O chanceler Mauro Vieira afirmou que o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, o procurou em Paris para defender a continuidade das negociações com o Brasil, mesmo após o governo Donald Trump divulgar relatórios da Seção 301 que miram Pix, comércio digital e produtos brasileiros. Segundo Vieira, a conversa ocorreu depois que Washington apresentou as conclusões antes do prazo político de 30 dias acertado entre Lula e Trump para negociar a crise comercial.
A fala de Mauro Vieira é o elemento novo da crise. A tarifa de 25% contra produtos brasileiros, a ofensiva contra o Pix e a investigação do USTR já foram reveladas. Agora, o chanceler diz que o próprio representante de Trump buscou o governo brasileiro para manter aberta uma negociação que os EUA pressionaram ao antecipar os relatórios.
“Ele se aproximou de mim. Conversamos. Ele disse que estava tendo ótimas conversas com o Brasil. Eu respondi que é de nosso interesse manter o diálogo, sobretudo depois do anúncio dos relatórios finais das duas investigações sobre a Seção 301, que acabavam de ser divulgados antes do prazo estabelecido pelos presidentes em Washington, de 30 dias para começarmos a negociar. Mas ele disse que estava pronto para continuar essas conversas e que o diálogo sempre foi muito bom”, afirmou Vieira.
Mauro Vieira expõe contradição dos EUA
Mauro Vieira enquadrou a conversa como sinal de que ainda há negociação, mas também deixou claro o incômodo do Brasil. O governo Lula esperava usar o prazo de 30 dias para tentar evitar novas medidas comerciais. Os Estados Unidos, porém, divulgaram os relatórios antes do fim desse intervalo.
O movimento criou uma contradição diplomática. Ao mesmo tempo em que o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos afirma que continuará engajado com o Brasil, o órgão concluiu que políticas brasileiras seriam “irrazoáveis ou discriminatórias” e poderiam restringir o comércio norte-americano.
A investigação foi aberta em julho de 2025, por determinação de Trump, e mira seis eixos: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
Vieira diz que negociação precisa continuar
Segundo Mauro Vieira, Jamieson Greer afirmou que estava pronto para continuar as conversas e elogiou o diálogo com o Brasil. O chanceler disse ter respondido que a única saída para a crise é negociar.
“Pois é, que ótimo. Então, vamos continuar assim, conversando. É assim que se negocia”, disse Mauro Vieira.
A declaração coloca o Itamaraty no centro da resposta brasileira. O governo Lula tenta impedir que a pressão comercial vire tarifa efetiva e busca transformar a disposição verbal de Greer em uma negociação real antes da decisão final de Washington.
A Fórum já mostrou que o governo Trump ameaça impor tarifa de 25% contra produtos brasileiros com base na Seção 301. A ofensiva inclui críticas ao Pix, a decisões judiciais brasileiras, ao comércio digital, ao etanol e à política ambiental.
Pix vira alvo central de Trump
O Pix aparece no eixo de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico. Para os EUA, o sistema brasileiro teria favorecimento estatal e prejudicaria empresas norte-americanas de meios de pagamento. O governo Lula rejeita essa leitura.
Em nota oficial, o Planalto afirmou que “não havia e não há justificativa” para medidas unilaterais contra o Brasil ou contra “patrimônios brasileiros como o Pix”. O governo sustenta que o sistema é público, gratuito e opera com regras uniformes para empresas nacionais e estrangeiras.
A pressão sobre o Pix deu caráter político à disputa comercial. A Fórum mostrou que a ofensiva de Trump ocorre após lobby de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos e provocou reação contra aliados do bolsonarismo que atuam junto ao governo norte-americano.
Relatórios da Seção 301 aumentam pressão sobre o Brasil
O USTR afirma que o Brasil recebeu comentários públicos e participou de audiência durante a investigação. Segundo o órgão norte-americano, mais de 30 testemunhas foram ouvidas e mais de 295 comentários e réplicas foram apresentados antes da conclusão.
Após os relatórios, o USTR abriu nova etapa de consulta pública. Comentários por escrito podem ser enviados até 1º de julho, pedidos para participação em audiência devem ser apresentados até 22 de junho, e a audiência está prevista para 6 de julho.
A decisão sobre medidas comerciais precisa ser tomada antes do prazo legal de 15 de julho. Até lá, o governo brasileiro tenta sustentar que suas políticas não discriminam empresas dos EUA e que a relação comercial entre os dois países não justifica retaliação.
Tarifaço pode ganhar nova camada
A investigação contra o Brasil não é a única frente aberta por Trump. O USTR também propôs medidas em 60 investigações da Seção 301 relacionadas a importações de bens produzidos com trabalho forçado. A Fórum mostrou que essa nova ofensiva pode ampliar o cerco comercial com tarifa adicional contra produtos brasileiros.
Na prática, o Brasil tenta impedir que duas pressões caminhem juntas: a tarifa de 25% vinculada à investigação sobre práticas brasileiras e uma sobretaxa adicional associada ao tema do trabalho forçado. O Planalto contesta as duas frentes e acusa Washington de usar argumentos técnicos para justificar medidas protecionistas.
Brasil tenta transformar conversa em recuo
A fala de Mauro Vieira mostra que a crise entrou em fase diplomática decisiva. O governo Trump já formalizou as acusações contra o Brasil. O governo Lula, agora, aposta no canal aberto por Jamieson Greer para tentar impedir que a ameaça vire tarifa.
O ponto central é o calendário. Se os EUA mantiverem a decisão até 15 de julho, a negociação relatada por Vieira pode virar apenas gesto protocolar. Se Greer levar adiante o diálogo que defendeu em Paris, o Brasil ganha espaço para tentar barrar o tarifaço antes da aplicação das medidas.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/mauro-vieira-eua-brasil/

