Na manhã de 23 de junho de 2026, agentes do Centro de Operações Policiais Especiais (COPE) da Polícia Civil de Sergipe abordaram um servidor comissionado da Secretaria Municipal de Educação de Aracaju nas imediações da sede da pasta. Com ele estavam R$ 240 mil em espécie, cuja origem não soube explicar. Inicialmente, a prefeitura o afastou, mas sua demissão definitiva só ocorreu na última terça (30), após o contato da reportagem da Fórum com a Secretaria de Comunicação Social da capital sergipana. Três dias depois do flagrante, a Polícia Civil foi pessoalmente à sede da SEMED entregar um ofício formal, no qual pedia, no prazo de quinze dias, todos os contratos de fardamento e kits escolares firmados desde janeiro de 2025. A investigação, portanto, avançava para além do servidor flagrado e chegava aos contratos.
Entre esses contratos há um conjunto que chama atenção não pelo processo que o gerou, um pregão eletrônico regular, mas pela teia de relações que o envolve. A empresa beneficiária, MF Comércio Empreendimentos e Serviços Ltda, conhecida pelo nome fantasia Equipaflex, recebeu ao menos R$ 12,1 milhões da Secretaria de Educação em dois contratos vigentes. Sua representante legal nos documentos é Kaynara Silva Maia, irmã de Rebeka Maia, esposa do delegado André David.
O mesmo André David que, até recentemente, sentava na cadeira de Secretário Municipal de Segurança e Cidadania, posto na gestão da prefeita Emília Corrêa, a mesma que comanda a administração que contratou a empresa. Quando ele saiu do cargo para disputar o Senado Federal em 2026, Emília foi a primeira a declarar apoio público à candidatura. Os contratos com a empresa da cunhada, porém, já estavam assinados.
Os documentos registram ainda uma coincidência de datas. O segundo contrato, de número 0029/2026, no valor de R$ 1,73 milhão, foi assinado pela MF Comércio em 23 de junho de 2026, o mesmo dia em que os R$ 240 mil foram apreendidos com o servidor da secretaria.
A operação
O Inquérito Policial n. 8.721/2026 nasceu de denúncias que chegaram à Divisão de Inteligência da Polícia Civil apontando possíveis irregularidades em contratos administrativos da SEMED. O esquema suspeito, segundo a corporação, envolveria superfaturamento de contratos com empresas fornecedoras, com parte dos valores pagos acima do mercado retornando como vantagem indevida a servidores da pasta, em troca da liberação dos pagamentos.
A operação de 23 de junho deu corpo à investigação, já que o servidor comissionado abordado pelo COPE não tinha como explicar de onde vinha o dinheiro encontrado com ele. A Prefeitura, comunicada pela imprensa e não pela polícia, emitiu nota determinando o afastamento do investigado “até que os fatos sejam devidamente esclarecidos”.
O passo seguinte da Polícia Civil foi o Ofício n. 113/2026, entregue à secretária Edna Quitéria do Amorim Costa, na última sexta-feira, 26 de junho, diretamente pelo COPE. O documento, que referencia o Inquérito 8.721/2026, pede cópias completas dos processos licitatórios, contratos e registros de pagamento relativos ao fornecimento de fardamento e kits escolares entre 1º de janeiro de 2025 e a data da visita.
Ofício n. 113/2026 — COPE/Polícia Civil de Sergipe, entregue pessoalmente à SEMED em 26/06/2026. O documento cita o Inquérito Policial n. 8.721/2026 e solicita todos os contratos de fardamento e kits escolares do período investigado.
Os contratos
O Portal de Transparência da Prefeitura de Aracaju, o Aracaju Compras, mostra, em situação vigente, ao menos dois contratos entre a SEMED e a MF Comércio Empreendimentos e Serviços Ltda (CNPJ 35.628.379/0001-63). Ambos decorrem do mesmo processo licitatório: o Pregão Eletrônico n. 0096/2025 (Processo 129.816/2025), com execução formalizada na Ata de Registro de Preços n. 02/2026.
Contrato n. 0015/2026 — R$ 10.401.911,22 | Firmado em 28/01/2026 | Vigente até 28/01/2027
O maior contrato prevê o fornecimento de mais de 100 mil peças: 10.800 regatas, 58.284 camisetas a R$ 50,17 a unidade, 10.800 short-saias, 32.742 bermudas e 32.541 jaquetas a R$ 146,48. Total: R$ 10,4 milhões. Quem assinou pelo lado da empresa foi Kaynara Silva Maia, na condição de representante legal, em 28 de janeiro de 2026.
Contrato n. 0029/2026 — R$ 1.730.631,50 | Firmado em 23/06/2026 | Vigente até 25/06/2027
O segundo contrato, menor em valor, prevê 1.100 regatas, 6.350 camisetas, 1.100 short-saias, 3.500 bermudas e 7.700 jaquetas. Desta vez, a empresa foi representada por Marcos Antônio dos Santos Filho, identificado na Receita Federal como único sócio-administrador da MF Comércio desde 2006. A secretária Edna Amorim assinou pela SEMED dois dias depois, em 25 de junho. A data de assinatura pela empresa coincide com o dia da apreensão dos R$ 240 mil.
Captura do Portal de Transparência da Prefeitura de Aracaju (Aracaju Compras) em junho de 2026 — contratos SEMED-0015/2026 (R$ 10.401.911,22) e SEMED-0029/2026 (R$ 1.730.631,50), ambos com a MF Comércio, situação VIGENTE.
Abaixo, a primeira página do maior contrato, obtida pela reportagem:
Contrato n. 0029/2026, fl. 1 — segundo contrato entre SEMED e MF Comércio, R$ 1.730.631,50, firmado em 23/06/2026, o mesmo dia da apreensão dos R$ 240 mil.
Empresa de colchão
O registro da MF Comércio Empreendimentos e Serviços Ltda na Receita Federal revela um descompasso com os contratos de fardamento. A atividade principal cadastrada no CNPJ 35.628.379/0001-63, fundado em 21 de maio de 1991, é o “comércio varejista de artigos de colchoaria” (código CNAE 4754702), ou seja, o ramo de colchões, travesseiros e edredons. A empresa opera com o nome fantasia Equipaflex, tem sede na Zona de Expansão de Aracaju e capital social de R$ 1,5 milhão.
Uniformes escolares aparecem entre as atividades secundárias, enquadrados nos CNAEs 4642701 e 4642702 (comércio atacadista de artigos do vestuário e de roupas profissionais). A distinção, em si, não configura irregularidade, pois empresas podem atuar em ramos secundários. Ainda assim, a distância entre a atividade principal da empresa e o objeto de contratos de R$ 12 milhões com a Educação pública é um dado relevante para os órgãos de controle, sobretudo num contexto de investigação policial sobre esses contratos.
O único sócio-administrador registrado é Marcos Antônio dos Santos Filho, na função desde fevereiro de 2006. A Fórum buscou contato com a empresa pelos dados cadastrais disponíveis e não obteve retorno.
Elo familiar
O nome que conecta a MF Comércio ao campo político de Aracaju é o de Kaynara Silva Maia, a representante legal que assinou o contrato de R$ 10,4 milhões em janeiro de 2026.
Kaynara é irmã de Rebeka Maia, que por sua vez é esposa do delegado André David. A evidência do parentesco veio de uma publicação no perfil de Rebeka no Instagram, datada de 10 de abril de 2025 e posteriormente apagada da plataforma. No post, ela aparece ao lado de outra mulher com a legenda: “Feliz aniversário, Mana! A nossa história vai além dos laços de sangue”. A reportagem preservou o registro antes da exclusão.
Post apagado do perfil de Rebeka Maia (10/04/2025): “Feliz aniversário, Mana! A nossa história vai além dos laços de sangue…” — registro do vínculo de parentesco com Kaynara Silva Maia, representante legal da MF Comércio.
O encadeamento é direto. A empresa que recebeu R$ 12,1 milhões em contratos com a Secretaria de Educação de Aracaju tem como representante legal a cunhada de André David, o delegado que foi secretário de Emília Corrêa e que disputa o Senado com o apoio dela. É a prefeitura de Emília que contratou a empresa da cunhada do candidato que ela mesma apoia.
O candidato
André David é delegado de polícia, filiado ao Republicanos, e o pré-candidato ao Senado que mais aparece nas pesquisas eleitorais de Sergipe para 2026.
Antes da pré-campanha, o delegado ocupava a Secretaria Municipal de Segurança e Cidadania de Aracaju, subordinada à prefeita Emília Corrêa. Os dois integram a direção estadual do Republicanos. Em maio de 2026, foram homenageados juntos pelo Sindicato da Guarda Municipal de Aracaju em evento de confraternização, sinal de uma aliança política que atravessa a gestão e se projeta para 2026.
A trajetória do delegado, porém, não é livre de controvérsias. Em janeiro de 2024, à frente da 2ª Delegacia Metropolitana de Aracaju, David conduziu a investigação de um caso de agressão no centro da cidade que envolvia três mulheres trans e um homem. Suas declarações sobre as investigadas levaram a deputada estadual Linda Brasil (PSOL) a protocolar duas representações, uma na Corregedoria da Polícia Civil e outra no Ministério Público de Sergipe, contra o que classificou como conduta “parcial, sensacionalista, autoritária e transfóbica”.
O delegado negou qualquer excesso e afirmou que repetiria a atuação: “tenho que prender o criminoso, não importa a raça, o sexo, a crença ou a classe social”. Em junho de 2026, já em pré-campanha, voltou ao centro do debate ao apresentar como credencial o fato de ter “mandado muitos bandidos para o inferno”, fala que foi criticada pelo governador Fábio Mitidieri (PSD), que reagiu dizendo que propagar a matança de criminosos “não é a forma correta de falar em segurança pública”.
Outro lado
O ex-secretário André David respondeu ao contato da Fórum e disse não ver qualquer suspeita no contrato firmado, atribuindo as denúncias a motivações políticas e lançando um desafio “para que provem que ele é corrupto”, o que o faria desistir da vida pública. “O ponto crucial aqui, que precisa ficar bem claro, é a verdade dos fatos. Essa licitação aconteceu na Secretaria de Educação e eu fui secretário municipal de Segurança. Estamos falando de secretarias completamente independentes, com orçamentos, estruturas e equipes de contratação distintas. Eu não tinha, e nunca tive, nenhum poder de decisão ou gerência sobre os contratos de outras pastas. Agora, o que me causa estranheza é o ‘timing’ disso tudo. Por que esse tipo de “ataque” só aparece agora, às vésperas de uma eleição? Logo agora que o meu nome desponta como o mais cotado na disputa para o Senado? Assim como a população, eu também quero ver o desenrolar dessa história. Quero que a verdade venha à tona e mostre quem realmente está por trás desse jogo político sujo. E eu encerro fazendo um desafio público: se alguém, qualquer pessoa, provar o meu envolvimento em um único ato de corrupção, eu renuncio à minha pré-candidatura no mesmo instante. Quem não deve, não teme”, disse o delegado.
A Fórum também entrou em contato com a Prefeitura de Aracaju pedindo um posicionamento da administração municipal e da prefeira Emília Corrêa, mas não houve qualquer tipo de retorno até o momento. A empresária Kaynara Silva Maia, responsável pela MF Comércio, também foi procurada e igualmente não respodeu aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto na Fórum para que os citados se manifestem.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/cunhada-de-ex-secretario-contrato-milionario-aracaju/

