A fotografia de Flávio Bolsonaro ao lado do líder da milícia de Daniel Vorcaro, conhecido como “Sicário”, esconde uma pista estrutural em seu cenário. O registro de Flávio ao lado de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado pela Polícia Federal como operador de ações de intimidação ligadas a Daniel Vorcaro, apresenta forte compatibilidade arquitetônica com o bar da piscina do Hotel Fasano Rio de Janeiro, em Ipanema.
Obtida por uma fonte mantida sob sigilo, a imagem teria sido feita em 2022, em um hotel da Zona Sul do Rio. Flávio apresentou versões diferentes desde a divulgação. Primeiro, declarou não saber se a fotografia era verdadeira e disse que, caso fosse, seria apenas mais uma entre as muitas que tira com apoiadores. Depois, sua assessoria afirmou que ele não conhecia Mourão e questionou a procedência do arquivo. Nesta sexta-feira (17), o senador passou a sustentar que a imagem teria sido manipulada por inteligência artificial. As verificações realizadas pelo ICL Notícias e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística não identificaram, porém, sinais de geração artificial ou montagem.
A fotografia ampliou as dúvidas sobre a relação de Flávio com o núcleo do ex-controlador do Banco Master. Como a Fórum publicou, o senador já havia sido obrigado a admitir que pediu a Vorcaro recursos para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, após inicialmente negar a participação do banqueiro no projeto. O pedido teria chegado a R$ 134 milhões, dos quais cerca de R$ 61 milhões foram efetivamente repassados.
O teto que leva ao Fasano Rio
Informações de bastidores, que começam a ganhar corpo nas redes sociais, dão pista do local onde a imagem teria sido feita. A estrutura visível atrás de Flávio e Mourão com imagens públicas do rooftop do Fasano Rio gerou especulações de que a foto teria sido tirada no bar da piscina do luxuoso hotel Fasano, que recebe celebridades internacionais, no Rio de Janeiro.
Os elementos não se resumem à presença genérica de madeira. Nas duas imagens aparecem vigas escuras e paralelas, ripas estreitas instaladas sobre a cobertura, travessas metálicas de tonalidade clara, módulos retangulares repetidos e luminárias quadradas embutidas na parte inferior das vigas. Também é compatível a moldura estrutural vertical que surge ao fundo da fotografia dos dois homens.
A disposição dos componentes aponta para o mesmo sistema arquitetônico usado na cobertura do bar da piscina. Não é possível afirmar, apenas pela imagem, que se trata da mesma luminária física, pois a estrutura possui módulos repetidos. O conjunto, entretanto, apresenta forte compatibilidade visual com o rooftop do Fasano Rio.
O detalhe aumenta a relevância da identificação do local. Segundo o próprio Fasano, o bar funciona no oitavo andar do hotel e é exclusivo para hóspedes. Caso a fotografia tenha sido realmente feita ali, será necessário esclarecer quem estava hospedado, em nome de quem foi realizada a reserva, quem pagou a despesa e de que maneira Flávio e Mourão tiveram acesso ao espaço.
Por enquanto, a comparação arquitetônica não demonstra que o hotel organizou o encontro, que a JHSF tinha conhecimento da presença dos dois ou que Vorcaro financiou alguma despesa no local. Ela oferece, no entanto, uma referência concreta para tentar determinar onde ocorreu a fotografia que Flávio passou a atribuir à inteligência artificial.
https://x.com/UhVaiSerPreso/status/2077780030692761756
https://x.com/efarsas/status/2077759496412168364
Sócios do Master compraram 80% do Fasano Itaim
A relação de Vorcaro com a marca deixou de ser apenas a de um cliente de restaurante ou patrocinador de eventos.
No final de 2022, em operação divulgada em janeiro de 2023, Daniel Vorcaro, Maurício Quadrado e Augusto Lima, então sócios do Banco Master, compraram 80% do empreendimento Fasano Itaim, em São Paulo. O projeto de uso misto reunia hotel, restaurantes, torre residencial e espaço para eventos.
A transação com a Gafisa foi avaliada em aproximadamente R$ 330 milhões e realizada por meio do fundo Albali, cujo beneficiário formal aparecia como Maurício Quadrado. Vorcaro reconheceu publicamente, porém, que o negócio pertencia economicamente aos três sócios e descreveu a concentração formal das cotas em Quadrado como uma questão “formal e fiscal”.
Além do complexo, o grupo comprou imóveis no entorno e recomprou unidades residenciais de um edifício vizinho para explorá-las no modelo de longa permanência. Os aportes adicionais teriam alcançado cerca de R$ 50 milhões.
A operação não significou a compra do Grupo Fasano nem do Fasano Rio. O ativo adquirido pelos sócios do Master era o empreendimento imobiliário do Itaim, enquanto a marca e a operação hoteleira continuaram vinculadas ao Grupo Fasano e à JHSF.
Documentos recuperados posteriormente pelo liquidante do banco acrescentaram uma camada ainda pouco esclarecida. E-mails de abril de 2023 indicaram negociações para transferir a Vorcaro metade das cotas do Albali. Ainda assim, o BRB teria registrado essas participações como patrimônio de Quadrado em abril de 2025. A divergência alimentou questionamentos sobre a efetiva titularidade econômica do ativo e uma possível confusão patrimonial entre os sócios.
Em maio de 2025, o edifício que abriga o Fasano Itaim apareceu no pacote de aproximadamente R$ 1,5 bilhão em ativos negociados entre Vorcaro e o BTG Pactual durante o processo de capitalização do Master e a tentativa de venda do banco ao BRB.
Ciro Nogueira e o apartamento no Fasano
O nome Fasano reapareceu em outro capítulo imobiliário da relação de Vorcaro com a cúpula política bolsonarista.
Em uma conversa de 2 de novembro de 2025, obtida pela Polícia Federal, Ciro Nogueira explicou ao banqueiro que sua ex-companheira permanecia em um apartamento que ele havia alugado no Hotel Fasano, em São Paulo. Enquanto aguardava a desocupação do imóvel, o senador morava gratuitamente em outro apartamento cedido por Vorcaro.
“Eu tenho aquele apartamento lá no Fasano que eu aluguei, só que ela está lá”, afirmou Ciro. Na mesma conversa, pediu para permanecer por mais três ou quatro meses no imóvel pertencente ao ex-dono do Master. Vorcaro respondeu que não havia problema e chegou a perguntar se Ciro precisava de outro apartamento.
Os documentos publicados não identificam qual unidade Fasano era alugada por Ciro, quem figurava como proprietário ou locador, quem recebia os pagamentos nem se havia alguma ligação com o ativo comprado pelo fundo Albali. Sem contrato, matrícula ou identificação da unidade, qualquer conexão direta com o Fasano Itaim permanece como hipótese a ser investigada.
Master bancou jantar no Fasano de Nova York
Meses antes do negócio no Itaim, em novembro de 2022, o Banco Master promoveu e pagou um jantar de boas-vindas para aproximadamente 150 pessoas no Fasano Restaurant de Nova York, durante uma conferência do LIDE.
O restaurante, localizado na Park Avenue, foi aberto para receber autoridades e empresários. Entre os convidados distribuídos nas mesas reservadas ao Master estavam ministros do Supremo Tribunal Federal, como Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes.
O estabelecimento da Park Avenue é diferente do Fasano Fifth Avenue, hotel e clube privado da marca em Manhattan. O ponto é relevante para evitar a confusão entre as duas unidades nova-iorquinas.
Até agora, não foi localizada prova documental de que Flávio tenha participado daquele jantar. A fotografia com Mourão também não possui data exata que permita relacioná-la à viagem ou à recepção. O que está comprovado é que, no mesmo ano em que a imagem teria sido feita em um hotel do Rio, o Master bancou uma confraternização para autoridades em um restaurante Fasano nos Estados Unidos.
Master e JHSF no mesmo circuito de Nova York
A marca Fasano voltou a aparecer na agenda de Daniel Vorcaro em maio de 2024, durante a chamada Brazil Week de Nova York.
Um relatório oficial de missão apresentado à Câmara pelo deputado Domingos Neto registra que, em 13 de maio, houve um jantar executivo de apresentação e boas-vindas do LIDE no Fasano Restaurant, em Manhattan. No dia seguinte, o LIDE Brazil Investment Forum reuniu autoridades e empresários no Harvard Club. Em 15 de maio, foi realizado no Hotel Plaza o primeiro Summit Valor Econômico Brazil-USA.
Os eventos não devem ser tratados como uma única programação nem ter seus patrocinadores automaticamente confundidos. Não há documento público demonstrando que o Master pagou o jantar no Fasano de 13 de maio de 2024, como havia feito na recepção de novembro de 2022.
Há, contudo, uma convergência objetiva. O Summit Valor de 15 de maio foi apresentado pelo Banco Master, teve Daniel Vorcaro na abertura e contou com a JHSF entre as empresas apoiadoras ou patrocinadoras. O evento aconteceu dois dias depois do jantar do LIDE no restaurante Fasano. A página oficial do fórum do LIDE também lista a JHSF entre os apoiadores da programação daquela semana.
Foi nessa mesma janela, entre 12 e 16 de maio de 2024, que teria ocorrido a chamada “Noite das Astronautas”, festa atribuída por investigadores a Vorcaro. A data apontada nas informações divulgadas sobre o relatório da PF é 2024, e não novembro de 2022.
Não há comprovação pública de que Flávio Bolsonaro tenha participado da festa. Registros do Senado mostram o parlamentar em atividades em Brasília nos dias centrais da programação, e Anthony Garotinho negou que o filho de Jair Bolsonaro apareça no vídeo da recepção ao qual teve acesso. A presença de Flávio no jantar do Fasano em 2022 também não foi demonstrada.
Fasano Boa Vista recebeu Bolsonaro e Musk em 2022
A passagem de Flávio pelo Fasano Rio, caso confirmada, não seria a única aproximação de integrantes do clã Bolsonaro com empreendimentos ligados à marca naquele mesmo ano.
Em 20 de maio de 2022, Jair Bolsonaro encontrou-se com Elon Musk e um grupo de empresários no Hotel Fasano Boa Vista, instalado no complexo Fazenda Boa Vista, da JHSF, no interior de São Paulo. O presidente do Conselho de Administração da companhia, José Auriemo Neto, conhecido como Zeco Auriemo, participou da recepção.
Além da cerimônia pública, foram realizadas reuniões reservadas entre empresários e integrantes do governo. Entre as autoridades presentes estavam ministros e figuras centrais da administração Bolsonaro. O encontro consolidou a Fazenda Boa Vista como um dos ambientes de circulação da elite empresarial próxima ao então presidente.
O complexo já havia recebido, em agosto de 2021, uma confraternização na residência do então ministro Fábio Faria com a participação de Ciro Nogueira, Tarcísio de Freitas e Roberto Campos Neto. Isso não permite atribuir à JHSF a organização política de todos os encontros particulares realizados dentro do empreendimento, mas mostra que seus espaços de luxo eram frequentados pela cúpula bolsonarista.
Reprodução/Instagram
A JHSF controla o Grupo Fasano desde 2007. A companhia atua em hotelaria, restaurantes, shoppings, condomínios de alto padrão, clubes e aviação executiva. A presença de Zeco Auriemo no encontro de Bolsonaro com Musk foi, portanto, além da simples locação de um salão em um hotel.
A Linha do Tempo do Esquema
Os fatos não demonstram que a JHSF ou o Grupo Fasano tenham participado de crimes atribuídos ao Banco Master. Também não provam que o hotel tenha intermediado o encontro entre Flávio e Mourão. A cronologia revela, entretanto, que a marca aparece repetidamente em pontos relevantes da rede empresarial e política construída ao redor de Daniel Vorcaro e do bolsonarismo:
- 2022: A suposta fotografia de Flávio e “Sicário” teria sido registrada em um hotel da Zona Sul do Rio e apresenta forte compatibilidade com o rooftop do Fasano. No mesmo ano, o Fasano Boa Vista recebeu Bolsonaro e Elon Musk, e o Master bancou jantar para autoridades no Fasano de Nova York.
- Virada para 2023: Os sócios do banco compram 80% do Fasano Itaim.
- Maio de 2024: Master e JHSF aparecem no mesmo circuito empresarial da Brazil Week, período em que teria ocorrido a “Noite das Astronautas”.
- Novembro de 2025: Ciro Nogueira menciona um apartamento alugado no Fasano enquanto ocupava outro imóvel cedido por Vorcaro.
A identificação definitiva do cenário da fotografia depende agora de dados objetivos: o arquivo original, a data precisa do registro, reservas feitas no Fasano Rio, identificação do hóspede responsável pelo acesso ao rooftop e eventuais pagamentos realizados por Flávio, Mourão ou terceiros. Até que essas informações apareçam, a arquitetura não fecha o caso, mas reduz significativamente o universo de lugares em que a imagem pode ter sido produzida.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/foto-flavio-bolsonaro-sicario-lugar/

