Mesmo com risco de calote, Cedae aplicou R$ 91,2 milhões no banco de Edir Macedo na gestão Castro

A Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) realizou aportes que chegaram a R$ 91,2 milhões no Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, durante a gestão do então governador Cláudio Castro. As operações foram conduzidas por Antonio Carlos dos Santos, indicado por Castro para comandar a Diretoria Financeira e de Relações com Investidores (DFI) da estatal.

Santos assumiu o cargo em junho de 2025, poucos meses após atuar como assessor-chefe do gabinete de Castro no Palácio Guanabara. Na Cedae, passou a ser responsável pela assinatura de contratos e pela definição dos investimentos financeiros da companhia. Antes dos aportes no Digimais, ele já havia sido o principal responsável pela aplicação de mais de R$ 200 milhões da estatal no Banco Master.

As aplicações no banco ligado a Edir Macedo ocorreram por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e foram mantidas mesmo diante de sinais de fragilidade financeira da instituição. Apenas posteriormente os recursos passaram a ser direcionados para operações cobertas pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A primeira aplicação ocorreu em junho de 2025, período em que a Cedae enfrentava incertezas relacionadas aos investimentos feitos no Banco Master. Em parecer emitido em 4 de junho daquele ano, Santos aprovou um aporte de R$ 35 milhões no Digimais. O investimento previa rendimento de 106% do CDI e prazo de resgate de 180 dias, sem liquidez diária.

A recomendação foi elaborada pelos assessores Hedmilton Mourão Cardoso, Magno Neves Fonseca e Mauro Luis Marques, os mesmos que participaram das análises envolvendo o Banco Master. O documento técnico defendia a operação afirmando que “A referida emissão constitui oportunidade atrativa para a Cedae, desde que o volume alocado seja inferior a R$ 40 milhões, valor de limite que conta com a garantia especial do Fundo Garantidor de Créditos (FGC)”.

Dois meses depois, em agosto de 2025, uma nova operação foi autorizada. Desta vez, a recomendação foi para investir mais R$ 25 milhões em um CDB com prazo de um ano e rentabilidade de 109% do CDI. Os recursos seriam retirados de um fundo administrado pelo Itaú.

Os aportes foram viabilizados após alterações na política de investimentos da companhia. Segundo apuração interna, mudanças promovidas por Santos reduziram as exigências mínimas de classificação de risco para determinadas instituições financeiras. Antes, a Cedae exigia nota mínima A-. Após a mudança, passaram a ser aceitas instituições com classificação BBB-, exatamente o patamar atribuído ao Digimais pelas agências Fitch e Moody’s.

As novas regras permitiam que até 10% da carteira financeira da estatal fosse aplicada em bancos com essa avaliação. Depois dos problemas enfrentados pelo Banco Master, o Digimais foi a única instituição com esse perfil a receber recursos da companhia.

A situação financeira do banco de Edir Macedo se deteriorou ao longo dos meses seguintes. Em janeiro de 2025, o religioso anunciou a venda da instituição para Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, por R$ 800 milhões. O negócio, entretanto, foi abandonado em abril. Considerada uma saída importante para o banco, a operação fracassou em meio ao agravamento dos indicadores financeiros da instituição, levando Macedo a injetar mais de R$ 700 milhões no negócio.

Apesar desse cenário, os investimentos foram mantidos. Em 24 de fevereiro de 2026, uma reunião extraordinária do Comitê de Auditoria da Cedae discutiu especificamente os riscos relacionados ao Digimais. A ata registra que os integrantes do colegiado destacaram “os pontos negativos e de riscos de cada instituição financeira onde a Cedae possui investimentos. Diante disso, foi solicitado ao time técnico a conclusão sobre tais investimentos, inclusive a possibilidade de realocação para instituições com melhor rating”.

Naquele momento, a companhia já havia contratado auditoria independente para analisar sua situação financeira. Durante a reunião, foi informado que a estatal buscava resgatar os valores investidos no Digimais, embora não tenha ficado esclarecido por que os recursos ainda não haviam sido recuperados.

Mesmo diante das preocupações levantadas, uma nota técnica produzida pela DFI em 13 de março de 2026 recomendou a manutenção das aplicações. O documento classificava o cenário do banco como “negativa”, apontando “reversão para lucro semestral, melhora de Basileia; prejuízos acumulados e forte dependência de depósitos a prazo”. Ainda assim, concluiu que “há mitigantes de risco que levam à recomendação da manutenção das atuais posições”.

Segundo a diretoria financeira da estatal, o principal fator de proteção era a cobertura do FGC para aplicações de até R$ 40 milhões. Naquele período, a Cedae mantinha aproximadamente R$ 39 milhões investidos no Digimais.

Poucos dias depois, a situação do banco se agravou ainda mais. No fim de março, a Fitch rebaixou a classificação da instituição para BB-, nível considerado especulativo. Em 26 de maio, a Moody’s reduziu a nota para CCC+, indicando risco iminente de inadimplência.

No relatório que acompanhou o rebaixamento, a agência alertou: “O rebaixamento dos ratings do Digimais reflete a avaliação da Moody’s Local Brasil sobre um aumento significativo no risco dos ativos do banco, principalmente devido à sua crescente exposição aos fundos de investimento alternativos ao longo de 2025. Em dezembro de 2025, a carteira de títulos e valores mobiliários, composta majoritariamente por cotas de fundos de investimento, totalizava R$ 4,3 bilhões, correspondendo a cerca de 42% do total de ativos e representando 5,4 vezes o patrimônio líquido do banco. A qualidade e a recuperabilidade desses investimentos são incertas, como evidenciado pelo parecer de auditoria externa com ressalvas sobre R$ 3,1 bilhões, ou 73% dos fundos reportados, devido às limitações de informações sobre a adequação desses valores”.

Àquela altura, a política de aplicações financeiras da própria Cedae já proibia investimentos em instituições com classificações tão baixas. No entanto, os recursos permaneceram no Digimais porque os contratos firmados anteriormente impediam o resgate imediato antes do vencimento.

Em nota, a Cedae informou que “uma das primeiras medidas da atual administração foi mudar a Política de Aplicações Financeiras” para “reforçar mecanismos de governança, controle e mitigar riscos na gestão das aplicações financeiras”. A empresa acrescentou que os investimentos no Digimais não serão renovados e que os recursos serão direcionados para as “maiores e mais sólidas instituições financeiras do país”.

Antonio Carlos dos Santos, por sua vez, declarou “que todas as alocações de sua carteira estavam em conformidade com a política de aplicações financeiras da Cedae, conforme apuração da auditoria interna”. Segundo ele, “as decisões de investimento seguiram as normas de governança e a política de aplicações financeiras, tendo sido aprovadas pelas instâncias competentes, incluindo o Conselho de Administração, o Comitê de Auditoria e a Diretoria Executiva”. O ex-diretor também afirmou que não houve “quaisquer interferências externas ou políticas” nas decisões relacionadas aos investimentos realizados durante sua gestão.

Fonte: https://horadopovo.com.br/mesmo-com-risco-de-calote-cedae-aplicou-r-912-milhoes-no-banco-de-edir-macedo-na-gestao-castro/