Crise no Rio: Ricardo Couto exonera 1,6 mil apadrinhados e deputados ameaçam expor “amantes” de desembargadores

O governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto de Castro, elevou a crise institucional fluminense a um ponto de ruptura nesta semana. O Executivo estadual atingiu a marca de aproximadamente 1,6 mil exonerações de cargos comissionados, desidratando de forma drástica a base de sustentação política do ex-governador Cláudio Castro (PL). Em retaliação à perda de controle da máquina, deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) ameaçam divulgar uma suposta lista de mulheres ligadas a desembargadores que receberiam salários da Casa sem trabalhar.

A ofensiva de bastidor expõe uma guerra aberta entre os poderes Legislativo e Judiciário no estado. A informação sobre a ameaça foi revelada pelo jornalista Octavio Guedes, no blog do G1. Até o momento, a suposta lista não foi apresentada e não há documentos públicos que comprovem a identidade das funcionárias. O movimento é tratado estritamente como chantagem política para tentar frear o avanço do Palácio Guanabara sobre os indicados políticos.

O pente-fino e o filtro do GSI nas nomeações

Ricardo Couto, que é desembargador e presidente licenciado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), assumiu o governo de forma interina após o colapso da linha sucessória estadual. Seu alvo principal tem sido as estruturas controladas pelo antigo governo. O número de cortes já soma 1.568 servidores dispensados via Diário Oficial, aos quais se juntou uma nova leva de 94 exonerações assinadas pelo secretário da Casa Civil, Flávio Willeman.

A crise se aprofundou após o governo estadual criar uma nova barreira administrativa para estancar o loteamento político. A Resolução SECC nº 188, publicada em 4 de maio de 2026, determina que todas as novas nomeações para cargos em comissão e funções gratificadas passem obrigatoriamente por análise de integridade do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

A medida impede a recomposição automática de indicados nas secretarias e autarquias de primeiro e segundo escalões. O pente-fino atinge, sobretudo, os chamados funcionários fantasmas: servidores lotados em áreas estratégicas como Inea e Rioprevidência, mas sem função comprovada, sem crachá institucional e sem registro de acesso aos sistemas eletrônicos.

Renúncia de Castro, Ceperj e a ação do MP Eleitoral

O acirramento da disputa por cargos é uma consequência direta do vácuo de poder deixado pelas recentes decisões judiciais em Brasília. Em 23 de março, Cláudio Castro renunciou ao governo às vésperas de ser julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A manobra não impediu sua condenação à inelegibilidade até 2030 por abuso de poder político e econômico, com base nos escândalos das folhas de pagamento secretas envolvendo a Fundação Ceperj e projetos da Uerj nas eleições de 2022.

Para evitar que a renúncia de última hora seja utilizada como blindagem jurídica no futuro, o Ministério Público Eleitoral (MPE) decidiu apertar o cerco. O procurador eleitoral Alexandre Espinosa acionou o TSE exigindo esclarecimentos e pedindo que a cassação do diploma do ex-governador fique expressa de forma inequívoca na decisão da Corte.

Efeito dominó na Alerj e o bloqueio no STF

O núcleo duro do antigo governo sofreu um revés duplo. A condenação no TSE atingiu também o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. A cassação de seu diploma obrigou o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) a recontar os votos e revisar toda a composição da Assembleia Legislativa, enfraquecendo ainda mais o poder de articulação da base conservadora.

Em uma tentativa desesperada de retomar o controle do Diário Oficial, o novo presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF). O parlamentar pediu à Corte para assumir o governo interino, alegando estar na linha sucessória estadual.

A investida foi imediatamente barrada. O ministro Cristiano Zanin rejeitou o pedido e manteve Ricardo Couto no comando do Executivo fluminense até que se defina o rito para a escolha do mandato-tampão. Encurralados pelo STF, pelo TSE e agora pelo desmonte promovido pelo Palácio Guanabara, os deputados da Alerj passaram a utilizar o vazamento de informações de bastidor como última cartada para pressionar o Judiciário e tentar conter a sangria na máquina pública.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ricardo-couto-exoneracoes-alerj/