Coaf é acionado para rastrear os R$ 61 milhões repassados por Vorcaro a Flávio Bolsonaro

O líder da bancada do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai (SC), protocolou nesta quinta-feira (14) uma representação junto ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) solicitando investigação sobre os R$ 61 milhões repassados pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master que está preso, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Segundo a petição, os valores, supostamente destinados ao filme Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, podem ter sido utilizados para beneficiar interesses privados da família Bolsonaro nos Estados Unidos.

Estrutura suspeita de repasses e indícios de lavagem de dinheiro

A representação detalha que os recursos foram transferidos em seis parcelas, entre fevereiro e maio de 2025, via a empresa Entre Investimentos e Participações — investigada pelo Banco Central como possível “laranja” de Vorcaro — para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e vinculado a aliados de Eduardo Bolsonaro. A petição ressalta que a produtora do filme, GOUP Entertainment, negou ter recebido qualquer valor, assim como o coprodutor Mário Frias (PL-SP).

Uczai destacou na petição:

“A estrutura triangulada de pagamentos internacionais, passando por entidades sem histórico no setor audiovisual, levanta suspeitas fundadas de possível lavagem de dinheiro e evasão de divisas”.

O deputado reforça que o fundo Havengate é ligado ao escritório do advogado de Eduardo Bolsonaro nos EUA, indicando que os recursos poderiam ter sido utilizados para financiar atividades de coação política no exterior, inclusive contra instituições brasileiras, incluindo o Supremo Tribunal Federal.

Dinheiro público no centro do escândalo

A representação também expõe que parte significativa do capital do Banco Master, controlado por Vorcaro, vinha de recursos públicos: fundos de pensão de servidores e aportes do Banco de Brasília. Segundo Uczai, “recursos públicos e destinados a objetivos de interesse público estavam sendo desviados para finalidades desconhecidas e quiçá criminosas”.

O documento cita trechos diretos:

“Se os documentos divulgados comprovam que mais de R$ 61 milhões foram efetivamente repassados ao senador ou para destinatários indicados por ele… a conclusão não pode ser outra senão a de que estes repasses, envolvendo vultosos recursos públicos, objetivaram beneficiar interesses privados do próprio senador ou de sua família, mais precisamente, serviu e vem servindo para a manutenção do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e sua família nos Estados Unidos da América, com o objetivo de atuar contra os interesses do Brasil e da sociedade brasileira”.

Além do envio ao Coaf, parlamentares do PT, PSOL e PCdoB protocolaram representações junto à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República (PGR), solicitando investigação sobre o destino dos recursos, quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico, e pedindo apuração de possíveis irregularidades na produção cinematográfica e na manutenção de estruturas financeiras no exterior.

Flávio Bolsonaro, em entrevista à GloboNews, confessou que o dinheiro de Vorcaro foi para o fundo ligado a Eduardo nos EUA, mas disse que os recursos teriam sido usados integralmente para o filme, tentando vincular o advogado de Eduardo ao fundo apenas por questões burocráticas:

“Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados nesse fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”, declarou.

Nova linha de apuração da PF

O elemento novo que motiva a investigação da Polícia Federal é a revelação de uma possível triangulação financeira: repasses do banqueiro Vorcaro intermediados por Flávio Bolsonaro, que podem ter sido usados para financiar atividades de aliados no exterior, incluindo um fundo no Texas ligado a associados de Eduardo Bolsonaro. Segundo parlamentares de oposição, essa movimentação levanta indícios de lavagem de dinheiro transnacional, evasão de divisas e financiamento ilegal de atividades políticas.

O deputado Lindbergh Farias alegou que os recursos que teriam sido destinados oficialmente ao filme Dark Horse poderiam, na verdade, ter financiado a campanha internacional de Eduardo para pressionar a justiça brasileira, e defendeu que a PF investigue em profundidade o destino dos recursos.

As revelações intensificaram a ofensiva política contra Flávio Bolsonaro. Partidos como PT, PSOL e PCdoB protocolaram pedidos de quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico, além de representações junto à PF e à PGR, pedindo inclusive a prisão preventiva do senador e a instauração de CPI ou CPMI para apurar o caso Banco Master e as relações financeiras da família Bolsonaro com o banqueiro.

A crise também ressoa no contexto eleitoral de 2026: com Flávio pré‑candidato à Presidência, aliados de setores da oposição defendem que as revelações e possíveis irregularidades associadas à negociação com Vorcaro podem ter impacto direto nas expectativas de campanha.

Escândalo Master

O caso do Banco Master já vinha sendo investigado no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura um esquema bilionário de fraude financeira, lavagem de dinheiro, corrupção e outros delitos ligados ao banco. Vorcaro foi preso em novembro de 2025 enquanto tentava deixar o país, e o banco foi liquidado pelo Banco Central. A ligação dos recursos com figuras políticas agora ganha novo foco na PF, que busca mapear o fluxo de dinheiro e possíveis crimes conexos.

A apuração prospectiva pode revelar conexões ainda mais amplas entre atores políticos, operadores financeiros e interesses econômicos, com potencial de repercussão significativa na cena política brasileira nas vésperas das eleições presidenciais.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/coaf-vorcaro-flavio-bolsonaro/