BotCity mira “governança de Python” em resposta ao desafio da IA generativa

Faz dez anos que a BotCity resolve, essencialmente, um desafio comum nas empresas: manter sob controle o Python que roda nos negócios. Só que esse problema, segundo o cofundador e CEO da companhia, Lorhan Caproni, “ficou cem vezes maior” desde que a inteligência artificial generativa (GenAI) passou a escrever código sozinha e colocou nas mãos de diversos talentos, e não apenas de desenvolvedores, o poder de criar automações.

É essa mudança de escala que explica por que a empresa, nascida em Campinas (SP) em 2020, capta rodadas cada vez maiores de investidores internacionais, lança um novo produto batizado de Sentinel e mira agora escritórios comerciais nos Estados Unidos e no Reino Unido. Em entrevista ao IT Forum, Caproni detalhou como a empresa pretende se tornar a camada de governança para uma nova geração de agentes de IA nas empresas.

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A BotCity nasceu no mercado de automação robótica de processos (RPA), setor amplamente disputado por fornecedores que oferecem interfaces do tipo “drag and drop” em que o usuário monta a automação arrastando blocos visuais, sem escrever uma linha de código. A aposta dos fundadores foi na direção oposta: permitir que as automações fossem escritas diretamente em Python, linguagem de programação considerada de sintaxe simples, mas que há uma década ainda soava restrita a desenvolvedores.

“Tínhamos claro que a IA tornaria essa missão cada vez mais fácil e mais simples de criar. Hoje, pessoas de diferentes áreas de negócios automatizam seus processos escrevendo em Python. E para isso não ficar solto, alguma plataforma precisa centralizar a auditoria e o controle de tudo o que acontece com esse processo”, explica Caproni.

Essa centralização é o núcleo do negócio. A plataforma da BotCity monitora e audita cada automação em execução, do robô que atualiza o estoque de um supermercado ao script que roda dentro de sistemas de missão crítica em instituições financeiras, mesmo em ambientes com centenas de milhares de máquinas conectadas.

O momento em que essa aposta se provou correta, segundo o executivo, foi a virada de 2023 para 2024, quando ferramentas como ChatGPT, Gemini e Copilot passaram a devolver código Python pronto sempre que alguém pedia para “automatizar” qualquer tarefa. “Hoje, ao pedir para uma IA fazer uma ação, ela devolve Python. Porque Python é a língua da IA: se a IA fala uma língua, não é inglês, não é português é Python”, resume o CEO.

O problema que “ficou cem vezes maior”

O incômodo que a BotCity resolve tem nome: shadow AI, um desdobramento da já conhecido shadow IT, mas em escala maior. Trata-se do uso de ferramentas, modelos e automações de inteligência artificial sem monitoramento ou envolvimento das áreas de tecnologia, segurança ou jurídico de uma empresa.

Os números recentes do setor dão dimensão ao problema. Levantamento do IBM Cost of a Data Breach Report 2025 mostra que 87% das empresas brasileiras ainda não possuem políticas formais de governança de inteligência artificial, enquanto o custo médio de uma violação de dados no país já passa de R$ 7 milhões. Pesquisas setoriais também apontam que entre 40% e 65% dos colaboradores de grandes empresas usam ferramentas de IA não aprovadas pela área de TI, e que boa parte dos casos de uso não autorizado envolve dados jurídicos, financeiros e de clientes colados diretamente em prompts.

“Antes, Python era um tema de 50 desenvolvedores. Agora, são todos os profissionais motivados com o tema de diferentes áreas, algo perigoso. A maioria não tem a competência técnica, mas a motivação está lá em cima”, resume Caproni.

Segundo o executivo, a plataforma da BotCity e, mais recentemente, o produto Sentinel, funciona como uma camada instalada na máquina do usuário, capaz de identificar o que é executado e reportar ao time de TI se aquele processo está nos limites de segurança da companhia, sem impedir que o funcionário continue automatizando suas tarefas. É a aposta de que a resposta ao shadow AI não é proibir, e sim dar visibilidade e gerar governança, uma tese que também aparece atualmente com frequência no mercado. De acordo com especialistas em segurança da informação, o uso não autorizado de IA pode cair de forma expressiva quando a empresa oferece alternativas aprovadas em vez de apenas bloquear o acesso.

Bancos e indústrias lideram a demanda

Apesar de definir o desafio de governança como “horizontal”, presente em qualquer setor que use tecnologia, a BotCity concentra a maior parte de sua base de clientes em dois segmentos: serviços financeiros (bancos, fintechs e todo o ecossistema de mercado de capitais) e indústria de manufatura e energia. A explicação do CEO para esse cenário é a de que setores com alta concentração de profissionais com formação em engenharia atuando nas áreas de negócios, o que acelera tanto a adoção de Python quanto o volume de automações rodando sem controle central.

O momento do mercado financeiro brasileiro ajuda ainda a explicar essa concentração. A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, feita em parceria com a Deloitte, mostra que os bancos brasileiros devem investir R$ 50,4 bilhões em tecnologia neste ano, avanço de 8% sobre 2025, com a inteligência artificial como prioridade de investimento para 84% das instituições entrevistadas. Ainda assim, o mesmo estudo revela que cerca de 60% das instituições financeiras seguem em fases iniciais de adoção de IA, um contexto de corrida acelerada e maturidade desigual em que a governança tende a se tornar diferencial competitivo, e não apenas requisito regulatório.

Esse cenário é reforçado pela avaliação de outros executivos do setor. Líderes de tecnologia de grandes bancos têm apontado publicamente que o maior desafio da IA generativa não tem sido técnico, mas estrutural, incluindo consolidar a tecnologia em um ambiente confiável, governado e conectado aos negócios, o que exige justamente a camada de controle sobre a qual a BotCity constrói sua atuação.

Aporte de R$ 65 milhões puxa expansão

A BotCity encerrou 2025 com uma rodada Série A de R$ 65 milhões, liderada pelo fundo norte-americano Four Rivers e com participação da Y Combinator, uma das maiores aceleradoras do mundo, à qual a empresa está ligada desde os primeiros anos, além da Astella (investidora desde a rodada seed, em 2021, ao lado da SoftBank Latin America Fund) e da gestora Upload Ventures. O aporte foi realizado para acelerar o desenvolvimento do Sentinel e sustentar a estratégia de internacionalização da companhia, que hoje atende clientes como Bayer, LG, XP e Sicredi, entre outros nomes do mercado corporativo brasileiro.

Diferentemente do movimento típico de startups brasileiras, que costumam consolidar o mercado local antes de tentar internacionalização, Caproni afirma que a BotCity já nasceu com escopo global, com clientes na Europa e na Ásia desde o início da operação e um time distribuído entre Brasil e Estados Unidos. Agora, a prioridade é aprofundar a presença nos mercados onde a empresa já tem alguma penetração: um escritório comercial está sendo estruturado em Nova York, e o Reino Unido aparece como a segunda prioridade de expansão, à frente do restante da União Europeia.

Segundo o executivo, o ritmo de crescimento da receita tem ficado na casa de dois dígitos percentuais ao mês o que ele revela tem levado a empresa a triplicar de tamanho a cada ano, patamar em linha com o que se espera de companhias do setor com investidores do Vale do Silício, nos Estados Unidos, no cap table.

Questionado sobre onde concentra seu tempo hoje, Caproni indicou que é nas pessoas, no recrutamento de lideranças, sobretudo para os times que estão sendo montados nos Estados Unidos. “O recrutamento é a coisa mais difícil de uma empresa fazer bem-feito, muito mais difícil do que vender, muito mais difícil do que levantar dinheiro. É colocar as pessoas certas no lugar certo”, diz o executivo, que soma a essa frente o acompanhamento do desenvolvimento de produto e a proximidade com clientes estratégicos.

O que vem a seguir

O crescimento acelerado da adoção corporativa de agentes de inteligência artificial é, ao mesmo tempo, o maior motor de negócios da BotCity e o principal desafio da empresa. Estudos recentes do setor de tecnologia projetam a expansão contínua dos investimentos em governança de IA nos próximos anos, à medida que empresas migram de projetos-piloto isolados para arquiteturas mais complexas, com múltiplos modelos e agentes autônomos operando sobre sistemas críticos.

Para a BotCity, a aposta é que, quanto mais as empresas dependerem de IA para automatizar tarefas, maior será a necessidade de uma camada de controle sobre o código Python gerado por essas ferramentas o que, segundo Caproni, coloca a companhia “no lugar certo, na hora certa” para consolidar a categoria que criou há dez anos.

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/botcity-governanca-python-ia-generativa/