Racismo, arbitragem, Milei, arrogância: torcer contra a Argentina é dever de todo sul-americano

Messi presentei Trump na Casa Branca

Há uma cascata segundo a qual, por sermos do mesmo continente, devemos torcer para a Argentina na Copa do Mundo após o vexame do Brasil. É uma estupidez. Entre outros motivos, porque a Argentina não se considera do mesmo continente.

A última representante da América Latina no torneio não conta com a torcida de seus vizinhos. Do México ao Chile, passando por Colômbia, Peru, Equador, Uruguai e pela parte sã do Brasil, a eliminação da seleção de Lionel Messi tornou-se quase um objetivo comum.

A rejeição mistura rivalidades históricas, favorecimento da arbitragem no torneio, a idolatria idiota em torno de Messi, racismo e o fato de que os argentinos se consideram superiores aos vizinhos. Sim, temos uma velha rivalidade em campo que o saudoso Galvão Bueno explorava.

Ocorre que eles nos ainda nos chamam de macaquitos e cantam que viemos “da favela”. Isso não é um detalhe e não é do “folclore futebolístico”.

Infantino, o chefão da Fifa, não esconde sua predileção por Messi. Além do assalto contra o Egito, o americano Ismail Elfath foii escolhido como árbitro contra a Inglaterra. Elfath tem um histórico que chama atenção. Desde que Messi chegou ao Inter Miami, em 2023, apitou quatro partidas do craque argentino. O resultado foi perfeito para o camisa 10: quatro vitórias, quatro gols marcados e nenhum tropeço.

Pode ser coincidência? Claro. Mais uma.

A Argentina sempre se considerou uma extensão da Europa na América do Sul. Virou um lugar-comum no Brasil alegar que eles são “mais politizados”. Bem, votaram num palhaço fascista chamado Javier Milei.

Essa visão ficou explicitada num numa frase frequentemente repetida: “Os brasileiros vieram da selva, os mexicanos vieram dos índios e nós, argentinos, viemos dos barcos.”

Proferida pelo então presidente Alberto Fernández em 2021, a expressão aparecia em uma música popular de 1982. Fernández atribuiu-a ao escritor mexicano Octavio Paz, mas o Nobel havia escrito justamente uma crítica irônica ao excepcionalismo argentino ao afirmar que “os mexicanos descendem dos astecas, os peruanos dos incas e os argentinos… dos barcos”.

Os “barcos” representam a imigração europeia, principalmente italiana e espanhola, mas também inglesa. Na época da independência, no início do século XIX, cerca de 15% da população argentina era formada por africanos escravizados ou seus descendentes.

Essa população foi sendo invisibilizada por meio da miscigenação, da negação da identidade negra, da eliminação física como buchas de canhão e da construção da ideia de uma Argentina branca e europeia, presente na Constituição.

O termo “negro” continua sendo usado como insulto direcionado às camadas mais pobres da população. A maravilhosa Mercedes Soza, descendente do povo diaguita, originário do noroeste do país, era chamada de “La Negra”. Para eles, é tudo igual.

O caso Enzo Fernández

O debate ganhou dimensão internacional após a Copa América de 2024.

Durante a comemoração do título, o volante Enzo Fernández apareceu em uma transmissão ao vivo no ônibus cantando, junto com companheiros da seleção, uma música que afirmava que os jogadores da França “jogam pela França, mas são de Angola”.

A canção ainda dizia que Kylian Mbappé gostava de travestis, a mãe era camaronesa, o pai nigeriano e que “o passaporte dizia francês”.

Em determinado momento do vídeo, um integrante da delegação percebe a gravidade da situação e grita para interromper a transmissão ao vivo, evidenciando que os próprios jogadores sabiam que o conteúdo poderia gerar repercussão. Tarde demais.

A canção havia surgido ainda durante a Copa de 2022 entre grupos de torcedores argentinos, mas ganhou repercussão mundial apenas após a divulgação do vídeo de Enzo Fernández.

O Chelsea abriu investigação interna contra o jogador, atletas franceses condenaram o cântico e entidades de combate ao racismo classificaram a música como xenófoba, racista e transfóbica, mas ficou por isso mesmo.

Durante esta Copa do Mundo, torcedores argentinos foram flagrados dirigindo insultos racistas contra um streamer negro americano em duas partidas da seleção. Chamaram-no de macaco.

Também repercutiu a declaração do jornalista argentino Eduardo Feinmann, que afirmou na televisão que “detesta os mexicanos” e que eles têm inveja dos argentinos “não apenas no futebol, mas em tudo”. A fala foi condenada pela presidente mexicana Claudia Sheinbaum.

Messi não é Pelé

Embora seja um dos maiores jogadores da história, Lionel Messi é alvo de uma babação de ovo insuportável. A cobertura da imprensa e das transmissões transforma qualquer lance do camisa 10 em um momento extraordinário, criando uma idolatria psicótica. O narrador da CazéTV tem orgasmos múltiplos a cada vez que ele pega na bola ou dê um passe de lado.

A relação com o México também ficou abalada após a Copa de 2022, quando um vídeo mostrou uma camisa mexicana no chão do vestiário argentino enquanto Messi retirava as chuteiras. O boxeador Saúl “Canelo” Álvarez acusou o craque de desrespeitar o uniforme mexicano, algo que Messi sempre negou.

Anos depois, o próprio argentino reconheceu que aquele episódio alterou a forma como muitos mexicanos passaram a enxergá-lo.

Eles são auto-indulgentes. Como persiste no país a ideia de que “não existem negros” e, portanto, não haveria racismo, os argentinos sequer reconhecem o caráter discriminatório de músicas e gestos.

A única autoridade do governo que sugeriu um gesto de retratação após o hino atacando a seleção francesa, feita de filhos de imigrantes da África, acabou perdendo o cargo.

O então secretário de Esportes da Argentina afirmou, em entrevista, que os jogadores poderiam pedir perdão pelo episódio. A declaração desagradou Milei, que determinou sua demissão.

Segundo ele, ninguém poderia dizer “o que os campeões do mundo e bicampeões da América devem fazer ou dizer”.

!function(f,b,e,v,n,t,s)
{if(f.fbq)return;n=f.fbq=function(){n.callMethod?
n.callMethod.apply(n,arguments):n.queue.push(arguments)};
if(!f._fbq)f._fbq=n;n.push=n;n.loaded=!0;n.version=’2.0′;
n.queue=[];t=b.createElement(e);t.async=!0;
t.src=v;s=b.getElementsByTagName(e)[0];
s.parentNode.insertBefore(t,s)}(window, document,’script’,
‘https://connect.facebook.net/en_US/fbevents.js’);
fbq(‘init’, ‘301448060382165’);
fbq(‘track’, ‘PageView’);

Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/racismo-arbitragem-milei-arrogancia-torcer-contra-a-argentina-e-dever-de-todo-sul-americano/