Flávio Bolsonaro envia denúncia aos EUA relatando “conexão de Lula com o Master”

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou uma carta ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) na quarta-feira (1º) classificando o caso do Banco Master como a “maior fraude bancária na história do Brasil” e atribuindo o escândalo ao governo Lula. No documento, o senador cita nominalmente ex-ministros e o próprio presidente, pedindo ainda o adiamento das tarifas de 25% impostas pelo governo Trump aos produtos brasileiros. O que Flávio não incluiu na carta, no entanto, é tão revelador quanto o que ele escolheu destacar: suas próprias conexões financeiras com o banqueiro criminoso Daniel Vorcaro, que repassou a ele R$ 61 milhões, e as investigações que alcançam figuras centrais de seu grupo político.

Carta de Flávio Bolsonaro aos EUA

No documento enviado ao USTR, Flávio Bolsonaro constrói uma narrativa que liga diretamente o escândalo do Banco Master à cúpula do governo federal. Ele afirma que as investigações “revelaram uma rede de proximidade entre o controlador do banco e o aparato governamental” e cita nominalmente quatro figuras: o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, descrito como consultor contratado pelo banco; o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, cujo escritório de advocacia teria sido contratado após sua saída do ministério; o senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado, acusado de ter recebido benefícios indevidos; e o presidente Lula, que teria recebido o controlador do banco fora da agenda oficial e o aconselhado a não vender a instituição.

O senador também menciona que o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, teria sido contratado pelo controlador do banco por cerca de R$ 129 milhões, e que um segundo parente de ministro do STF estaria ligado ao esquema. Viviane nega a existência de qualquer irregularidade no contrato. Além das acusações, Flávio pediu o adiamento das tarifas norte-americanas, argumentando que a manutenção do tarifaço entregaria ao governo Lula “precisamente a vitória política que ele vem arquitetando, ao mesmo tempo em que prejudicaria a economia norte-americana e os próprios brasileiros”. A carta também menciona supostos atos de “censura” do governo Lula e do STF contra empresas de redes sociais dos EUA, numa tentativa de alinhar o documento às pautas ultraconservadoras em voga em Washington.

As omissões estratégicas do senador

A seletividade da carta de Flávio Bolsonaro fica evidente quando se observa o que ele decidiu não contar à Casa Branca. Conforme revelado pelo The Intercept Brasil, o próprio senador pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro com a desculpa de financiar o filme Dark Horse, a produção biográfica tosca sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O senador confirmou ter trocado mensagens com Vorcaro e ter solicitado recursos a ele, mas essa informação não aparece em nenhum trecho do documento enviado ao USTR.

A omissão se estende aos aliados. Flávio não menciona que o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro do governo Bolsonaro e figura próxima ao clã, foi alvo de buscas e apreensão no âmbito das investigações. Segundo a Polícia Federal, Nogueira teria recebido uma “mesada” do ex-banqueiro, o que o parlamentar nega. As investigações sobre o Banco Master estão em curso e, até o momento, não indicam envolvimento do governo federal, contrariando a afirmação central da carta. O retrato que Flávio apresenta aos estadunidenses é, portanto, recortado: inclui apenas os nomes que servem à narrativa anti-Lula e exclui sistematicamente tudo que aponta para o seu próprio círculo político.

O contexto do Banco Master e o caso Dark Horse

A expressão “maior fraude bancária da história do Brasil”, usada por Flávio Bolsonaro na carta, não é de sua autoria: ela foi cunhada em janeiro pelo então ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), adversário político do senador, ao comentar o escândalo. O caso envolve investigações sobre supostas fraudes na instituição controlada por Daniel Vorcaro, que foi preso pela primeira vez no âmbito da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025.

É nesse contexto que o vínculo entre Vorcaro e o clã Bolsonaro ganha relevância. Segundo o Intercept Brasilpelo menos R$ 61 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para a produção do filme Dark Horse, com o valor total negociado chegando a R$ 134 milhões, embora não haja evidências de que todo o montante tenha sido repassado. Parte dos recursos foi transferida pela Entre Investimentos e Participações, parceira de empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), de acordo com o Intercept Brasil. Em áudio de setembro de 2025 divulgado pelo Intercept Brasil, Flávio cobra Vorcaro sobre atrasos nos pagamentos: “Eu fico sem graça de ficar te cobrando; está em um momento muito decisivo aqui do filme. E tem muita parcela para trás, e está todo mundo tenso”, disse o senador na gravação.

Implicações políticas e a estratégia de Flávio

A carta ao USTR não é um gesto diplomático neutro. Enviada por um pré-candidato à Presidência em ano eleitoral, ela funciona como peça de campanha com endereço internacional: busca descredibilizar o governo Lula perante o governo Trump e, ao mesmo tempo, tentar influenciar uma decisão de política comercial norte-americana que afeta diretamente a economia brasileira. Ao argumentar que a manutenção do tarifaço daria uma “vitória política” a Lula, Flávio inverte a lógica, colocando o interesse eleitoral acima da defesa da economia do país.

A estratégia, porém, carrega uma contradição de fundo. O senador que acusa o governo Lula de proximidade com um banqueiro investigado é o mesmo que, segundo o Intercept Brasil, trocou mensagens com esse banqueiro pedindo dinheiro para um projeto político da família. Ao omitir esse fato do documento oficial, Flávio não apenas fragiliza sua própria narrativa como expõe a seletividade do ataque. A menção às supostas práticas de “censura” do STF contra plataformas digitais dos EUA reforça a leitura de que a carta foi redigida menos para informar o governo dos EUA e mais para sinalizar alinhamento com o campo conservador de lá, numa operação de imagem que mistura política externa com disputa interna.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-denuncia-eua-lula-master/