Candidato do PL a deputado federal diz ter “medo do odor” em ato de mulheres negras

O vereador do Recife e candidato a deputado federal Thiago Medina (PL) afirmou ter ficado “com mais medo do odor” ao comentar um protesto realizado por organizações sociais e coletivos de mulheres negras na Câmara Municipal. A declaração foi feita na tribuna na terça-feira (1º), depois de uma manifestação em solidariedade à vereadora Jô Cavalcanti (PSOL), única parlamentar negra da atual legislatura da capital pernambucana.

O episódio foi registrado pela Marco Zero Conteúdo. Cerca de 30 pessoas participaram do ato, organizado para denunciar episódios de racismo e misoginia contra Jô, que acusa Medina de perseguição política. Ao responder à manifestação, o parlamentar do PL ironizou as denúncias contra ele e atacou os participantes.

O ataque as mulheres Negras

“Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali.”

Jô reagiu logo depois e acusou Medina de racismo. “Thiago Medina subiu à tribuna para dizer que mulheres negras fedem. Essas mulheres estavam aqui em ato de solidariedade ao nosso mandato, que está sofrendo perseguição política na Casa”, afirmou a vereadora.

A parlamentar também disse considerar os episódios parte de uma ofensiva da extrema direita contra grupos vulneráveis, com ataques dirigidos a pessoas negras, LGBTQIAPN+ e integrantes de religiões de matriz africana e afro-indígena.

Candidato do PL chama denúncias de “mimimi da esquerda”

A fala sobre o “odor” ocorreu no mesmo pronunciamento em que Medina debochou das acusações de racismo religioso, intolerância religiosa e misoginia. Segundo o vereador, ele havia sido informado no dia anterior de que seria realizada uma manifestação contra seu mandato.

“Ontem eu fiquei sabendo que hoje haveria uma manifestação contra a minha pessoa, contra o vereador Thiago Medina, por racismo religioso, intolerância religiosa, misoginia e todos os mimimi da esquerda.”

Medina ainda afirmou: “Se eu gostasse de mimimi, eu comprava um gato gago, mas, como não gosto, estou aqui discursando”. A própria Câmara Municipal do Recife registrou o pronunciamento e informou que o vereador atribuiu a manifestação a integrantes do PSOL e do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

O confronto entre Medina e Jô vinha se agravando desde agosto. Um dos principais episódios ocorreu durante a discussão do Projeto de Lei nº 147/2026, apresentado pela vereadora para instituir o Dia Municipal da Mestra Ritinha no calendário oficial do Recife.

Mestra Ritinha é uma referência da Jurema Sagrada. Durante a controvérsia, Medina classificou o projeto como “uma porcaria” e chamou a entidade espiritual de “mestra dos cabarés”. Jô acusou o parlamentar de racismo religioso.

Em 18 de agosto, a Câmara do Recife rejeitou a proposta por 12 votos a sete. No dia anterior, em meio ao embate, Jô chamou Medina de “racistinha de merda” e “fascistinha”. O vereador respondeu com uma representação contra ela na Comissão de Ética.

Jô Cavalcanti anuncia nova representação contra Medina

Depois da declaração sobre o “odor”, Jô afirmou que voltaria a representar contra Thiago Medina na Comissão de Ética da Câmara e no Ministério Público de Pernambuco (MPPE), desta vez por reiteração das condutas que ela classifica como racismo e LGBTfobia.

“O Legislativo não pode tolerar, de forma alguma, esse tipo de postura de violência aos direitos fundamentais das pessoas”, disse Jô à Marco Zero. A vereadora afirmou ainda que espera providências do Ministério Público.

A discussão ocorre num momento em que racismo e misoginia voltaram a se cruzar no debate institucional. A Fórum mostrou recentemente a reação de entidades do movimento negro a mudanças propostas na legislação ao tratar da criminalização da misoginia, com organizações alertando para o risco de relativização do alcance da Lei do Racismo.

Comissão de Ética recebe processos cruzados

Dois dias depois do episódio, a disputa entre os vereadores ganhou novo registro oficial. Na quinta-feira (3), a Comissão de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara do Recife comunicou a chegada de sete novos processos administrativos.

Entre eles está o processo nº 2731/2026, movido por Jô Cavalcanti contra Thiago Medina. A comissão também recebeu o processo nº 2719/2026, apresentado por Medina contra Jô, além de outra representação da vereadora contra Eduardo Moura (Novo).

O comunicado da Câmara não detalha o objeto dos novos processos. Por isso, o registro oficial confirma a representação de Jô contra Medina, mas não permite afirmar que o processo nº 2731/2026 trate exclusivamente da declaração sobre o “odor”.

Medina também teve, nesta mesma semana, uma penalidade de censura verbal aprovada por uma subcomissão de Ética em outro processo, aberto por declarações feitas contra o vereador Osmar Ricardo (PT) em setembro de 2025. O caso não tem relação com Jô Cavalcanti nem com o protesto das mulheres negras.

Na reunião de quinta-feira, o vereador Zé Neto (PSB) pediu vista de todos os sete novos processos apresentados à Comissão de Ética. O pedido foi aceito pelo presidente do colegiado, Carlos Muniz (PSB). Até o momento, portanto, não houve julgamento da nova representação de Jô contra Thiago Medina.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/candidato-odor-mulheres-negras/