“O Brasil Não Se Entrega”: PT reage ao tarifaço de Trump e expõe ofensiva dos Bolsonaro contra o Pix

O Partido dos Trabalhadores (PT) lançou nesta quarta-feira (22) a campanha nacional “O Brasil Não Se Entrega”, uma mobilização em defesa da soberania nacional e contra o tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump aos produtos brasileiros.

A campanha começa justamente no dia em que entra em vigor a cobrança adicional de 25% sobre uma extensa lista de mercadorias brasileiras exportadas aos Estados Unidos. A medida foi oficializada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, e passou a valer à 0h01 desta quarta-feira no horário da Costa Leste norte-americana, 1h01 em Brasília.

Com conteúdos nas redes sociais, vídeos, peças gráficas e ações de mobilização, o PT pretende mostrar como a disputa em torno da soberania está diretamente relacionada à vida cotidiana da população. Entre os principais eixos estão a defesa dos empregos, da indústria nacional, do Pix, das empresas brasileiras e das riquezas minerais estratégicas do país.

“O Brasil é dono do seu próprio destino e não aceita que ninguém decida seu futuro em seu lugar”, afirma o partido no lançamento da campanha.

Tarifaço coloca Pix e decisões brasileiras na mira dos EUA

O novo tarifaço é resultado de uma investigação conduzida pelo USTR com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. Washington acusa o Brasil de adotar práticas consideradas prejudiciais às empresas norte-americanas em áreas como comércio digital, pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, etanol, tarifas preferenciais, políticas ambientais e combate à corrupção.

Um dos principais alvos é o Pix, sistema de pagamentos instantâneos administrado pelo Banco Central e utilizado diariamente por milhões de brasileiros. Para o governo Trump, a expansão do sistema teria reduzido o espaço de empresas norte-americanas de cartões e pagamentos eletrônicos no mercado brasileiro.

O governo Lula rejeita as acusações e sustenta que apresentou dados e argumentos durante as negociações para demonstrar que as alegações dos Estados Unidos não tinham fundamento. O Brasil também ressalta que os norte-americanos mantiveram durante anos um saldo comercial favorável nas relações entre os dois países.

Diante da imposição das tarifas, o governo anunciou que recorrerá aos mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Comercial e à Organização Mundial do Comércio, a OMC. A posição brasileira é manter o diálogo, mas sem aceitar que decisões internas, sistemas públicos ou políticas estratégicas sejam submetidos aos interesses de outro país.

Bolsonaro e a pressão de Washington contra o Brasil

Para o governo e o PT, a ofensiva comercial norte-americana não pode ser separada da atuação política da família Bolsonaro nos Estados Unidos.

A escalada começou ainda em 2025, quando Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% contra produtos brasileiros e citou expressamente o processo judicial contra Jair Bolsonaro como uma das justificativas. O presidente norte-americano classificou o julgamento do ex-presidente como uma “caça às bruxas”, transformando uma questão interna da Justiça brasileira em argumento para pressionar comercialmente o país.

Eduardo Bolsonaro passou a atuar nos Estados Unidos em busca de apoio do governo Trump contra autoridades brasileiras e em favor do pai. Em junho de 2026, o ex-deputado foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por sua participação nas articulações para obter interferência estrangeira no processo envolvendo Jair Bolsonaro.

O PT afirma que essa movimentação colocou interesses políticos e familiares acima dos empregos, da economia e das empresas brasileiras. A bancada do partido na Câmara responsabilizou diretamente o clã pelo ambiente que resultou no novo tarifaço: “A família Bolsonaro é responsável pelo tarifaço contra o Brasil”.

Flávio Bolsonaro ofereceu limitar alcance do Pix

A atuação mais recente ocorreu por meio de Flávio Bolsonaro. No início de julho, o senador enviou ao USTR um documento de 86 páginas no qual se apresentou como pré-candidato à presidência e pediu o adiamento das tarifas norte-americanas.

No documento, Flávio também propôs impedir que o Pix fosse integrado a redes internacionais de pagamento consideradas “não ocidentais”. A proposta foi apresentada como forma de reduzir as preocupações dos Estados Unidos com a possível utilização do sistema brasileiro em transações internacionais sem a intermediação de empresas tradicionais de cartões ou do dólar.

O senador alegou ainda que o tarifaço poderia fortalecer eleitoralmente Lula. Para o presidente, no entanto, a proposta representou uma tentativa de submeter uma conquista brasileira aos interesses de Washington.

“É inaceitável que a família Bolsonaro, com o seu entreguismo, queira submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos”, afirmou Lula ao reagir ao documento.

“Nossa Pátria não está à venda. Nossa soberania é inegociável. O Brasil é dos brasileiros”, acrescentou.

“Ninguém vai mudar o nosso Pix”, diz Lula

Após a confirmação da nova tarifa, Lula voltou a defender publicamente o sistema de pagamentos brasileiro e estabeleceu um limite para qualquer negociação com os Estados Unidos.

“Nossa soberania não se negocia. Ninguém vai mudar o nosso Pix”, escreveu o presidente.

A publicação divulgada por Lula reforçou que o sistema “é público, é de graça e vai continuar assim”. O presidente já havia afirmado anteriormente que o Pix é uma conquista do Brasil e que o país não abriria mão dele diante das pressões externas.

O discurso de Lula passou a colocar a soberania no centro da resposta brasileira. O governo afirma que está disposto a negociar questões comerciais de igual para igual, mas não aceitará interferência sobre o Pix, as decisões regulatórias brasileiras, os recursos naturais ou as políticas de desenvolvimento nacional.

Campanha defenderá empregos e riquezas estratégicas

Além do Pix, a campanha “O Brasil Não Se Entrega” destacará os efeitos das tarifas sobre a indústria, o comércio e os trabalhadores. Segundo o PT, proteger as empresas brasileiras e os setores atingidos significa preservar empregos e garantir oportunidades para quem produz no país.

Outro eixo será a defesa das terras raras e dos minerais estratégicos brasileiros, recursos fundamentais para a produção de equipamentos eletrônicos, tecnologias de energia limpa, baterias, veículos elétricos e componentes de alta tecnologia.

O partido defende que essas riquezas sejam utilizadas para impulsionar a indústria nacional, a inovação, a geração de empregos e o desenvolvimento econômico do Brasil, e não simplesmente entregues a interesses estrangeiros.

Nas próximas semanas, a campanha será difundida pelas plataformas digitais do PT e pela rede de Porta-Vozes do Lula. A estratégia será explicar de maneira direta como a defesa da soberania está relacionada ao emprego, à renda, à gratuidade do Pix, à proteção da indústria e ao controle brasileiro sobre seus recursos naturais.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/pt-campanha-tarifaco-trump-soberania/