Especialistas defendem protagonismo indígena na restauração de terras

No Dia da Amazônia, comemorado neste sábado (5), especialistas destacam a urgência de investimento na restauração de terras degradadas em territórios indígenas, o que significa ir além do plantio de árvores ou da recomposição da vegetação perdida.

A recuperação pode proteger nascentes, aumentar a segurança alimentar, trazer de volta espécies usadas pelas comunidades, fortalecer conhecimentos tradicionais e gerar renda.

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A discussão ganha mais importância no momento em que o Brasil amplia suas metas de recuperação de áreas degradadas. Durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, o país apresentou o compromisso de restaurar mais de 163 mil quilômetros quadrados até 2030.

Parte do esforço deverá alcançar territórios indígenas.

Dados do TerraClass de 2022 indicam que as terras indígenas da Amazônia concentram 952,3 mil hectares de áreas degradadas, predominantemente ocupadas por pastagens. Outros 24,4 mil hectares estão destinados à agricultura e 18,9 mil hectares à mineração.


Brasília (DF), 05/09/2026 - Especialistas defendem protagonismo indígena na restauração de terras, Diana Nascimento especialista em restauração indígena da TNC Brasil.
Foto: Diana Nascimento/Arquivo pessoal
Brasília (DF), 05/09/2026 - Especialistas defendem protagonismo indígena na restauração de terras, Diana Nascimento especialista em restauração indígena da TNC Brasil.
Foto: Diana Nascimento/Arquivo pessoal
Para a líder do povo Kaingang, Diana, a participação indígena muda até a definição do que é restaurar. Foto: Diana Nascimento/Arquivo pessoal

Também foram identificados 840,5 mil hectares de vegetação secundária. Somadas às áreas degradadas, elas representam um potencial de restauração estimado em 1,79 milhão de hectares dentro de terras indígenas da Amazônia.

Apesar das pressões, esses territórios continuam entre as áreas mais conservadas do país. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas divulgado em 2026, apenas 1,7% de toda a perda de vegetação nativa registrada no Brasil entre 2019 e 2025 ocorreu dentro de terras indígenas.

A indígena do povo Kaingang e especialista da The Nature Conservancy Brasil (TNC), Diana Nascimento, diz que os números de hectares recuperados não são suficientes para medir o sucesso de uma iniciativa. É preciso também participação ativa dos que vivem nos territórios.

“Quando os povos indígenas assumem o protagonismo da restauração, o território deixa de ser visto apenas como uma área onde precisamos recuperar vegetação e passa a ser entendido a partir de sua relação com as pessoas, a cultura, a alimentação, os conhecimentos tradicionais e os modos de vida”, afirma.

Segundo Diana, a participação indígena muda até mesmo a definição do que é restaurar.

“Não se trata apenas de quantos hectares foram restaurados ou quantas árvores foram plantadas, mas de entender quais espécies são importantes para aquele povo, quais alimentos e conhecimentos precisam ser recuperados, quais áreas são prioritárias e o porquê, e ainda como essa restauração pode contribuir para fortalecer a gestão e a autonomia do território”, explica Diana.

Onde restaurar

A definição das áreas prioritárias é um dos desafios diante da extensão dos territórios e da limitação de recursos. Uma área muito degradada, por exemplo, não será necessariamente aquela capaz de produzir os maiores benefícios para uma determinada comunidade.

Para ajudar nesse planejamento, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) desenvolveu um sistema integrado de informações para apoiar decisões sobre conservação e restauração em terras indígenas.

A iniciativa reúne dados sobre degradação, segurança hídrica, biodiversidade, mudanças climáticas, governança territorial, sustentabilidade, educação e saúde, entre outros fatores. O sistema foi desenvolvido em parceria com a TNC Brasil, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o programa britânico UK PACT.

Guillermo Florez Montero, líder de Ciência de Dados da TNC Brasil, explica que a ferramenta permite combinar diferentes variáveis e atribuir pesos a elas conforme os objetivos de cada projeto. Uma terra indígena com áreas de preservação permanente, cabeceiras de rios ou matas ciliares degradadas pode receber prioridade mesmo sem apresentar o maior nível de degradação.

“Podemos considerar áreas localizadas em regiões com maior insegurança hídrica, a partir do índice de segurança hídrica, ou mais ameaçadas pelo fogo, outro critério presente no sistema. Dessa forma, conseguimos construir modelos customizados”, explica.

O sistema utiliza uma metodologia de análise multicritério, pela qual o usuário seleciona as variáveis e estabelece a importância relativa de cada uma. O resultado é um índice comparativo que ajuda a indicar quais territórios merecem maior atenção diante de determinado objetivo.

Florez ressalta, entretanto, que o resultado matemático não substitui a decisão das comunidades.


Brasília (DF), 05/09/2026 - Especialistas defendem protagonismo indígena na restauração de terras, Guillermo Florez Montero da TNC Brasil
Foto: Guilhermo Florez Montero/Arquivo pessoal
Brasília (DF), 05/09/2026 - Especialistas defendem protagonismo indígena na restauração de terras, Guillermo Florez Montero da TNC Brasil
Foto: Guilhermo Florez Montero/Arquivo pessoal
Guillermo, da TNC Brasil, ressalta que resultado matemático não substitui decisão das comunidades. Foto: Guilhermo Florez Montero/Arquivo pessoal

“O modelo pode indicar uma terra indígena específica para a implementação de determinado projeto. Mas, se a liderança não quiser, não estiver interessada ou se a iniciativa não estiver entre as prioridades da gestão daquele território, isso deverá ser respeitado”, garante.

A ferramenta pode ser utilizada, por exemplo, quando surgirem recursos destinados à recuperação de áreas degradadas ou projetos de restauração com finalidade produtiva.

“Se tenho um território com altíssima insegurança alimentar, por exemplo, posso priorizar a restauração socioprodutiva nessa área, desde que as demais condições necessárias também sejam atendidas”, diz.

Restaurar cultura e alimento

Segundo Diana, povos indígenas acumulam conhecimentos transmitidos entre gerações sobre sementes, espécies nativas, ciclos naturais, períodos de plantio e colheita, manejo dos solos, plantas medicinais e alimentos tradicionais.

As mulheres indígenas, acrescenta, têm papel especialmente importante em muitos territórios por sua atuação na produção de alimentos, conservação de sementes e transmissão de conhecimentos.

“Valorizar esse conhecimento pode contribuir para recuperar espécies e alimentos tradicionais, fortalecer a segurança alimentar, aumentar a resiliência das comunidades, ao mesmo tempo que conservam grandes áreas de biodiversidade”, afirma.

Para ela, o conhecimento tradicional não deve ser colocado em oposição ao conhecimento técnico.

“Quando conhecimentos tradicionais e conhecimentos técnicos dialogam, podemos encontrar soluções mais adequadas às características de cada território”, diz.

“A restauração, portanto, pode ser também um processo de recuperação de conhecimentos, práticas culturais, sementes, alimentos e relações com o território”, complementa Diana.

Prevenção

Mineração, fogo, expansão de pastagens e outras formas de alteração do uso da terra atingem de maneiras diferentes cada território. Por isso, as ações de restauração precisam estar associadas à prevenção de novos impactos e ao fortalecimento da gestão territorial.

A existência de instrumentos de gestão ambiental e territorial indígena, a disponibilidade de água, a vulnerabilidade às mudanças climáticas e as condições de saúde das comunidades estão entre os critérios considerados pelo sistema desenvolvido pela Funai e parceiros.

A proposta está alinhada à Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e também dialoga com o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que prevê recuperar 12 milhões de hectares até 2030.

Para Diana, fortalecer as próprias comunidades deve ser entendido como parte do processo.

“Um território com uma governança fortalecida e comunidades mais resilientes tem maior capacidade de conservar seus recursos naturais, enfrentar as pressões externas e responder aos impactos das mudanças climáticas”, avalia.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-09/especialistas-defendem-protagonismo-indigena-na-restauracao-de-terras