Militares dos EUA teriam de ser resgatados pelo Bope em favela, diz especialista

Militares dos EUA em favela brasileira teriam de ser resgatados pelo Bope se uma eventual intervenção americana contra facções criminosas virasse realidade, afirmou o especialista em segurança pública Roberto Uchôa. A declaração foi feita após a decisão do governo de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.

Para Uchôa, a medida esbarra em uma realidade que Washington desconhece: o território brasileiro. Ao comentar a decisão, articulada pela extrema direita brasileira e celebrada por políticos como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o especialista usou a ironia para dar a dimensão do abismo entre os gabinetes americanos e as ruas do Rio de Janeiro.

Ao comentar a medida, articulada pela extrema direita brasileira e celebrada por políticos como o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Uchôa usou a ironia para dar a dimensão do abismo entre os gabinetes americanos e as ruas do Rio de Janeiro.

“Se os militares americanos entrarem no Complexo da Maré, teriam de ser resgatados pelo Bope”, cravou o especialista.

Assista: Se militares dos EUA entrassem no Alemão, teriam que ser resgatados pelo Bope, diz especialista

Oficializada pelo Departamento de Estado dos EUA, atualmente comandado por Marco Rubio, a designação entra em vigor no dia 5 de junho.

Militares dos EUA em favela e o fim da bravata americana

A força da fala de Uchôa está menos na ironia e mais no diagnóstico operacional e político. A tentativa de vender uma solução militar estrangeira para o problema das facções ignora a soberania nacional, a inteligência policial e a complexa experiência brasileira no enfrentamento ao crime organizado.

O exemplo de favelas cariocas como a Maré e o Alemão coloca a retórica de Trump no chão. Não se trata de negar a gravidade ou o poderio do PCC e do CV, mas de expor o delírio de imaginar que soldados americanos teriam capacidade real de operar em comunidades dominadas por dinâmicas locais tão singulares que até mesmo o Estado brasileiro enfrenta dificuldades para acessar sem pesado planejamento e articulação.

A imagem de militares dos EUA em favela também resume o problema político da medida: a segurança pública brasileira não cabe em decreto estrangeiro, nem pode ser tratada como palco para bravata eleitoral. O que Uchôa expõe é o limite concreto da retórica de força usada por Trump e seus aliados no Brasil.

Espetáculo político vs. Inteligência financeira

Uchôa também desmonta a narrativa de que o governo estaria inerte diante das facções. O especialista destaca que há um trabalho robusto e silencioso em curso no Brasil, focado onde o crime realmente sente: no bolso.

O enfrentamento real, que fica de fora do espetáculo promovido por Trump e seus aliados no Brasil, concentra-se em:

  • Asfixia financeira: Bloqueio de bens e contas ligadas à lavagem de dinheiro;
  • Rastreamento de arsenal: Monitoramento da rota de armas de grosso calibre;
  • Desarticulação estrutural: Foco nas conexões políticas e logísticas que sustentam as cúpulas das facções, não apenas no confronto de rua.

Essa é a fronteira que separa a política pública de Estado da bravata eleitoral usada como munição no debate público.

Soberania e sistema financeiro na mira

A classificação do PCC e do CV como terroristas abre, na verdade, uma perigosa frente de tensão diplomática. A medida desloca o debate da cooperação policial para o terreno da ingerência internacional.

Na prática, a canetada de Washington cria um instrumento que permite aos Estados Unidos aplicar sanções e pressionar autoridades, bancos, empresas e estruturas do Estado brasileiro sob o pretexto elástico da “guerra ao terror”. É este risco de tutela externa que vem sendo aprofundado na cobertura da Revista Fórum sobre a ofensiva contra a soberania do Brasil.

A frase de Uchôa, portanto, serve como um lembrete cirúrgico: Washington pode fabricar decretos para consumo da extrema direita, mas definitivamente não conhece o chão que ameaça pisar.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/militares-eua-resgatados-bope-favela/