesas. Nesse horizonte, a família era concebida como a união indissociável entre um pai e uma mãe, definida a partir da própria anatomia. Durante os raros períodos democráticos, essa concepção foi questionada e apresentada como um modelo historicamente constituído, e não como uma realidade natural.
Com a passagem ao neoliberalismo, ocorre uma inflexão. Assistimos à intensificação da individualização dos fenômenos sociais. A construção de um Eu supostamente idêntico a si mesmo, forjado pela concorrência e confrontado com o desmantelamento das proteções sociais, passou a perceber o mundo segundo uma lógica sobrevivencialista. A dissolução dos laços coletivos, a hiperindividualização promovida pela competição e a implosão do mundo do trabalho deram origem a um modo de vida no qual o apego à família se converteu em um dos últimos esteios de segurança.
Assim, o neoliberalismo produz formas de individualização que transformam a família em um dos últimos refúgios imaginários de estabilidade. A extrema direita, por sua vez, converte essa centralidade da família em uma política da sexualidade condensada em um slogan recorrente: “em defesa da família”.
O medo mobilizado por esse slogan refere-se justamente ao apego àquilo que parece ser a única coisa que restou em um horizonte de descalabro social. Valendo-se de um imaginário historicamente conservador, a extrema direita procura convencer seus adeptos de que a liberdade sexual representa a ameaça mais imediata à preservação dessa garantia ilusória.
Criando o bode expiatório perfeito para um imaginário conservador – e profundamente religioso –, as pessoas LGBTQIA+ aparecem, no discurso da extrema direita, como o mal a ser combatido. Convém lembrar que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, segundo relatórios da Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Nesse contexto, a vulnerabilidade dessa população tende a se aprofundar, assumindo formas cada vez mais violentas.
Mas por que a sexualidade dos outros se torna um problema político para sujeitos que afirmam defender a liberdade individual? Se, por um lado, há o cálculo mesquinho de instrumentalizar o imaginário conservador brasileiro para fins partidários, por outro, há um dado de realidade: a família tradicional – tal como é hegemonicamente imaginada e difundida pelos meios de comunicação de massa – aparece como o que restou de um mundo que parece entrar em ruínas. Qualquer outra forma de conceber a família passa, então, a ser vista como uma ameaça, algo que deve ser interditado.
Mas a eficácia desse discurso não decorre apenas de um cálculo político. Ela encontra apoio em uma característica constitutiva da própria experiência sexual, cuja abertura resiste às tentativas de enquadramento promovidas pelas instituições sociais. Há ainda um terceiro elemento insuportável para o credo da extrema direita: a própria sexualidade humana. Aberta e incompleta, ela coloca em questão os modos burocráticos e restritivos das instituições patriarcais que organizam a vida social.
Levar em consideração seu caráter desviante – e, assim, evidenciar que os arranjos familiares são historicamente determinados – produz, mais do que medo, uma verdadeira fobia naqueles que precisam obliterar as múltiplas formas da experiência sexual para não se confrontarem com as contradições e impasses de sua própria sexualidade.
A sexualidade torna-se alvo justamente porque desafia as formas de estabilização que sustentam o status quo. A extrema direita, explorando a insegurança produzida por relações sociais carcomidas pela austeridade, mobiliza medos atávicos inscritos no imaginário conservador brasileiro para ampliar sua influência. A força desse mecanismo repousa na capacidade de converter a angústia social em perseguição moral. Do medo ao ódio: eis uma das fórmulas políticas mais eficazes da extrema direita.
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/por-que-sexualidade-alheia-entrou-na-mira-da-extrema-direita/

