O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) planeja desembarcar na Bahia duas vezes em junho, com agendas na Bahia Farm Show, no município de Luís Eduardo Magalhães, e no São João de Cruz das Almas, ambas as cidades governadas por prefeitos aliados ao bolsonarismo. A movimentação ocorre em um momento de profunda instabilidade interna na pré-campanha, marcada por um escândalo de corrupção devastador, interminável e de proporções alarmantes, saídas consecutivas da equipe de comunicação, e de rejeição recorde do senador entre os pré-candidatos à Presidência, segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg. O objetivo declarado é testar a popularidade em um estado que foi peça-chave para a vitória de Lula em 2022.
A ofensiva no Nordeste
O primeiro compromisso de Flávio Bolsonaro na Bahia está previsto para a Bahia Farm Show, realizada entre 8 e 13 de junho em Luís Eduardo Magalhães, no oeste do estado, a cerca de 950 km de Salvador. Considerada a maior feira do agronegócio do Norte e Nordeste do país, o evento reúne produtores rurais, empresas do setor e lideranças políticas, tornando-se um palco estratégico para quem busca visibilidade junto ao eleitorado do campo. Menos de duas semanas depois, entre os dias 19 e 24 de junho, o senador deve marcar presença no São João de Cruz das Almas, município do Recôncavo baiano a cerca de 150 km da capital.
A escolha dos dois destinos não é casual. Luís Eduardo Magalhães é governada por Júnior Marabá, do PP, e Cruz das Almas por Ednaldo Ribeiro, do Republicanos, ambos alinhados ao bolsonarismo. A estratégia de usar prefeituras aliadas como base de apoio logístico e político é uma forma de institucionalizar a presença do campo bolsonarista em um estado onde o PT domina o cenário eleitoral há décadas. Ao combinar um evento do agronegócio com uma festa popular de forte apelo regional, a pré-campanha aposta em dois nichos distintos: o voto conservador do produtor rural e o eleitorado popular do interior baiano.
O cenário de crise
As viagens à Bahia acontecem em um momento de extrema turbulência interna. A equipe de comunicação da pré-campanha perdeu dois nomes em sequência: o publicitário Marcello Lopes, conhecido como Marcellão, deixou o comando da comunicação em meio às polêmicas do senador com o caso Banco Master, e o assessor de imprensa Rodrigo Saccone anunciou sua saída da campanha presidencial. Saccone havia sido contratado em abril e, segundo o colunista Igor Gadelha, do Metrópoles, deve continuar atuando como assessor de imprensa do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha. Ele é o segundo assessor de imprensa a deixar a função em menos de dois meses: antes dele, o jornalista Tyndaro Menezes havia sido contratado e saído uma semana depois.
O desgaste não se limita ao organograma interno. Segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada em 19 de maio, Flávio Bolsonaro acumula 52% de índice de rejeição, o maior entre os pré-candidatos à Presidência, representando um aumento de 3 pontos percentuais em relação a abril, quando o índice era de 49,8%. O levantamento associa esse crescimento às gravíssimas repercussões dos áudios em que o senador teria pedido R$ 61 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Tentar ampliar a base eleitoral, em uma postura que muitos consideram de um descaramento inacreditável, justamente no território mais adverso possível e carregando esse nível de rejeição por corrupção, é o principal desafio que as agendas baianas precisarão enfrentar.
Disputa de terreno
Os números deixam clara a dimensão do obstáculo e o tom quase provocativo da investida. Segundo a mesma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, o presidente Lula registra 54,7% das intenções de voto no Nordeste em um eventual primeiro turno, contra 28,3% de Flávio Bolsonaro. A diferença de mais de 26 pontos percentuais na região ilustra por que o Nordeste é considerado o coração eleitoral e o reduto máximo do petismo e por que qualquer avanço bolsonarista por lá teria peso simbólico e estratégico relevante para eleições 2026.
O terreno pode ficar ainda mais disputado dentro da própria Bahia Farm Show. A presença do presidente Lula no evento é cogitada, acompanhado do governador Jerônimo Rodrigues (PT), pré-candidato à reeleição. Se a agenda se confirmar, o maior evento do agronegócio nordestino pode se tornar um palco de confronto direto entre os dois campos, com Flávio tentando, de forma ousada, mostrar força justamente onde Lula e o PT pretendem reafirmar sua capilaridade junto ao setor rural. A Bahia, que foi fundamental para a vitória de Lula em 2022, segue sendo um termômetro político de primeira ordem, e a movimentação de junho vai revelar, ao menos em parte, se o bolsonarismo tem condições reais de disputar esse território ou se a ofensiva serve mais como uma questionável demonstração de presença do que como avanço eleitoral concreto.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/crise-rejeicao-recorde-flavio-bolsonaro-bahia-reduto-petista/

