A Meta anunciou nesta segunda-feira (8) que acionará a Justiça federal dos Estados Unidos para declarar a NSO Group em desacato. A gigante da tecnologia acusa a desenvolvedora israelense do spyware Pegasus de violar uma decisão judicial que a proibia expressamente de atacar o WhatsApp e seus usuários. Segundo a dona do aplicativo, novas tentativas de spear phishing orquestradas pela NSO foram detectadas e neutralizadas pela plataforma.
Embora o desdobramento jurídico ocorra nos EUA, o caso reacende no debate público um histórico denso de controvérsias envolvendo a indústria de vigilância israelense e o governo de Jair Bolsonaro. A NSO Group entrou no radar político nacional em 2021, durante uma nebulosa tentativa de compra do Pegasus pelo Ministério da Justiça. O episódio serviu de preâmbulo para o escândalo do FirstMile, ferramenta da também israelense Cognyte e pivô das investigações sobre a chamada “Abin paralela” que hoje tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF).
Meta acusa NSO de reincidência contra o WhatsApp
Em comunicado oficial, a Meta detalhou que o WhatsApp identificou ataques recentes baseados em engenharia social. A tática induzia usuários a clicarem em links maliciosos que redirecionavam para infraestruturas externas controladas pela NSO. Além de bloquear as investidas, a Meta derrubou contas e grupos de teste criados pela fabricante do Pegasus dentro do próprio aplicativo.
Para a Meta, a conduta é uma violação flagrante da liminar permanente imposta pela Justiça norte-americana, que vetou a NSO de mirar a plataforma. O embate arrasta-se desde 2019, quando o WhatsApp processou a empresa israelense por utilizar o Pegasus para invadir contas de ativistas e jornalistas. Vale lembrar que, desde 2021, a NSO Group figura na Entity List (lista de restrições) do Departamento de Comércio dos EUA, sancionada justamente por fornecer tecnologias de espionagem a governos que monitoram opositores.
O lobby do Pegasus no governo Bolsonaro
A relação do bolsonarismo com a NSO Group começou a ser escrutinada de perto em 2021. Naquele ano, o Ministério da Justiça abriu um processo licitatório que pavimentaria a aquisição do Pegasus , um software de intrusão profunda capaz de assumir o controle total de celulares, acessando mensagens criptografadas, microfone, câmera e dados de geolocalização sem qualquer clique da vítima.
A movimentação acendeu um alerta no Congresso Nacional. Por meio do Requerimento nº 1607/2021, o senador Jaques Wagner (PT-BA) cobrou explicações do então ministro Anderson Torres. O foco do questionamento era a atuação de Carlos Bolsonaro nos bastidores. Sem ocupar cargo no governo federal, o vereador carioca foi apontado como o principal articulador político para a compra do sistema.
A gravidade da investida foi amplamente documentada. À época, a Revista Fórum alertou que a licitação de Bolsonaro para invadir telefones colocava em xeque o Estado de Direito e detalhou como o software espião que o Brasil queria comprar era, na prática, uma arma de ciberguerra voltada contra a sociedade civil.
Da intenção à prática: o FirstMile e a Abin Paralela
Se o Pegasus representou a tentativa de adquirir a ferramenta de elite da NSO, o FirstMile foi a concretização da espionagem estatal sob Bolsonaro. Fornecido pela Cognyte, o sistema de rastreamento operou dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sob a gestão de Alexandre Ramagem, monitorando ilegalmente a localização de milhares de alvos, incluindo autoridades da República e jornalistas.
A distinção técnica entre os softwares é clara, mas os interesses políticos convergem. A Polícia Federal investigou a fundo a estrutura clandestina e apontou que Carlos Bolsonaro seria o elo do clã com israelenses do software espião FirstMile. O avanço probatório do inquérito levou o ministro Alexandre de Moraes, do STF, a autorizar operações contundentes que culminaram no indiciamento de Carlos Bolsonaro e Alexandre Ramagem por supostos crimes na Abin paralela (ambos negam as irregularidades).
O retorno da NSO Group aos tribunais americanos pela ofensiva da Meta evidencia a urgência global da pauta. Seja com o Pegasus ou o FirstMile, a documentação histórica reforça que a introdução de spywares privados em estruturas de Estado, operando no escuro, sem controle judicial ou transparência pública , deixa de ser uma questão de segurança nacional para se converter em ferramenta de aparelhamento político e silenciamento democrático.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/meta-nso-pegasus-bolsonaro/

