Como Sueli Carneiro nos ajuda a pensar a digitalização de antigas violências

 

 

Há pelo menos dez anos (desde o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016), venho tentando compreender por que determinadas mentiras relacionadas às minorias sociais, étnicas e sexuais encontram tanta facilidade para circular digitalmente em mídias sociais em detrimento de verdades factuais ou mesmo de conteúdos solidários a esses segmentos da população. Esse esforço (muitos já sabem disto, mas não me custa repetir) está ancorado na experiência dolorosa que me envolveu desde então. Vi meu nome e minha imagem transformarem-se em matéria-prima de um ecossistema digital de difamação financiado e alimentado pela extrema direita e pela direita extrema, ambas suturadas por organizações criminosas cujos tentáculos se estendem para além do Brasil, como revelam notícias recentes sobre a organização criminosa a partir do Banco Master e da lavagem de dinheiro por do filme Dark Horse. Assisti a pessoas absolutamente comuns repetirem ficções sobre mim com uma convicção que nenhuma evidência conseguia abalar. Percebi que o uso das mídias sociais por influencers e políticos desses espectros estavam recrudescendo a violência histórica contra minorias por meio do investimento numa semiótica que tornava críveis as calúnias e teorias conspiratórias consumidas pelos usuários em redes sociais digitais.

Recentemente, em evento da programação da Parada do Orgulho LGBTQ de São Paulo, dividi uma mesa com a escritora Cidinha Campos, que me deu, de presente, seu Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro (Editora Rosa dos Tempos, 2025).

A leitura desse produtivo manual me levou a rever minhas próprias anotações das leituras que já havia feito de textos de Carneiro e a recuperar as contribuições teóricas que ela me aportou para pensar essa atualização digital de violências velhas conhecidas de todos nós, pretos e mestiços, particularmente as mulheres cis e LGBTQs destes grupos populacionais.

Por essas contribuições, hoje as flores em vida desta coluna são para Sueli.

A obra de Carneiro é, mais que bibliografia para pensar as desigualdades raciais e de gênero e as iniquidades derivadas da colonização e da escravidão no Brasil, uma uma bússola moral. Ajudou-me a compreender, para além dos aspectos tecnológicos da contemporaneidade, por que a violência digital escolhe seus alvos com tanta precisão. A mentira organizada nas mídias sociais para justificar chacinas perpetradas pelas polícias militares em periferias e favelas do país ou para desqualificar mulheres vítimas de feminicídio ou ainda os mortos pela LGBTFobia não seleciona esses alvos ao acaso: percorre caminhos abertos por violências antigas e persistentes.

A história do Brasil foi organizada durante mais de três séculos por um regime econômico cuja riqueza dependia da escravização de povos indígenas e, sobretudo, de africanos trazidos compulsoriamente para estas terras. Calcula-se que cerca de cinco milhões de homens, mulheres e crianças desembarcaram nos portos brasileiros entre os séculos 16 e 19. Vinham de inúmeras sociedades africanas, entre elas povos bantos da África Centro-Ocidental, iorubás, jejes, haussás, mandingas e tantos outros. O tráfico negreiro apagou diferenças culturais, religiosas e linguísticas para fabricar uma única categoria: a do corpo escravizado. Sueli Carneiro nos diz, com sua rigorosa pesquisa, que Abolição extinguiu juridicamente a escravidão, mas não desfez a lógica que distribui humanidade dos brasileiros e brasileiras de maneira desigual.

Talvez seja este o momento de apresentar a mulher que tornou possível essa forma de olhar o Brasil. Filósofa, escritora, ativista e fundadora do Geledés Instituto da Mulher Negra, Sueli Carneiro nasceu em São Paulo, em 1950. Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo, construiu uma das obras mais consistentes do pensamento brasileiro contemporâneo. Livros como Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil e Dispositivo de racialidade: A construção do outro como não ser transformaram definitivamente a maneira como pensamos a relação entre democracia, raça, gênero e poder. Sua produção intelectual jamais se limitou ao ambiente acadêmico: Carneiro sempre se apresentou como intelectual pública que pôs seu conhecimento a serviço de processos decisórios cruciais para a afirmação dos Direitos Humanos desde a redemocratização do país iniciada com a promulgação da Constituição de 1988.

A originalidade de Sueli Carneiro está em demonstrar que o racismo não é apenas um mero preconceito, opinião ou um comportamento individual. Em diálogo crítico com a obra do filósofo francês Michel Foucault, ela mostra que existe um dispositivo de racialidade. Isto é, uma tecnologia histórica de poder que produz classificações, distribui lugares sociais, define quem merece credibilidade, proteção, reconhecimento e quem permanecerá disponível à suspeita, ao abandono ou ao extermínio. Carneiro escancara que racismo no Brasil não é uma deformação da democracia intermitente, mas um dos mecanismos que historicamente organizaram a sociedade brasileira.

Sempre vi uma ponte entre essas formulações de Sueli Carneiro e as de Pierre Bourdieu, já que a sociologia deste evidencia que o sofrimento social não depende apenas da renda ou da pobreza material. Ele decorre também das posições ocupadas pelos sujeitos no que diz respeito ao gênero e à cor da pele. A acumulação de posições subalternas impostas por essas identificações consequentemente ampliam as misérias do sujeito. Pensemos, como exemplo doloroso disto, o caso de Mirtes Renata, mulher negra empregada doméstica, cujo filho Miguel, de apenas 5 anos de idade, sua patroa permitiu que tomasse sozinho o elevador até o nono andar, de onde ele caiu para a morte precoce. Em relação a Mirtes, Sari Corte Real, a patroa classista insensível, não amarga nenhuma miséria, apenas goza da impunidade que a república de parentes brancos concede a si mesma.

Não se trata de uma simples soma de discriminações, mas, antes, da multiplicação de vulnerabilidades quando um mesmo sujeito ocupa simultaneamente diferentes posições historicamente desvalorizadas. A cor da pele, a origem étnica, o gênero, a identidade de gênero, a orientação sexual, a classe social e o território onde se vive produzem violências que se sobrepõem, entrecruzando-se e intensificando-se reciprocamente em seus efeitos deletérios. A deputado Erika Hilton, a despeito de toda sua estética publicitária de modelo negra da Vogue ou de Elle, enfrenta, de acordo com pensamento de Sueli Carneiro, um modo específico de organização da violência que não pode ser explicado pela adição de fatores isolados. O fato de ser negra, travesti e de origem pobre a coloca em mais vulnerabilidade que Manuela D’Avila, alvo frequente da violência política de gênero inclusive dentro de seu próprio partido.

Embora o termo interseccionalidade tenha sido cunhado por Kimberlé Crenshaw no final da década de 1980, intelectuais negras como Lélia Gonzalez, Angela Davis e a própria Sueli Carneiro já demonstravam, a partir de seus respectivos contextos, que raça, gênero e classe jamais atuam separadamente. No Brasil, Sueli foi além, mostrando-nos que a própria ideia de “humanidade” foi historicamente organizada segundo critérios raciais.

Essa percepção tornou-se decisiva para meus estudos sobre a mentira na política contemporânea.

Com base em minha pesquisa sobre desinformação na atualidade, venho afirmando que a mentira na internet deixou de ser apenas um vício moral para converter-se numa mercadoria. Aqui acrescento: a mentira digitalmente organizada numa economia pela extrema direita se tornou uma dispositivo de conservação social. Ou seja, ela produz não apenas desinformação (e desorientação subjetiva), mas buscas reafirmar privilégios ameaçados; restaurar hierarquias em declínio e transformar antigos ressentimentos em capital político. As grandes plataformas digitais descobriram que preconceitos históricos possuem extraordinário valor econômico. Não precisaram inventá-los. Bastou monetizá-los.

É por isso que considero insuficiente explicar a violência digital apenas pelos algoritmos ou pelas redes sociais. Estes aceleram processos muito anteriores à internet. O insulto racista que viraliza, a campanha de difamação contra uma mulher negra trans deputada federal ou contra uma mulher branca de esquerda pré-candidata ao Senado, a perseguição sistemática a pessoas LGBTQIA+, a fabricação industrial de mentiras contra lideranças políticas progressistas ou contra intelectuais críticos obedecem a uma lógica mais antiga. As tecnologias mudaram para que hierarquias permaneçam assustadoramente familiares.

Tenho chamado de falsolatria a idolatria contemporânea da mentira. Não porque a mentira seja novidade na política, mas porque ela passou a organizar comunidades inteiras, produzir identidades coletivas e oferecer sentido existencial a milhões de pessoas. A economia digital da atenção descobriu que a mentira rende mais quando desperta medo, ressentimento e desejo de punição. Descobriu também que determinados grupos são alvos preferenciais desse mercado. Negros, mulheres, indígenas, pessoas LGBTQIA+, migrantes, intelectuais, artistas e defensores dos direitos humanos aparecem como inimigos ideais porque já carregam, em si, marcas produzidas por uma longa história de desumanização.

É justamente aqui que a obra de Sueli Carneiro ilumina meu próprio percurso intelectual. Ela me ajuda a compreender que essas novas violências não nasceram das plataformas digitais, mas apenas encontraram nestas uma infraestrutura extraordinariamente mais eficiente. A mentira circula tão bem porque viaja sobre antigas estradas abertas pelo racismo, pelo patriarcado, pela LGBTfobia e pelas desigualdades de classe. Os algoritmos pavimentam em alta velocidade estradas medonhas já percorridas pelos homens (especialmente pelos homens brancos cis e heteros!).

Que Sueli Carneiro receba essas flores por ter nos ensinado a bater bem em cachorros grandes vivos, não em cachorros mortos! Com a ajuda de sua obra, deduzi que nenhuma teoria da desinformação será suficiente se ignorar as estruturas históricas que tornam determinadas mentiras mais verossímeis do que outras; e que as tecnologias digitais só ofereceram formas mais eficazes em se tratando de cognição – principalmente com o advento da Inteligência Artificial – para antigas formas de dominação e sujeição.

Nenhuma democracia conseguirá enfrentar a desinformação limitando-se à regulamentação das plataformas. Isso é necessário, mas insuficiente. Será preciso enfrentar também as desigualdades que permitem à mentira prosperar. Será preciso desmontar as hierarquias raciais, de gênero, de classe e de sexualidade que ainda organizam silenciosamente nosso imaginário político. Em outras palavras, será preciso democratizar a própria ideia de humanidade.

Obrigado, Sueli Carneiro, por me ajudar a enxergar melhor as injustiças nada sutis deste país ainda racistas, classista, misógino e LGBTFóbico. Os cachorros danados do fascismo ladram, mas não nos acovardaremos diante deles!

 

Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Autor, entre outros livros, de Falsolatria (Editora Nós e Edições Sesc São Paulo, 2024) e O anonimato dos afetos escondidos (Tusquest Editores, 2025). É pré-candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo.

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/como-sueli-carneiro-nos-ajuda-a-pensar-a-digitalizacao-de-antigas-violencias/