Foto de Flávio Bolsonaro com Sicário é real e não foi gerada por IA, cravam plataformas especializadas

A fotografia que mostra o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao lado de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, não foi criada nem manipulada com inteligência artificial, segundo diferentes plataformas especializadas em análise de arquivos digitais.

O resultado contraria a versão apresentada pelo próprio Flávio, que passou a atribuir a imagem à inteligência artificial depois de afirmar inicialmente que não se lembrava do encontro e que poderia se tratar de mais uma fotografia tirada com um apoiador.

A SignaIP, plataforma voltada à verificação da origem e da integridade de conteúdos digitais, informou não ter encontrado sinais de inserção, recorte ou adulteração na fotografia. A análise examinou os metadados do arquivo e a estrutura estatística dos pixels, incluindo ruído, compressão e continuidade da imagem.

Testes realizados pela Fórum em outras três ferramentas chegaram à mesma classificação.

A Undetectable AI, por meio do detector TruthScan, atribuiu à imagem 79% de probabilidade de ser real.

Reprodução/Undetectable AI

O ZeroGPT também classificou o arquivo como real, com índice de 79%, contra 21% de possibilidade de geração por inteligência artificial.

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Reprodução/ZeroGPT

A DeepAI apontou uma probabilidade de 21% de uso de IA, com nível médio de confiança, mas igualmente classificou a fotografia como real.

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Reprodução/DeepAI

Embora os percentuais variem, as três ferramentas consultadas pela Fórum convergiram no ponto central: o arquivo não apresenta características suficientes para ser classificado como uma imagem criada artificialmente.

Análise dos pixels descarta alteração no dedo

A aparência de um dos dedos de Sicário foi usada por Flávio Bolsonaro como suposta evidência de manipulação.

Durante uma transmissão ao vivo, o senador afirmou que a imagem mostraria o homem com um “dedo mindinho de 20 centímetros”. A declaração foi feita enquanto Flávio criticava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dizia que a fotografia havia sido alterada com inteligência artificial.

A análise da SignaIP, porém, não encontrou marcas de edição na região.

Segundo Caroline Nunes, fundadora da InspireIP, responsável pela plataforma, os pixels que formam o dedo apresentam a mesma assinatura de ruído, taxa de compressão e coerência estrutural verificadas no restante da fotografia.

Caso o dedo tivesse sido alongado ou inserido posteriormente, a ferramenta poderia identificar diferenças na compressão JPEG, desalinhamentos na matriz de pixels, alterações nas bordas, discrepâncias na distribuição de ruído ou vestígios deixados por ferramentas de clonagem.

Nenhum desses sinais foi encontrado.

A conclusão foi de que não houve inserção externa, recorte ou substituição do dedo. A aparência incomum seria resultado da posição das mãos e da sobreposição visual entre dois dedos, criando uma ilusão de ótica.

Um cirurgião consultado durante a verificação também avaliou que a mão apresenta anatomia compatível com a normalidade, com as falanges preservadas.

O que a SignaIP verificou

A plataforma também procurou credenciais C2PA, padrão técnico utilizado para registrar a origem e o histórico de conteúdos digitais.

O sistema permite anexar ao arquivo dados criptografados sobre autoria, programa utilizado na criação e eventuais edições posteriores. Quando uma imagem é produzida por determinadas ferramentas de inteligência artificial compatíveis com o padrão, essa informação pode aparecer nas credenciais do arquivo.

A ausência de C2PA, isoladamente, não é suficiente para provar a autenticidade de uma fotografia, já que o uso desse protocolo não é obrigatório e os metadados podem ser removidos durante o envio por aplicativos ou redes sociais.

Por isso, a SignaIP também examinou a estrutura interna do arquivo. A plataforma não identificou descontinuidade estatística nem marcas de edição na região questionada por Flávio.

A análise atribuiu probabilidade nula de geração artificial ao arquivo submetido à verificação.

Outros testes já haviam afastado uso de IA

A fotografia foi publicada inicialmente pelo ICL Notícias na quarta-feira (15). Segundo o veículo, a imagem foi fornecida por uma fonte mantida sob sigilo e teria sido registrada em 2022, em um hotel da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Antes da publicação, o ICL e o Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística submeteram o arquivo a diferentes ferramentas de verificação, entre elas Gemini, Hive Moderation, Sightengine, Was It AI e Image Whisperer.

Nenhuma delas encontrou sinais suficientes para apontar geração artificial ou montagem.

Somadas as verificações divulgadas pelo ICL, a análise da SignaIP e as três plataformas consultadas pela Fórum, há uma convergência entre diferentes sistemas no sentido de que a fotografia é real e não foi produzida por inteligência artificial.

Detectores automáticos não são infalíveis e seus resultados devem ser interpretados em conjunto. Neste caso, porém, a análise estrutural da SignaIP reforça os resultados dos demais testes ao não encontrar vestígios de recorte, clonagem ou inserção na imagem.

Cenário sugere rooftop do Fasano Rio

Além da integridade digital do arquivo, o cenário da fotografia oferece uma pista sobre o local em que Flávio e Mourão teriam se encontrado.

A estrutura visível atrás dos dois apresenta forte compatibilidade arquitetônica com a cobertura do bar da piscina do Hotel Fasano Rio de Janeiro, em Ipanema.

A comparação com imagens públicas do rooftop mostra elementos semelhantes: vigas escuras e paralelas, ripas estreitas na cobertura, travessas de tonalidade clara, módulos retangulares repetidos e luminárias quadradas instaladas na parte inferior das vigas.

Também há correspondência visual na moldura estrutural vertical que aparece ao fundo da fotografia.

A presença desses componentes não permite afirmar definitivamente, apenas pela imagem, que o registro foi feito no Fasano. A estrutura possui elementos repetidos, e não é possível determinar se a luminária observada é exatamente a mesma.

O conjunto arquitetônico, no entanto, reduz o universo de locais possíveis e aponta para o bar da piscina do hotel como uma hipótese concreta.

Segundo informações do próprio Fasano, o espaço fica no oitavo andar e é de uso exclusivo dos hóspedes.

Caso o local seja confirmado, será necessário esclarecer quem estava hospedado, em nome de quem foi realizada a reserva, quem pagou as despesas e como Flávio Bolsonaro e Mourão tiveram acesso ao rooftop.

A semelhança arquitetônica não demonstra que o hotel tenha organizado o encontro, que a JHSF soubesse da presença dos dois ou que Daniel Vorcaro tenha financiado qualquer despesa relacionada à fotografia.

Relações de Vorcaro com empreendimentos Fasano

A hipótese de que a foto tenha sido feita no Fasano Rio ganha relevância diante das relações empresariais mantidas por Daniel Vorcaro e seus antigos sócios com empreendimentos associados à marca.

No final de 2022, em uma operação divulgada no início de 2023, Vorcaro, Maurício Quadrado e Augusto Lima, então sócios do Banco Master, adquiriram 80% do empreendimento imobiliário Fasano Itaim, em São Paulo.

A transação, estimada em aproximadamente R$ 330 milhões, foi realizada por meio do fundo Albali. O complexo reunia hotel, restaurantes, residências e espaços para eventos.

A operação não representou a compra do Grupo Fasano nem do Fasano Rio. O ativo adquirido estava relacionado ao empreendimento imobiliário do Itaim, enquanto a marca e a gestão hoteleira permaneceram ligadas ao Grupo Fasano e à JHSF.

No mesmo ano em que a fotografia de Flávio e Mourão teria sido registrada, o Banco Master também financiou um jantar para cerca de 150 pessoas no Fasano Restaurant, em Nova York, durante uma conferência do LIDE.

Não há prova pública de que Flávio tenha participado do evento, nem elementos que permitam relacionar diretamente o jantar à fotografia.

Flávio apresentou versões diferentes

Quando a imagem veio a público, Flávio Bolsonaro declarou inicialmente que não se lembrava de Sicário.

O senador afirmou que, caso a fotografia fosse verdadeira, poderia ser apenas mais um registro feito com alguém que se aproximou dele em um local público.

A assessoria de Flávio divulgou posteriormente uma nota dizendo que ele “nunca viu” Sicário e que não conhecia a pessoa retratada. O comunicado também questionou a procedência do arquivo e levantou a hipótese de uso de inteligência artificial.

Na transmissão realizada depois, Flávio abandonou o tom de dúvida e passou a afirmar que a imagem havia sido manipulada, usando a aparência do dedo de Sicário como argumento.

As verificações técnicas divulgadas posteriormente não sustentam essa versão.

A fotografia também ampliou os questionamentos sobre a relação de Flávio com o núcleo empresarial de Daniel Vorcaro. O senador já admitiu ter solicitado recursos ao banqueiro para o filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro, depois de inicialmente negar a participação de Vorcaro no projeto.

O pedido teria alcançado R$ 134 milhões, com cerca de R$ 61 milhões efetivamente repassados.

Quem era “Sicário”

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Siário, foi preso em março de 2026 durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. Ele morreu em 6 de março, dois dias depois da prisão, enquanto permanecia sob custódia da Polícia Federal em Minas Gerais.

Segundo as investigações, Sicário integrava o grupo conhecido como “A Turma”, descrito como uma espécie de milícia privada ligada a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Ele seria um dos responsáveis por ações de intimidação, obtenção de dados sigilosos, monitoramento e ameaças contra pessoas consideradas adversárias dos interesses do grupo.

A identificação definitiva do local da fotografia ainda depende de elementos objetivos, como o arquivo original, a data exata do registro, eventuais reservas realizadas no hotel, a identificação do hóspede responsável pelo acesso ao rooftop e informações sobre pagamentos.

A autenticidade digital da imagem, entretanto, recebeu agora uma série de confirmações independentes. As plataformas consultadas não encontraram evidências de que o encontro tenha sido inventado por inteligência artificial.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/foto-flavio-sicario-real/