Arte, esporte e comunicação comunitária ajudam a prevenir a violência nas periferias de Manaus

Projetos sociais em comunidades criam espaços de formação e pertencimento para jovens, mas especialistas alertam para a necessidade de políticas públicas permanentes.

Em uma capital onde apenas 6,4% dos estudantes chegam ao 3º ano do Ensino Médio, o menor índice entre as capitais do Norte do país e onde 17,7% dos alunos deixam de frequentar a escola por medo da violência no trajeto, projetos sociais desenvolvidos nas periferias de Manaus têm se consolidado como espaços de acolhimento, formação e construção de perspectivas para a juventude local. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024.

Atuando por meio do esporte, da arte, da cultura, da comunicação comunitária e da qualificação profissional, essas iniciativas alcançam crianças, adolescentes e jovens que encontram poucas oportunidades dentro dos territórios onde vivem.

Embora não sejam uma solução isolada para problemas estruturais, os projetos têm contribuído para reduzir situações de vulnerabilidade e fortalecer vínculos comunitários.

Capacitação e protagonismo

A Central Única das Favelas do Amazonas (Cufa-Am) é uma das organizações que atuam nesse campo. Segundo o presidente da instituição, Alexey Ribeiro, entre três mil e quatro mil pessoas participam diretamente das atividades desenvolvidas pela entidade, com um alcance indireto que varia entre 50 mil e 100 mil pessoas.

Recentemente, a entidade lançou o curso de audiovisual “Do Celular ao Bolso”, voltado a capacitação de jovens e adultos para transformar o celular em uma ferramenta de trabalho, empreendedorismo e geração de renda.

“Quando a pessoa desenvolve uma atividade que lhe garante protagonismo na própria vida, ela consegue crescer socialmente e enxergar novas perspectivas”, afirmou o presidente.

Foto: Cufa-Am

Arte e cultura como caminhos possíveis

Nas periferias, a transformação também passa pela arte. A coordenadora-geral do projeto Arte Ocupa, Sarah Campelo, conta que a iniciativa nasceu de forma espontânea, quando crianças começaram a participar de encontros de pintura em uma praça do bairro Petrópolis.

“A arte cria um espaço de liberdade, imaginação e descoberta. Em contextos marcados por dificuldades, ela amplia horizontes e permite que crianças e adolescentes imaginem outros futuros possíveis para si mesmos”, diz.

A experiência encontra respaldo em pesquisas internacionais: um estudo conduzido por pesquisadores das Universidades de Londres e da Flórida, acompanhando cerca de 25 mil estudantes, concluiu que a participação em atividades artísticas está associada à redução de comportamentos antissociais e do envolvimento em crimes.

Foto: Divulgação / Arte Ocupa

O hip-hop também ocupa esse espaço. A vice-presidente da Associação Intercultural de Hip-Hop Urbanos da Amazônia (AIHHUAM), Mel Angeoles, explicou que o movimento funciona como instrumento de identificação e construção de alternativas para jovens das periferias. “O hip-hop nasceu reivindicando direitos básicos. Quando o jovem vê pessoas com histórias parecidas com a dele conseguindo reconhecimento por meio da arte, ele percebe que existem outros caminhos possíveis”, destacou.

A associação mantém uma rede com mais de quatro mil artistas e ativistas cadastrados e formou recentemente 150 agentes culturais por meio de uma trilha voltada ao empreendedorismo cultural e ao acesso a editais e recursos públicos.

Foto: Divulgação / Arte Ocupa

A periferia que conta sua própria história

A comunicação comunitária também tem se mostrado uma ferramenta de fortalecimento territorial. No bairro São Francisco, o coletivo Periferia Respira desenvolve ações de jornalismo comunitário e iniciativas culturais no território do Cafundó.

Para o jornalista Maurício Max, idealizador do projeto, as periferias costumam ganhar visibilidade apenas em episódios de violência ou tragédia. “As notícias geralmente são policiais e passam a impressão de que não existe nada além da violência nesses territórios. Quando contamos histórias positivas, fortalecemos a autoestima da comunidade e incentivamos novas iniciativas”, declarou.

Foto: Divulgação/Periferia Respira

Para Max, a cultura e a comunicação funcionam como instrumentos de prevenção à violência ao criar espaços de pertencimento. “Quando eles se sentem ouvidos, enxergados e reconhecidos, fica mais fácil despertar o interesse pela comunidade e explorar talentos que muitas vezes passam despercebidos.”

Desenvolvimento emocional e social

Para a psicóloga Salete Lima, os benefícios dessas iniciativas vão além da ocupação da rotina. “O desenvolvimento da sensibilidade, das regras e do respeito à diversidade são valores essenciais para as futuras gerações sobreviverem em um mundo cada vez mais competitivo”, avaliou.

Segundo ela, projetos sociais bem estruturados oferecem acolhimento e experiências que ajudam crianças e adolescentes a construir referências positivas para a vida adulta.

Foto: Divulgação / Arte Ocupa

Os entrevistados convergem, no entanto, em um ponto: os projetos sociais não substituem a responsabilidade do poder público.

Apesar de Manaus ter registrado nos últimos anos uma redução expressiva nos homicídios, alcançando a taxa de 16,1 mortes por 100 mil habitantes, o melhor índice em 25 anos, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM), a violência continua impactando a rotina escolar e comunitária de milhares de jovens.

Para os representantes das iniciativas, o fortalecimento desses projetos depende de investimentos contínuos e de políticas públicas capazes de garantir acesso permanente à cultura, ao esporte, à educação e à qualificação profissional.

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Fonte: https://emtempo.com.br/472686/amazonas/arte-esporte-comunicacao-ajudam-prevenir-violencia-periferia/