Por que estão dizendo que Flávio Bolsonaro vai acabar com o Pix?

A tese de que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) poderia acabar com o Pix se chegasse à Presidência furou a bolha digital e tomou o centro do debate político nesta quinta-feira (2). A pressão escalou quando a hashtag “O PIX É DO BRASIL” dominou as redes sociais, impulsionada por parlamentares governistas que decidiram expor o silêncio do senador diante dos novos ataques de Donald Trump ao sistema de pagamentos. Essa cobrança, no entanto, não é fruto de um surto passageiro na internet. Ela se apoia em uma base sólida: documentos oficiais dos Estados Unidos, o lobby de Eduardo Bolsonaro em Washington e a máquina de fake news operada pelo próprio bolsonarismo.

Até o momento, não há projeto de lei, programa de governo ou declaração pública de Flávio Bolsonaro defendendo explicitamente o fim do Pix. O que existe é um conjunto de fatos políticos e documentais que fez a tese ganhar força e se tornar eleitoralmente relevante.

Ataque dos EUA ao Pix entrou em documento oficial

A nova ofensiva se sustenta, primeiro, no fato de que o Pix passou a ser alvo formal dos Estados Unidos. Em julho de 2025, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA, o USTR, abriu uma investigação contra o Brasil com base na Seção 301. Entre os temas listados pelo órgão estão “comércio digital e serviços de pagamento eletrônico”.

O governo brasileiro respondeu oficialmente. Em nota do Itamaraty com os comentários escritos do Brasil ao USTR, o Ministério das Relações Exteriores afirmou de forma expressa que a investigação americana abrange “comércio digital, incluindo o Pix”.

O caso avançou. Na página oficial da investigação, o USTR publica a trilha do processo e a audiência pública sobre o caso brasileiro. O material mostra que representantes empresariais dos EUA atacaram diretamente o Pix e questionaram o fato de o Banco Central atuar ao mesmo tempo como regulador e operador do sistema.

O tema voltou com força agora porque o relatório anual de barreiras comerciais de 2026 do USTR, disponível neste documento oficial, retomou o Pix como alvo de reclamações. A peça afirma que o Banco Central “criou, possui, opera e regula” o sistema. Foi esse novo movimento que reacendeu a disputa política no Brasil.

A Revista Fórum mostrou que a ofensiva de Trump contra o Pix voltou ao centro da tensão comercial entre os dois países. Em outra reportagem, a Fórum também detalhou o conteúdo da investigação aberta pelos EUA e a forma como o sistema brasileiro passou a ser tratado como obstáculo por interesses americanos.

Eduardo Bolsonaro é o elo entre Washington e a crise do Pix

A tese contra Flávio cresce porque o ataque ao Pix não ocorre em terreno neutro. Ele coincide com a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Em agosto de 2025, segundo reportagem da Reuters, Eduardo afirmou em Washington que esperava mais sanções dos EUA contra o Brasil e admitiu até a possibilidade de novas tarifas como forma de pressão política. Esse dado se tornou central porque, naquele momento, a investigação do USTR já estava aberta e o Pix já fazia parte do pacote de queixas americanas.

A Fórum registrou a ida de Eduardo Bolsonaro à Casa Branca para defender novas sanções dos EUA ao Brasil. Depois, o site também mostrou que Eduardo e Paulo Figueiredo voltaram a Washington em meio ao avanço das crises políticas e judiciais envolvendo o bolsonarismo.

Esse é o elo mais forte da linha de cobrança contra Flávio. O raciocínio dos adversários é direto: se um dos principais integrantes do clã Bolsonaro atuou politicamente em Washington por mais pressão contra o Brasil, e se essa pressão passou a atingir formalmente o Pix, então a ameaça ao sistema deixou de ser mera especulação eleitoral.

Fake news tentaram corroer a confiança pública no Pix

A tentativa de desgaste do Pix também foi construída no front interno. Em janeiro de 2025, a atualização de regras da Receita Federal sobre envio de dados financeiros provocou uma onda de fake news sobre suposta taxação do Pix. O governo revogou a medida após a reação política e a disseminação de boatos sobre tributação do sistema.

A Secom afirmou oficialmente que as novas regras não criavam tributos. A Receita Federal publicou alertas sobre o golpe da cobrança de taxa sobre Pix e voltou a repetir, em janeiro de 2026, que não existe tributação de Pix.

Em 14 de janeiro de 2026, a Agência Brasil informou que fake news sobre taxação e monitoramento do Pix voltaram a ganhar força após novo vídeo de Nikolas Ferreira. A reportagem registra que, segundo a Receita, esse tipo de conteúdo busca gerar pânico financeiro e enfraquecer a confiança em um dos principais meios de pagamento do país.

A Fórum mostrou, ainda em janeiro de 2025, que Nikolas Ferreira surfou a onda de fake news ao insinuar que o governo Lula taxaria o Pix. Mais tarde, o site voltou ao tema ao relatar que Nikolas retomou a desinformação sobre o sistema e que a nova ofensiva digital reacendeu o pânico em torno do mecanismo.

Em outra frente, a Fórum publicou que a fake news sobre o Pix teve financiamento de fintechs. A trilha reforça a leitura de que o bolsonarismo tratou o Pix como arma de mobilização política, e não como política pública a ser preservada.

Flávio herda a conta política do bolsonarismo

Flávio aparece hoje como herdeiro eleitoral desse mesmo campo. Segundo reportagem da Reuters publicada em 1º de abril, ele mantém a pré-campanha presidencial com poucos detalhes concretos sobre o programa econômico, enquanto aposta em articulações externas e na base política do pai. Nesse contexto, o silêncio do senador diante da nova ofensiva americana contra o Pix passou a ser tratado como parte do problema.

A reação política foi imediata. A Fórum mostrou nesta quinta-feira (2) que o novo ataque do governo Trump ao Pix expôs o silêncio de Flávio Bolsonaro. Foi nesse ambiente que a cobrança das redes sociais e da base do governo ganhou tração.

Por que a tese ganhou força

A tese de que Flávio Bolsonaro poderia acabar com o Pix se apoia em quatro pilares principais:

  • Ataque oficial dos EUA: O sistema brasileiro foi colocado no centro de investigações, audiências e relatórios do USTR;
  • Lobby bolsonarista: A atuação de Eduardo Bolsonaro em Washington no mesmo período em que essa ofensiva avançava;
  • Máquina de desinformação: Nomes como Nikolas Ferreira ajudaram a corroer a confiança pública no Pix por meio de fake news e pânico moral;
  • Omissão estratégica: Flávio não apresentou até agora uma defesa pública contundente do sistema diante da pressão estrangeira.

É isso que transforma a tese em algo mais robusto do que uma palavra de ordem de rede social. O ataque ao Pix existe. A conexão política entre esse ataque e o núcleo bolsonarista existe. O histórico de desinformação sobre o sistema existe. E o silêncio de Flávio também existe.

O que ainda não existe, e isso precisa ser dito com clareza, é a prova final de intenção declarada por Flávio Bolsonaro. Até aqui, não há fala, documento, projeto ou programa em que ele proponha extinguir, privatizar ou desmontar o Pix.

A cobrança sobre Flávio entrou de vez na campanha

A questão central, portanto, não é se Flávio já anunciou o fim do Pix. Não anunciou. A questão é outra: por que o núcleo bolsonarista reuniu tantos elementos para que essa tese se tornasse crível. Os Estados Unidos colocaram o Pix na mira. Eduardo Bolsonaro atuou politicamente junto ao campo que lidera essa ofensiva. Nikolas e outros nomes do bolsonarismo ajudaram a desgastar a confiança pública no sistema com fake news. E Flávio, hoje principal herdeiro eleitoral desse grupo, permaneceu em silêncio quando o meio de pagamento mais popular do país passou a ser atacado por Washington.

É por isso que adversários passaram a dizer que Flávio Bolsonaro acabaria com o Pix se fosse eleito. A frase ainda não é prova de plano de governo. Mas já se apoia em uma base factual e política robusta demais para ser tratada como mera invenção de campanha.

A partir de agora, a cobrança deixa de recair apenas sobre o entorno de Flávio. Ela passa a atingir diretamente o senador. O debate já não é mais sobre o que Eduardo, Nikolas ou outros aliados fizeram com o Pix. O debate é se Flávio Bolsonaro está disposto a defender o sistema mais popular do país quando ele vira alvo explícito de Donald Trump e dos interesses americanos.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/por-que-estao-dizendo-flavio-bolsonaro-vai-acabar-com-pix/