O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na terça-feira (21) uma tarifa de 100% sobre todos os medicamentos genéricos importados, com vigência a partir de agosto de 2028 e escalada para 200% em agosto de 2029. O anúncio foi feito por meio de publicação na rede social Truth Social e integra a estratégia da Casa Branca de pressionar farmacêuticas a transferirem sua produção para o território americano. A medida estabelece um período de transição com tarifa zero antes da entrada em vigor das alíquotas punitivas, mas levanta preocupações imediatas sobre o encarecimento de remédios que respondem pela esmagadora maioria das prescrições médicas nos EUA.
Trump anuncia tarifa de 100% sobre genéricos
O anúncio foi direto e sem mediação institucional: Trump publicou na Truth Social que, a partir de 1º de agosto de 2026, todos os medicamentos genéricos importados para os Estados Unidos terão tarifa zero por dois anos. Encerrado esse período, a alíquota sobe para 100% durante um ano e, a partir de agosto de 2029, passa a 200%. A escolha das redes sociais como canal de divulgação de uma política com impacto direto sobre cadeias globais de suprimento farmacêutico não é acidental: é a forma que Trump consolidou para anunciar medidas de alto impacto sem o filtro do processo regulatório convencional.
A proposta não mexe nas regras já estabelecidas para medicamentos patenteados, de marca ou inovadores. Em abril, o governo americano havia apresentado um plano específico para esse segmento, que permanece inalterado segundo o próprio Trump. Para os patenteados, empresas que se comprometessem a ampliar a produção em solo americano teriam seus produtos importados taxados em 20%, com possibilidade de redução a zero mediante acordos classificados como de “nação mais favorecida”, benefício válido até 20 de janeiro de 2029. O novo anúncio, portanto, fecha o cerco sobre o segmento de genéricos, que até então não tinha um cronograma tarifário definido.
O objetivo declarado: ‘Repatriar’ a produção
“Isso está sendo feito para repatriar a produção de medicamentos genéricos para os Estados Unidos, penalizando as empresas que decidirem não construir fábricas e instalar equipamentos no país dentro do prazo estabelecido para isso”, escreveu Trump na publicação. A lógica declarada é simples: quem não investir em produção local dentro do período de transição pagará o preço na forma de tarifas proibitivas. O governo apresenta a medida como proteção ao “povo dos Estados Unidos”, mas o mecanismo concreto é o de punição comercial a quem não se adequar às exigências de relocalização industrial.
A política se encaixa num conjunto mais amplo de pressões que Trump vem exercendo sobre o setor farmacêutico desde seu retorno à Casa Branca. Em abril, assinou uma ordem executiva impondo tarifas de 100% sobre medicamentos de marca importados, a menos que os fabricantes concordassem com acordos de preços ou se comprometessem a produzir nos EUA. Paralelamente, o governo tem pressionado as farmacêuticas por meio do princípio da “nação mais favorecida” (most-favored-nation), que busca equiparar os preços pagos pelos consumidores americanos aos praticados em outros países de alta renda. A combinação das duas frentes, preços e produção, revela uma estratégia de coerção sobre a indústria global, com os genéricos agora no centro do alvo.
Impacto potencial e contexto do mercado farmacêutico
Os números da FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) expõem a dimensão do que está em jogo: mais de 90% dos medicamentos vendidos nos Estados Unidos são genéricos, e cerca de 70% desses genéricos são provenientes de importações. Isso significa que a tarifa anunciada por Trump incide sobre a base de sustentação do acesso a remédios no país, o segmento que torna o tratamento financeiramente viável para a maior parte da população, especialmente para quem depende de planos de saúde públicos ou tem renda mais baixa. Encarecê-los não é uma consequência lateral da política: é o mecanismo pelo qual ela pretende funcionar.
A complexidade da cadeia de suprimentos farmacêuticos já ficou evidente quando o governo americano divulgou as exceções ao “tarifaço” de 25% aplicado a produtos brasileiros. Determinados medicamentos e ingredientes farmacêuticos brasileiros foram isentos da cobrança adicional por critérios estratégicos: risco de desabastecimento no mercado americano, impossibilidade de produção local em volume suficiente ou a preços viáveis e ausência de impacto sobre práticas comerciais consideradas passíveis de sanção. A lógica das isenções contradiz, na prática, a narrativa de que os EUA podem simplesmente substituir importações por produção doméstica dentro de um prazo de dois anos.
Especialistas avaliam que a medida pode acelerar decisões de investimento de empresas que pretendem manter acesso ao mercado norte-americano, mas a capacidade de replicar em solo americano, em escala e custo compatíveis, a produção hoje distribuída globalmente é uma questão em aberto que o anúncio de Trump não responde.
“Isso está sendo feito para repatriar a produção de medicamentos genéricos para os Estados Unidos, penalizando as empresas que decidirem não construir fábricas e instalar equipamentos no país dentro do prazo estabelecido para isso.” — Donald Trump, em publicação na Truth Social
O que o discurso de “soberania industrial” omite é o custo imediato para quem não tem poder de esperar pelo reequilíbrio das cadeias produtivas: populações de baixa renda nos EUA e nos países exportadores que dependem do mercado americano como destino de sua produção farmacêutica. A tarifa não pune apenas as multinacionais que não construírem fábricas. Ela pune, antes, quem compra remédio na farmácia.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/trump-medicamentos-genericos/

