O 14º Fórum de Lisboa, que este ano buscou uma guinada global com recorde de palestrantes internacionais nesta terça-feira (2), acabou servindo de palco para a reprodução de velhas cartilhas da geopolítica ocidental. Principal atração do painel “Nova ordem global: tecnologia, geopolítica e o futuro da democracia”, o jornalista do The New York Times Thomas Friedman subiu ao púlpito, ladeado pelo ministro do STF Gilmar Mendes e por André Esteves, do BTG Pactual, para disparar contra o modelo econômico chinês, recorrendo a uma retórica saturada de clichês e metáforas caricatas que ignoram a complexidade do avanço asiático.
Mesmo ostentando três prêmios Pulitzer na bagagem, Friedman derrapou na análise ao tentar reduzir a segunda maior economia do planeta a um desenho animado. O jornalista afirmou que o presidente Xi Jinping opera sob a lógica de “vamos produzir tudo para todos” para forçar uma dependência global, rotulando a estratégia como “insustentável”. O ápice do reducionismo se deu quando o norte-americano comparou a China ao personagem Popeye: teria a parte superior do corpo forte em manufatura avançada, mas as pernas finas da Olívia Palito, sob a alegação de que o país carece de previdência social, saúde decente e vive a maior bolha imobiliária da história.
A crítica de Friedman, contudo, soa anacrônica e mascara o incômodo de Washington com a perda do monopólio tecnológico e industrial. Ao focar em expurgos militares fictícios ou mal compreendidos no Ocidente, “algo está acontecendo lá que não entendemos”, admitiu, o analista expõe as blindagens conceituais de quem ainda enxerga o mundo sob a ótica unipolar dos anos 1990, ignorando que o avanço chinês em áreas como transição energética e inteligência artificial desafia, ou já supera, diretamente a liderança dos EUA.
A contradição da Inteligência Artificial e a hegemonia arranhada
Em sua fala sobre tecnologia, Friedman classificou a Inteligência Artificial como uma “nova espécie” e a maior questão ética e jurídica da atualidade, defendendo que o mundo passou de “plano” para uma sociedade “fundida” e “hiperconectada”. A grande contradição de seu discurso emergiu justamente aí: após demonizar o regime de Pequim, o jornalista foi obrigado a reconhecer que “a única forma de gerenciar” a IA de forma segura é uma união direta entre a potência asiática e os EUA.
A necessidade de cooperação mútua defendida por ele choca-se frontalmente com a paranoia norte-americana que relembrou em seguida, citando as tentativas de Donald Trump de banir o TikTok sob pretexto de espionagem de dados pela ByteDance. Ao questionar o que acontecerá na era digital quando carros e óculos estiverem integrados à IA, Friedman externaliza o pavor de uma superpotência que já não consegue ditar o ritmo da inovação global de maneira isolada.
O “grande que age pequeno” e a nova assimetria militar
A visão condescendente sobre o Sul Global também se fez presente quando o colunista abordou os conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia. Para Friedman, o mundo vive uma dinâmica onde “os pequenos agem de forma grande e os grandes agem de forma pequena”. Na sua definição, os EUA agiram de forma “pequena” (no sentido de cirúrgica e minimalista) ao eliminar os principais líderes do Irã com um único ataque. Em contrapartida, minimizou a resistência iraniana ao afirmar que, com apenas dez mil dólares, o país foi capaz de fechar o Estreito de Ormuz e desafiar o poderio financeiro de Washington.
A analogia, embora pretensiosa, apenas sublinha a incapacidade do establishment jornalístico ocidental em aceitar a fragmentação do poder global. O que Friedman chama de “pequenos agindo grande”, seja a resistência do Hezbollah, a contraofensiva ucraniana frente à Rússia ou a soberania tecnológica da China, nada mais é do que a consolidação de um mundo multipolar. No Fórum de Lisboa, diante de uma plateia de juristas e empresários, o homem do The New York Times deixou claro que, para a velha mídia norte-americana, é mais fácil desenhar caricaturas do que decifrar a nova arquitetura do século XXI.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/forum-lisboa-thomas-friedman-nyt-pulitzer-debocha-economia-chinesa/

