A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recorreu à inteligência artificial para tentar reescrever a história do sistema financeiro nacional. Em um vídeo publicado neste domingo (7), o parlamentar utiliza uma favela cenográfica gerada por IA e um jingle em ritmo de funk para tentar colar em Jair Bolsonaro a paternidade do Pix. A peça caricata repete à exaustão o refrão: “Pix é do Bolsonaro, meu amor”.
https://www.instagram.com/reel/DZTKcGMpXJ1/
Na publicação, Flávio afirma na legenda que a ferramenta “foi feita no governo Bolsonaro” e decreta que “ninguém mexe no nosso Pix!”. O ex-presidente aparece na montagem digital tocando pandeiro e dançando entre apoiadores simulados por algoritmos, em uma tentativa explícita de mimetizar apelo popular e apagar a verdadeira cronologia do Banco Central (BC).
Apropriação política tenta encobrir crise com os EUA
A publicação do vídeo não ocorre em um vácuo político. A investida de Flávio Bolsonaro surge como uma manobra de controle de danos após o sistema de pagamentos brasileiro virar alvo de uma investigação comercial pelo governo de Donald Trump. O clã Bolsonaro, que atuou ativamente em lobby junto a atores políticos norte-americanos, agora tenta se blindar do desgaste de ver uma ferramenta unânime entre os brasileiros ameaçada por interesses estrangeiros.
Enquanto Eduardo Bolsonaro chegou a sugerir publicamente a troca do Pix pelo sistema estadunidense Zelle, demonstrando desconhecimento sobre as diferenças estruturais e a gratuidade da ferramenta nacional, Flávio adota a tática oposta: tentar sequestrar a autoria do projeto para o bolsonarismo.
Farsa desmentida pela história e pelos documentos oficiais
A narrativa de que o Pix surgiu de uma “canetada” ou do brilhantismo de Jair Bolsonaro esbarra em um obstáculo intransponível: os registros oficiais do Estado brasileiro. Como já detalhado na verdadeira história por trás do sistema , o Pix é uma infraestrutura pública de Estado, construída a múltiplas mãos pelo corpo técnico do Banco Central, e não um projeto de governo.
A massificação da ferramenta só foi possível graças a uma robusta arquitetura legal e social pavimentada muito antes de 2018. Para que o Pix funcionasse, foi necessário um longo processo que incluiu as gestões de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que gestaram o sistema por meio de políticas de inclusão financeira e da sanção da Lei nº 12.865/2013, que quebrou o monopólio dos grandes bancos e permitiu ao BC regular os arranjos de pagamento.
O cronograma que o bolsonarismo tenta apagar
O desenvolvimento tecnológico da plataforma antecede a chegada de Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Em 2015, o BC já debatia o tema em fóruns de inovação. Em maio de 2018, no governo Michel Temer, foi criado o Grupo de Trabalho de Pagamentos Instantâneos. As bases estruturais de governança, liquidez e conectividade, a “planta baixa” do Pix, foram publicadas no Comunicado nº 32.927 em 21 de dezembro de 2018, semanas antes da posse de Bolsonaro.
A prova definitiva do distanciamento do ex-presidente em relação à criação da plataforma ocorreu em 5 de outubro de 2020. No dia em que os bancos iniciaram o cadastro das chaves Pix, Bolsonaro foi questionado por um apoiador sobre o sistema. Confuso, chegou a associar a ferramenta à aviação civil e admitiu que precisaria “conversar com o Roberto Campos Neto” para entender do que se tratava.
A campanha de Flávio Bolsonaro, portanto, utiliza o que há de mais moderno em inteligência artificial para embalar uma desinformação antiga. O vídeo com a favela fake funciona como uma metáfora perfeita para a narrativa bolsonarista sobre o Pix: uma fabricação digital desenhada para encobrir a realidade.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-favela-ia-pix/

