O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), revelou nesta quarta-feira (25) o calendário para levar à votação a PEC que prevê o fim da escala 6×1, durante conversa com jornalistas.
Hugo Motta explicou o atual trâmite da PEC e quando ela deve ir à votação:
“A expectativa é que possamos concluir na CCJ a admissibilidade até o início do mês de abril. Em seguida, criaremos a comissão especial e aí, a partir do trabalho da comissão especial, nós temos a expectativa de levar ao plenário até o mês de maio, que é o mês do trabalho, porque entendemos que é possível, sim, rediscutir a redução da jornada de trabalho, dando à classe trabalhadora um tempo a mais para o lazer, o convívio com a família, para cuidar da saúde, sem perder a produtividade do nosso país.”
Em seguida, Hugo Motta afirmou que o debate sobre o fim da escala 6×1 está acima da divisão entre esquerda e direita:
“Essa é uma matéria que está acima da disputa política que teremos neste ano. Os trabalhadores, que não precisam dizer a sua opção política, em sua grande maioria, para não dizer a totalidade, defendem essa redução da jornada de trabalho. O que nós precisamos é ter sabedoria para ouvir também o setor produtivo, ouvir quem emprega e, com isso, termos uma proposta que traga, sim, avanço e não represente nenhum retrocesso para o nosso país.”
Apoio popular ao fim da escala 6×1 chega a 80%, enquanto 7 em cada 10 deputados são contra
A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados cancelou a audiência pública prevista para esta quarta-feira (18), que discutiria a PEC 221/19, voltada à escala 6×1 e à redução da jornada de trabalho. O debate ia contar com a participação do Ministério da Fazenda e ainda não foi marcada uma nova data para a audiência. Além disso, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que o Congresso não deve acelerar a tramitação da proposta. Após um almoço com a Frente Parlamentar do Empreendedorismo (FPE) na última segunda (16), ele defendeu que o tema seja discutido com cautela, por meio de uma PEC e com “maior diálogo” entre os setores envolvidos.
Enquanto o Congresso segue adiando a discussão e aprovação do projeto de lei, mais uma pesquisa revela que o apoio popular à proposta já conta com o apoio de 80% da população brasileira. É o que aponta o novo levantamento da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, que identifica forte adesão à proposta entre diferentes faixas etárias, pessoas de 16 a 40 anos, principal força de trabalho no país. Segundo a pesquisa, cerca de 8 em cada 10 brasileiros nessa faixa etária são favoráveis ao fim da escala caso a mudança não implique perda de renda.
O índice chega a 82% tanto entre millennials (25 a 40 anos) quanto entre a geração Z (16 a 24), um consenso que aumenta entre os mais jovens, desde que a renda seja preservada. Em fevereiro deste ano, o apoio à pauta chegava a 72%, isto é, houve um aumento de quase 10% em menos de um mês.
Como mostrou a Fórum, em meio à tentativa de evitar o próprio desgaste nas eleições de 2026, o Centrão que não vai barrar o projeto do fim da escala 6×1, iniciativa apoiada pelo governo Lula. A sinalização positiva, no entanto, segue acompanhada de uma condição articulada nos bastidores: manter as 44 horas ou reduzir para 40 horas semanais, ao invés de uma redução real para 36 horas.
Enquanto Erika Hilton defende o formato 4×3, Reginaldo Lopes negocia uma alternativa mais moderada, com jornada de 40 horas semanais. A proposta tem sido melhor recebida por setores da indústria e do comércio, que, embora contrários à mudança, veem nela uma possibilidade de adaptação com “menor impacto econômico”.
Apesar das tentativas de acordo para uma reivindicação que já deveria ter sido atendida, uma pesquisa realizada em julho de 2025 tinha revelado que a maioria dos deputados federais se posiciona contra o fim da escala de trabalho 6×1, modelo que prevê seis dias consecutivos de trabalho para um de descanso. Levantamento da Quaest indica que 70% dos parlamentares rejeitam mudanças nesse formato, enquanto 22% são favoráveis e 8% não souberam ou não responderam.
O dado revela que a proposta está entre as mais impopulares dentro do Congresso, enfrentando resistência em diferentes espectros políticos. A rejeição é ainda mais elevada entre deputados da oposição, onde chega a 92%. Entre os deputados favoráveis ao fim da escala 6×1, o apoio se concentra na base governista (44%). À época, a pesquisa entrevistou 203 deputados, cerca de 40% do total da Câmara. A composição da amostra seguiu critérios de proporcionalidade regional e partidária, regiões e legendas que foram representadas na mesma proporção que ocupam na esfera legislativa.
Oposição mira economia e eleições para frear proposta
Durante um evento realizado no dia 11 de março, em Brasília, o senador Ciro Nogueira (PP) afirmou que a discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1, pauta social defendida pelo governo Lula e pela maioria da população, tem caráter “eleitoreiro”. “A questão da escala 6×1 é um debate eleitoreiro, e teremos de enfrentar essa discussão. Precisamos ter a responsabilidade de não botar isso no bolso do empresário […] Mas não vamos nos furtar dessa discussão, por mais eleitoreira que seja”, disse. “O governo, que está apresentando essa discussão, precisa apresentar uma compensação, através de redução de encargos ou carga tributária. Historicamente defendo que não se reduza o tempo de trabalho, mas aumente a renda”, completa.
Desde quando surgiu a luta pelo fim da escala 6×1, esse discurso se tornou comum entre políticos liberais que defendem interesses patronais dentro e fora do Congresso. Até agora, o caso do banco Master mostrou como funciona o sistema da classe mais alta e prestigiada do Brasil a partir das investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF). Inclusive, o parlamentar está no grupo dos bolsonaristas citados pelo banqueiro Daniel Vorcaro como um “grande amigo de vida”.
O cenário partidário está dividido em relação ao fim da escala 6×1. Enquanto PT, PDT, PSB, PV, Rede, PSOL e Solidariedade defendem a proposta, PL e União Brasil se colocam contra. Já PSD, PSDB, Republicanos e MDB mantêm posição indefinida.
Apesar de reconhecer o apelo popular da proposta, a direita critica a medida e se mobiliza para barrar a tramitação. “Nós vamos trabalhar para não deixar votar”, afirmou Valdemar Costa Neto, em evento realizado em São Paulo, em fevereiro. “Essa proposta é muito danosa para a economia e para o setor produtivo”, disse Antônio Rueda, na mesma ocasião. Ao comentar o fim da escala 6×1, o presidente do Republicanos Marcos Pereira afirmou que “ócio demais faz mal”. “”A população vai fazer lazer onde? O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar”, disse.
Do lado do Planalto, a redução da jornada para 40 horas é tratada como prioridade. O Ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, rebateu os argumentos econômicos do setor patronal e de parlamentares de direita, comparando-os aos discursos históricos contra avanços trabalhistas. “Os setores empresariais contra os direitos dos trabalhadores repetem os mesmos argumentos surrados desde a abolição da escravidão, passando pela criação da CLT, 13º salário e férias”, declarou. O ministro também alerta que a oposição à redução real da jornada ficará restrita à extrema direita e cobrará seu preço nas urnas: “Quem se opuser à redução da escala terá que prestar contas nas urnas em outubro”.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/fim-da-escala-6×1-hugo-motta-revela-quando-proposta-sera-votada/

