Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz: Amizade íntima e muitas acusações de crimes juntos

A imagem de Fabrício Queiroz, de mãos algemadas, sendo escoltado por um forte comboio policial em Atibaia, no interior de São Paulo, em junho de 2020, congelou no tempo como o símbolo máximo de um projeto de poder que subiu a rampa do Palácio do Planalto sob o signo da “moralidade”, mas que se viu enredado nas teias das milícias e do que há de mais sujo e baixo no submundo do crime organizado carioca. O esconderijo não era um lugar qualquer: Queiroz estava em um imóvel de Frederick Wassef, o então onipresente advogado da família Bolsonaro. A prisão, cinematográfica, revelou que o ex-assessor não era apenas um funcionário que passou pelo gabinete. Ele era, e continua sendo, o arquivo vivo de uma relação que atravessa décadas, unindo o à época clã presidencial ao que há de mais obscuro na política fluminense.

O escândalo, que o país passou a conhecer pelo apelido simplório de “rachadinha”, não é um evento isolado na biografia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). É o resultado de uma convivência umbilical, naturalizada no seio familiar, onde a figura de Queiroz, o policial militar ríspido, de sotaque marcado e comportamento que emula a estética dos capos das milícias, transitava com a liberdade de um parente. A amizade, na verdade, é uma herança política e pessoal. Veio do pai, Jair Bolsonaro (PL), que conheceu Queiroz nos anos 80, nos quartéis, e o introduziu na engrenagem parlamentar da família como o homem de confiança para as missões mais espinhosas e o controle do “baixo clero” dos gabinetes.

A engenharia do peculato: o caixa-forte operado por Queiroz

O ponto de ruptura dessa relação com a legalidade veio através de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que caiu como uma bomba no colo da família logo após a eleição de 2018. O documento era devastador e técnico: Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão em apenas um ano, um valor flagrantemente incompatível com seus vencimentos oficiais como assessor na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O que as investigações do Ministério Público (MP-RJ) desenharam a partir daí foi a arquitetura de um esquema de corrupção sistêmica que funcionava como um relógio suíço.

A dinâmica era quase militar em sua precisão e exigia uma lealdade cega. Pelo menos 11 ex-assessores de Flávio Bolsonaro realizavam depósitos regulares na conta de Queiroz. A coordenação temporal era estratégica: o dinheiro caía na conta do “operador” em datas imediatamente posteriores ao recebimento dos salários pagos pela Alerj. Não era uma contribuição voluntária para o partido ou uma doação amistosa; era um mecanismo de devolução compulsória de vencimentos que alimentava o padrão de vida e os interesses políticos do gabinete. Queiroz não era um funcionário comum; era o gerente de um caixa paralelo que transformava recursos públicos em combustível privado para o clã, operando no limite entre a política e o crime de peculato.

O sustentáculo da família: boletos e a vida privada paga com o público

A promiscuidade financeira entre Flávio e Queiroz atingiu o ápice da insolência quando os investigadores, munidos de quebras de sigilo, cruzaram os dados bancários com as despesas domésticas mais triviais do parlamentar. O dinheiro que circulava pelas mãos de Queiroz não ficava apenas com ele ou servia para “fazer política” na base. Documentos de processos detalham que o operador era o responsável por quitar despesas pessoais da família Bolsonaro, incluindo o pagamento de boletos de planos de saúde e mensalidades escolares das filhas do então deputado estadual do Rio.

Essa prática de transacionar valores fora do sistema bancário convencional é a digital clássica de quem busca ocultar a origem ilícita de recursos. Para o Ministério Público, a triangulação era cristalina: o dinheiro saía dos cofres da Assembleia Legislativa, passava pelo filtro de Queiroz e terminava pagando o conforto do núcleo familiar do seu superior imediato. É o que se chama, no jargão jurídico, de uso de dinheiro em espécie para “lavar” a origem do capital, integrando o fruto da “rachadinha” diretamente ao sustento e à estabilidade financeira do parlamentar, sem que os valores transitassem pelas contas oficiais de Flávio.

O labirinto imobiliário e a mágica valorização de ativos

Se o pagamento de boletos era a operação miúda, a lavagem de dinheiro pesada ocorria no mercado imobiliário do Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro, sob a logística e o apoio de Queiroz, protagonizou transações que desafiavam as leis mais elementares da economia e do mercado. A investigação apontou um esquema de aporte de dinheiro vivo na aquisição de apartamentos, seguido de revendas que geravam lucros artificiais e estratosféricos em períodos curtíssimos.

Eram operações estruturadas onde o capital físico, de origem não declarada, entrava no negócio para sair “limpo” através de uma valorização imobiliária forjada. Esse mecanismo permitiu que recursos desviados do gabinete na Alerj se integrassem ao patrimônio pessoal de Flávio de forma aparentemente legítima, diz o Ministério Público. A cada escritura assinada, o que se via era o enriquecimento ilícito ganhando um verniz de sucesso empresarial, sempre com a sombra de Queiroz garantindo que o dinheiro vivo, proveniente do “sacrifício” de assessores fantasmas, chegasse ao destino certo sem levantar suspeitas imediatas dos órgãos de controle.

Chocolates e lavanderia: a franquia que vendia mais que doces

Nem mesmo o setor de franquias escapou do apetite do esquema. A loja da Kopenhagen, de propriedade de Flávio Bolsonaro em um shopping do Rio, foi colocada sob a lupa do MP-RJ como uma peça-chave no processo de lavagem de capitais. Segundo os promotores, o estabelecimento apresentava depósitos em dinheiro vivo que excediam drasticamente o faturamento real e o volume de vendas registrado em datas comemorativas. Na prática, a loja funcionava como uma lavanderia de luxo: injetava-se ali o dinheiro oriundo da “rachadinha”, transformando-o em lucro empresarial legítimo perante a Receita Federal.

O papel de Queiroz e seus familiares era fundamental nessa logística de injeção de recursos. O que deveria ser a venda de chocolates era, na verdade, a nacionalização de valores desviados de salários de assessores. A fachada comercial servia para dar uma justificativa contábil a um volume de dinheiro que a atividade econômica jamais explicaria por si só, criando uma confusão deliberada entre o sucesso comercial do político e a pilhagem do erário público.

A rede de lealdade: um pacto de sangue e cargos

Para garantir que a engrenagem não sofresse fissuras ou vazamentos, a nomeação de familiares de Queiroz foi uma tática de ocupação de território. Sua esposa, Márcia Aguiar, e suas filhas foram integradas à estrutura empregatícia do gabinete de Flávio na Alerj. Mais do que nepotismo cruzado ou um favor entre amigos, tratava-se de garantir que o fluxo de devolução de salários permanecesse dentro de um círculo de absoluta confiança e silêncio sepulcral. Cada nomeação era um elo a mais em um pacto de sangue e dinheiro.

Quando confrontados com as provas irrefutáveis, a defesa da família Bolsonaro e o próprio Queiroz tentaram sustentar a tese de um “empréstimo pessoal” para justificar o trânsito de dinheiro. Contudo, a narrativa ruiu diante da ausência total de lastro documental. Não havia contratos assinados, não havia registro bancário da saída do montante de origem, e muito menos declarações fiscais que oficializassem o negócio. O “empréstimo” teria sido apenas uma tentativa desesperada, afirmam os promotores, de dar um verniz jurídico ao que as provas apontam ser um crime de peculato continuado e organização criminosa.

A normalização do absurdo: o estilo miliciano no poder

A prisão em Atibaia expôs o comportamento de um criminoso que se sentia acima da lei. O comportamento de Queiroz, sempre expansivo, fazendo vídeos em hospitais ou churrascos enquanto estava foragido, reflete o que no Rio de Janeiro se conhece como a estética miliciana: a certeza da impunidade garantida por conexões políticas poderosas. Mesmo após as algemas, a família Bolsonaro agiu com uma naturalidade espantosa, mantendo a defesa pública de um homem que operava um esquema de corrupção dentro de sua própria casa.

Hoje, a convivência entre o senador e o ex-assessor permanece como um espectro que assombra o debate sobre a ética pública. O caso Flávio-Queiroz não é apenas uma investigação criminal; é o retrato de um método de fazer política onde o crime é um vizinho de porta, convidado para o café e para a gestão do dinheiro público. A história da “rachadinha” é a prova de que, para o clã Bolsonaro, a moralidade que pregam nos palanques nunca chegou aos gabinetes onde o dinheiro trocava de mãos na calada da noite.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-queiroz-amizade/