O ministro André Mendonça, do STF, autorizou a nova ofensiva da Polícia Federal contra Cláudio Castro (PL), mas proibiu que o mandado de busca alcançasse um dos endereços pedidos: a Rua Pinheiro Machado, s/nº, em Laranjeiras (RJ), onde ficam o Palácio Guanabara e a Casa Militar do governo fluminense.
A ressalva é o ponto central da decisão. Mendonça deferiu parcialmente as buscas, autorizou medidas contra oito alvos do Caso Master, mas retirou esse endereço do alcance da operação. O detalhe muda o peso político do despacho: mostra que o ministro validou a ação contra o ex-governador, mas impôs uma trava sobre a estrutura institucional do Rio.
Deflagrada nesta terça-feira (26), a 8ª fase da Operação Compliance Zero cumpriu mandados no Rio e em Brasília. A PF apura crimes financeiros envolvendo recursos do Rioprevidência aplicados em produtos do Banco Master.
A decisão autorizou buscas contra oito alvos: Cláudio Bomfim de Castro e Silva; Ricardo Siqueira Rodrigues; Deivis Marcon Antunes; Eucherio Lerner Rodrigues; Pedro Pinheiro Guerra Leal; Fernanda Pereira da Silva Machado; Mídias Promotora Ltda.; e Planner Corretora de Valores S.A.
A nova fase aprofunda a cobertura da Fórum. Nesta terça, a reportagem mostrou que Cláudio Castro virou alvo da PF em ação sobre R$ 3 bilhões ligados ao Master de Vorcaro. Outra apuração explicou como o ex-governador e Daniel Vorcaro aparecem no esquema investigado.
A investigação sustenta que Vorcaro atuou no Rioprevidência mediante ajuste político com Castro. Segundo a decisão, a aproximação foi intermediada por Ricardo Siqueira Rodrigues e operacionalizada por agentes da estrutura decisória do fundo previdenciário.
O caso envolve cifras bilionárias. O Rioprevidência aplicou R$ 970 milhões em Letras Financeiras do Master entre outubro de 2023 e julho de 2024. Com entraves regulatórios na modalidade, os recursos migraram para fundos estruturados pelo mesmo grupo, em operações que chegaram a R$ 2,01 bilhões.
Na cota da PGR citada por Mendonça, as operações totalizam R$ 3,691 bilhões. Para os investigadores, a movimentação ignorou critérios técnicos de investimento, guiando-se por proximidade política, intermediação privada e decisões em desacordo com normas de prudência e governança.
Esse ponto dialoga com outra frente da cobertura: a Fórum mostrou que o Master recebeu milhões do RJ no mesmo dia de evento com Castro e Vorcaro. A nova decisão reforça a relação suspeita entre o banco, o fundo e o entorno político de Castro.
Mendonça barrou busca no endereço da Casa Militar
O trecho mais sensível do despacho é o limite imposto por Mendonça à PF. O ministro autorizou buscas nos endereços dos anexos sigilosos, mas fez ressalva expressa ao local na Rua Pinheiro Machado, s/nº, em Laranjeiras.
O endereço abriga o Palácio Guanabara e a Casa Militar fluminense. Na prática, esse ponto específico ficou fora do alcance dos mandados do STF.
A decisão não explica o motivo da exclusão, nem reproduz a lista completa de locais da representação da PF, pois os dados estão em anexos sigilosos.
A ressalva, porém, é politicamente relevante: Mendonça validou a operação contra os demais alvos, mas barrou a entrada da PF em uma estrutura oficial do governo fluminense.
Quem são os alvos da ação contra Castro
Além de Castro, o nome mais sensível é o de Ricardo Siqueira Rodrigues. A PF o descreve como lobista e articulador, com papel ativo na aproximação entre Vorcaro e autoridades com poder de decisão sobre regimes de previdência.
No Rioprevidência, Ricardo é apontado como intermediário da captação. Ele teria dito a Vorcaro que resolveria os trâmites, restando apenas o “alinhamento político”. Em outra passagem, indicou que o regime possuía um “dono” que precisava autorizar os agentes.
Empresário e ex-delator da Lava Jato, Ricardo não é novato em grandes investigações. Em 2025, ele acionou o STF para pedir a devolução de R$ 10 milhões pagos como multa do seu acordo de colaboração firmado em 2018.
Na nova frente, a suspeita é que ele atuou como principal captador de recursos de previdências para o Master. A PGR afirma que Ricardo teria sido remunerado com comissão de 0,6% sobre os valores angariados.
Deivis Marcon Antunes, o ex-presidente do Rioprevidência
Outro alvo é Deivis Marcon Antunes, ex-presidente do Rioprevidência e personagem conhecido no Caso Master. A Fórum noticiou em janeiro que a PF o prendeu em uma fase anterior ligada ao banco.
Depois, a reportagem publicou o perfil “Dinheiro pelos ares: saiba quem é Deivis Marcon Antunes”, após a ação da PF em Balneário Camboriú (SC).
Agora, Deivis aparece como peça nuclear na abertura do fundo ao Master. A PF afirma que ele operacionalizou investimentos em desconformidade com a política interna e com as regras dos regimes de previdência.
Segundo a investigação, Deivis integrava o grupo nomeado imediatamente antes dos fatos, assumindo poder de decisão sobre o credenciamento do Master e a definição das aplicações.
O caso ganhou repercussão nacional após um alvo da PF jogar uma mala de dinheiro pela janela em Balneário Camboriú, episódio que ampliou a pressão sobre as aplicações do Rioprevidência.
Eucherio Lerner Rodrigues e Pedro Guerra Leal
A decisão também mira Eucherio Lerner Rodrigues, então diretor de Investimentos. Ele é apontado como responsável técnico das aplicações irregulares. A PF diz que Eucherio assinou atestados de credenciamento do Master e da Planner e apresentou justificativas insuficientes.
Pedro Pinheiro Guerra Leal, ex-gerente de Operações, deu apoio técnico às aplicações. A PF afirma que ele selecionou ativos em desacordo com as normas federais e participou do credenciamento das empresas.
A presença da dupla retoma a primeira fase no Rio. Em janeiro, a Fórum adiantou que a operação da PF chegaria ao entorno de Castro e miraria dirigentes do Rioprevidência.
Para os investigadores, Eucherio e Pedro deram aparência técnica a operações tomadas sem análise de risco, sem comparação com o mercado e em desacordo com a política de investimentos do fundo.
Fernanda Pereira da Silva Machado
Fernanda Pereira da Silva Machado, então gerente de Controle Interno e Auditoria, é outro alvo relevante. Sua presença é sensível justamente porque sua função era fiscalizar a autarquia.
A PF aponta que Fernanda assinou atestados de credenciamento do Master e da Planner. Para a investigação, sua atuação legitimou formalmente investimentos sem suporte técnico, em vez de barrar riscos ao patrimônio.
A decisão afirma que Fernanda contribuiu para viabilizar operações irregulares mediante um credenciamento burocrático, ignorando análises técnicas obrigatórias.
Mídias Promotora e Planner
A Mídias Promotora Ltda. é vinculada a Ricardo Siqueira. Segundo a PF, a empresa foi usada para receber e distribuir comissões da captação de recursos junto a regimes de previdência, especialmente o fluminense.
Mendonça registra que a empresa não seria só uma intermediária formal. A suspeita é que funcionou como canal para escoar recursos das fraudes, facilitando a lavagem de dinheiro e o repasse a agentes.
A Planner Corretora de Valores S.A. é apontada como peça da segunda etapa do esquema. A PF afirma que seu credenciamento, assim como o do Master, foi cercado de irregularidades.
A Planner teria desempenhado dupla função: servir de anteparo formal para as operações e permitir o aumento das taxas de corretagem, incrementando a remuneração dos operadores da fraude.
Brasília também entrou na rota da PF
A operação cumpriu mandados no Rio e em Brasília, mas a decisão pública não detalha os endereços de cada alvo. Essa informação consta apenas nos anexos sigilosos da PF citados por Mendonça.
A presença de Brasília na nova etapa dialoga com outra apuração da Fórum: a quebra da criptografia do celular de Vorcaro, que teria colocado a capital em pânico.
A conexão territorial mais objetiva com Brasília é a Planner Corretora, registrada no DF. O lobista Ricardo Siqueira também tem histórico de atuação na capital, mas o documento público de Mendonça não crava se o mandado contra ele ocorreu lá.
A informação segura é que Brasília está na rota desta fase da Compliance Zero, mas os alvos específicos dos mandados no DF permanecem protegidos sob sigilo.
O que Mendonça autorizou
Além das buscas, Mendonça autorizou a apreensão de documentos, computadores, celulares, dados em nuvem e registros bancários, fiscais e telefônicos dos investigados.
O ministro também permitiu o confisco de dinheiro em espécie acima de R$ 20 mil, joias, obras de arte, veículos e itens de luxo sem origem justificada.
O despacho amplia a pressão sobre o entorno político e financeiro do Caso Master. O cerco a Vorcaro já havia aumentado quando a PF rejeitou a proposta de delação do dono do banco. Na sequência, a Fórum mostrou que Juca deixou a defesa de Daniel Vorcaro.
Para o STF, há indícios de uma organização voltada à captação irregular de recursos do Rioprevidência em favor do Master. A decisão, no entanto, trata de medidas investigativas. Os alvos não foram condenados e as responsabilidades dependem do avanço da apuração.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/mendonca-casa-militar-castro/

