Sob o calor da primavera europeia e termômetros que já flertam com as temperaturas de verão, a capital portuguesa está oficialmente “bombando”. As regiões centrais e os bairros mais nobres da cidade, como o Príncipe Real e os arredores da badalada Avenida da Liberdade, registraram uma movimentação atípica e intensa ao longo de todo este fim de semana. O motivo é o início, nesta segunda-feira (1º), da 14ª edição do Fórum de Lisboa, evento que, até 2024, ostentava o nome oficial de Fórum Jurídico de Lisboa, mas que se consolidou na engrenagem do poder como a maior e mais influente arena de articulação política do Brasil fora do território nacional.
Rebatizado ironicamente nos bastidores de “Gilmarpalooza”, uma alusão bem-humorada ao festival de música Lollapalooza e ao seu anfitrião, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o encontro deste ano ocorre em um formato inédito, concentrado de segunda a quarta-feira (1º a 3 de junho), colado aos feriados de quinta e sexta-feira, o que garantiu público recorde e disputa acirrada por lugares.
A sombra do Caso Master e o “bunker” de Gilmar
A edição de 2026 desembarca na Europa cercada por uma forte névoa de tensão política. O pano de fundo nos corredores da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa é o escândalo do Banco Master, considerado o maior imbróglio financeiro e de fraudes das últimas décadas, sobretudo por envolver direta ou indiretamente figuras do alto escalão da política e do Judiciário brasileiro.
A crise chegou a provocar baixas de última hora e diminuiu o ritmo das confirmações, mas o esvaziamento apostado pelos bastidores de Brasília não se concretizou. Embora ligeiramente menor do que em anos anteriores, a presença dos “figurões” da República será em peso. O próprio ministro Gilmar Mendes entrou em campo pessoalmente nas últimas semanas, telefonando para autoridades e magistrados, especialmente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), para reforçar os convites e blindar o evento das turbulências domésticas acentuadas pelas recentes cobranças do presidente do STF, Edson Fachin, por um código de ética mais rígido na magistratura.
Em entrevista na última semana à Folha, Gilmar minimizou o impacto das investigações e rechaçou as críticas de que o Fórum legitima alvos de operações policiais:
“Estamos fazendo talvez um dos maiores eventos que já fizemos, com mais de 470 palestrantes e disputas por lugar. Talvez pessoas que não queiram ir ao Fórum e queiram ser simpáticas à ideologia [de setores da imprensa] estejam ecoando isso, mas não percebemos isso, felizmente. Não sei quem plantou essa ideia de que o problema é o ‘Gilmarpalooza’, mas para nós é uma coisa muito naïve (ingênua, infantil).”
Entre os desfalques de peso confirmados na véspera, a ausência mais sentida é a do ministro do STF Flávio Dino. O magistrado cancelou sua participação em cima da hora, neste domingo (31), após sofrer um acidente doméstico e fraturar o pé, sendo impedido de viajar. Estão confirmadas, contudo, as presenças de Alexandre de Moraes e de mais de 20 ministros do Executivo e do Judiciário, além de 23 congressistas e governadores.
A geopolítica de Trump em debate
Sob o tema global “Nova ordem internacional, tecnologia e soberania: desafios democráticos, econômicos e sociais”, o Fórum promete ir além do debate estritamente jurídico. Gilmar Mendes adiantou que o foco geopolítico estará centrado no retorno de Donald Trump à Casa Branca e seus desdobramentos nas zonas de conflito mundial. “Qual é a nova ordem internacional com Trump, prendendo Nicolás Maduro na Venezuela ou atacando outros países? Temos que entender”, provocou o ministro em declarações recentes. O acordo União Europeia-Mercosul e o avanço da Inteligência Artificial no Brasil também dominam a pauta.
A eterna polêmica dos custos públicos
Se o cardápio de debates é incensado pela organização como “estritamente acadêmico, plural e voltado ao aperfeiçoamento institucional”, o financiamento do “Gilmarpalooza” continua sob intenso bombardeio e alvo de críticas severas no Brasil.
Até o momento, levantamentos em Diários Oficiais e portais de transparência apontam que pelo menos 135 autoridades e servidores públicos de 54 órgãos diferentes tiveram viagens autorizadas para Lisboa com dinheiro dos pagadores de impostos. Esse número, contudo, é considerado altamente subestimado, já que muitos órgãos, incluindo a Câmara dos Deputados e ministérios do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, ainda não consolidaram ou publicaram os dados de passagens e diárias de seus membros.
Em nota oficial, a coordenação do Fórum de Lisboa lavou as mãos sobre os gastos públicos e reafirmou o caráter pedagógico do encontro, ressaltando que “a eventual participação de servidores decorre de decisão autônoma dos respectivos órgãos, observadas as normas de cada instituição, não possuindo a organização qualquer ingerência sobre custeios realizados por terceiros”.
Cobertura completa na Fórum
A Fórum cobrirá toda a 14ª edição do Fórum de Lisboa. Acompanhe as atualizações em tempo real no nosso portal de notícias e assista às análises, bastidores e entradas ao vivo diretamente da capital portuguesa nos programas diários da TV Fórum.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/gilmarpalooza-caso-master-14-forum-de-lisboa/

