Seria preciso dizer muito e, no entanto, vou ser breve para ficar de acordo com o meu poeta. José Paulo Paes era um homem da brevidade. Certamente para ele se podia aplicar o velho dístico de Baltasar Gracián, um teórico do barroco espanhol que dizia que “o bom, se breve, duas vezes bom; o mau, se breve, menos mau”. O que eu vou dizer tanto tem a ver com o universo da casa, da intimidade de José Paulo Paes, conforme o texto tão comovido de Fernando Paixão, como tem a ver com o homem público exposto pelo Rodrigo Naves, no sentido de que eu também vou falar na poesia como expressão de um homem qualquer que quer escrever poesia, que é um homem civilizado, que tem direito à palavra, e um pouco ainda na dimensão do que disse Izidoro Blikstein, de um homem das palavras, que joga com o verbo.
José Paulo Paes foi um dos homens de letras mais completos que nós tivemos no Brasil. Isso é notável, tratando-se de alguém com uma formação bastante informal. Mas se nós pensarmos na fisionomia de um homem de letras, do que pode ser um homem de letras entre nós, isto estava encarnado em José Paulo Paes no final de sua vida. Ele foi um cidadão digno que se dedicou às letras de corpo e alma, embora tenha feito tantas outras coisas pela vida. Como polígrafo que foi – ele se dedicou a todos os aspectos possíveis da escrita –, o poeta foi o central. A poesia constitui o espinhaço da obra. Isso nem sempre é claro, embora desde O aluno (1947), que foi seu primeiro livro de versos, até o final da vida, até o penúltimo poema (pois ele sempre dizia que ia escrever até o final da vida), ele fosse um poeta absolutamente constante, de produção contínua e, embora parca, muito trabalhada. Essa produção não aparecia de forma ostensiva, dada a presença atuante do tradutor, do ensaísta e às vezes até do conferencista. O poeta é central e, até certo ponto, meio secreto. Se eu quisesse ser breve e tentasse resumir essa poesia que ocupou toda uma existência, talvez pudesse dizer que José Paulo Paes nos deixou o irônico testemunho de seu mundo, de seu tempo e de si mesmo numa forma breve, que é a forma do epigrama e do chiste.
José Paulo começou, com O aluno, como um poeta da década de 40 já muito diferenciado da sua geração. Começou como um herdeiro do modernismo e desde o começo prenunciou um pouco o caminho que o levaria à casa e aos objetos pequenos do cotidiano. Essa exaltação e maravilhamento diante do cotidiano começaram de fato desde o início por um verso desinflado e que prestava atenção às pequenas coisas simples e corriqueiras da vida de todo dia – diferentemente da sua geração, a de 45, que era uma geração estetizante, altissonante, muito rilkiana, muito voltada para a poesia pura, Valéry, etc. Ele começou em tom menor e foi muito marcado pelos poetas do modernismo, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Oswald, de quem foi amigo e com quem aprenderia tanto da arte de condensar muito no mínimo. E Drummond. Sobretudo Drummond, cuja presença se nota até nos últimos poemas. Num dos mais belos poemas do final da vida, chamado “Momento”, escrito durante a argüição de uma tese na Faculdade de Letras da USP, está um “gosto inato da dissolução” que é drummondiano.
Provavelmente, esse poeta do seu tempo tomou o veio da poesia sobre o presente de Drummond. Vamos dizer que, no primeiro livro de 47, o poeta que surge é um poeta que fala muitas vozes; não fala ainda a sua. Grande parte do périplo do José Paulo vai ser o de transformar em sua essas vozes. Cada vez mais se afinando consigo mesmo, a poesia dele cresce à medida que o tempo passa. É uma poesia que envelheceu bem e que executou um longo aprendizado. Para descrever esta curva da forma breve, que quer dar conta do mundo e de si mesmo, a interioridade e o vasto mundo, ela foi cada vez mais se encontrando consigo mesma, foi a caminho de si mesma e descreveu por isso uma espécie de ideograma da existência.
A poesia pode falar de muitas coisas; ela fala sempre de si mesma, mas ela fala do mundo, das coisas altas e baixas. No José Paulo, ela foi cada vez mais se concentrando para fazer a história íntima de um homem, que é também a história do seu tempo, porque esse homem é um observador do mundo e das coisas a sua volta. A sua tarefa de poeta foi uma tarefa de aprendizagem e a obra descreve a poetização dessa progressiva experiência histórica e de si mesmo. É este o arco de seu percurso. Isto monta o quadro de um poeta que cada vez mais constrói uma mitologia pessoal e esta mitologia pessoal é feita de pequenas coisas, de pequenos poemas, de poeminhas discretos, poemetos, que vão se agregando quase na formação de um mosaico. E este mosaico final dá a cara de um homem e de um testemunho humano diante do mundo num determinado momento de sua história. A experiência íntima é histórica, a história está dentro do pequeno e o pequeno remete ao grande. Grande parte da arte do José Paulo foi escrever para pequenos e grandes – tanto para o seu público, as crianças e a gente grande, como internamente, ligando a pequenez às coisas grandes.
Como é ligar o pequeno ao grande? Ele descobriu um método, esse método se chama chiste – uma má palavra em português para traduzir o wit, dos ingleses, ou o Witz, dos alemães. Uma forma de graça aguda, de talho seco e exato. Por isso, ele retomou uma fórmula tradicional, a fórmula do epigrama, tão velho como a nossa cultura. O epigrama é um poema breve, que muda de tom, pode marcar o lugar de um acontecimento, ser épico, pode ter um tom lírico, elegíaco, pode ser dramático. É um poema breve em que os gêneros estão misturados, como eles estão em geral nas formas primitivas da poesia. O epigrama serviu aos latinos, a Marcial, a Juvenal, a Catulo, sendo um instrumento, na antigüidade clássica, para comentar o mundo em torno. Por isso, ele também foi um instrumento da sátira, do humor satírico. O epigrama foi uma forma breve de comentar os mores, os mores da cidade. Ele serviu a uma poesia da cidade, da civilidade, da urbanidade, de um homem civilizado. José Paulo Paes, no século XX, foi isto: um homem civilizado que voltou à velha fórmula do epigrama para comentar ironicamente o mundo em que lhe tocou viver e a intimidade da qual, de alguma forma, ele precisava falar para tocar nesse mundo.
É curiosamente o epigrama de um provinciano, que se formou em parte em Taquaritinga, em Araçatuba, no interior de São Paulo, e em parte em Curitiba, onde viveu, na década de 40, o período áureo de sua formação: no Café Belas Artes, na Livraria Ghignone, no contato com pequenos intelectuais de província, às vezes com grandes intelectuais de província, como Dalton Trevisan e Wilson Martins. Ele foi amigo de uma porção de gente. Esse homem recatado, por vezes duro e altivo, meio safado, como disse o Rodrigo Naves, era um grande fazedor de amigos; por isso, deixou a todos nós comovidos.
José Paulo era um homem emocionante e seco. Essa conjunção de forças se deu bem no epigrama e no chiste, porque o chiste, dizia Friedrich Schlegel, que foi um dos teóricos do romantismo, é “espírito químico”. Para o caso do José Paulo, bastava a gente entender que fosse o espírito de um químico. Um homem que bota as coisas em reação, que puxa as coisas desencontradas, coisas distantes e próximas. E é um provinciano. Na província, “todo abismo é navegável a barquinhos de papel”, dizia Guimarães Rosa, sobre o adultério na aldeia. Sempre se dá um jeitinho, se passa com um barquinho, embora as aldeias sejam “a alheia vigilância”.
José Paulo aprendeu essa safadeza de puxar o grande para o pequeno. “Eu também sou capaz de falar de coisas descomunais, do grande mundo”. E ele aprendeu o grande mundo no momento em que o grande mundo se impôs a todos, no momento em que cresceu a nossa consciência histórica de que o mundo era vasto e ao mesmo tempo menor, depois da Segunda Grande Guerra. Ele é um produto mental da província depois da Segunda Grande Guerra, quando, de repente, El mundo es ancho y ajeno, que foi um romance que ele leu e que fez sucesso no Brasil, escrito pelo peruano Ciro Alegría. Era um romance que falava que o mundo era alheio e amplo, grande. Esse olhar amplo é um pouco o olhar do aventureiro da literatura.
José Paulo se aventurou na literatura como um leitor e antologista, como quem gosta de ler gregos e baianos. Ele aprendeu grego moderno para ler seus poetas. Aprendeu muitas línguas. Estava aprendendo o dinamarquês para ler Jacobsen, que é um grande escritor dinamarquês, autor de Nils Lyhne, de alguns poemas em versos brancos que ele estava traduzindo. Quer dizer, era um homem da província que queria o mundo, que via e desejava.
Quem vê, deseja e busca a luz que está lá. Isto é também um pouco o caso do José Paulo, trancado na província ou na casa, ou na J.V. Guimarães, onde ele nasceu. Ele contou na pequena autobiografia Quem, eu?: “Não acredito que o futuro de quem quer que seja possa estar escrito com antecedência na configuração das linhas da mão ou dos astros do céu”. Mas acreditava que o fato de ter nascido numa livraria – nasceu num quarto da casa do avô, pegado à livraria J.V. Guimarães – teria influído nos rumos de sua vida. Parecia a determinação de um destino. Dentro do espaço restrito da casa, onde depois viveu, sobretudo no final, ele contempla o grande mundo, drummondianamente, pela vida afora. E constrói uma forma para isso.
Durante o período todo da década de 60 e 70, ele apurou a linguagem na brevidade, a linguagem do chiste e do epigrama. Se a gente ler os livros, Anatomias, de 67, depois Meia palavra e Resíduo, que foram escritos durante os anos da ditadura, a gente vê que ele está apurando a mão, que ele é um homem dotado poeticamente, mas que talvez, como Drummond percebeu no começo, ainda não tivesse encontrado de todo o objeto de si mesmo. Esse objeto vai se fazendo cada vez mais presente, curiosamente, conforme a morte se aproxima, quanto mais a experiência se adensa. A construção de poesia é então a procura de um conteúdo de experiência expressável. E aí surge um poeta que é um poeta poderoso em vários dos grandes momentos do final da carreira.
As Prosas seguidas de odes mínimas, que é um momento surpreendente, talvez o maior livro que ele tenha escrito, é um livro ao qual se segue A meu esmo, um livro feito com arte na Nôa-Nôa, de Florianópolis, cuja metade é de grandes poemas. Os poemas são sempre poucos. Grandes poetas não têm sempre grandes poemas. A poesia sempre é rara e difícil. O poeta arrisca a vida inteira e às vezes acerta a mão, às vezes erra, a maioria das vezes erra. O José Paulo conseguiu, no final, fazer alguns grandes poemas, deixou outros inéditos na Socráticas. Alguns deles, extraordinários. Ele estava com a mão apurada, tinha o que falar e de algum modo tinha concentrado tudo aquilo que viveu naquela forma breve em que trabalhou durante a vida toda. Por isto, a mitologia pessoal se combinou com um linguagem para dizê-la e a poesia aí então diz qual é o destino de um homem, para o que ele veio. A poesia é um instrumento de expressão do seu tempo e de si mesmo.
No final da vida, ele escreveu o poema “Momento”, que eu coloquei na nossa antologia [Melhores poemas – José Paulo Paes, publicada pela Global Editora]. Eu tive a sorte de que ele ainda visse a antologia pronta, porque demorei tanto que parecia que não ia terminar nunca. E ele estava doente, apressado, meio agonicamente posto diante da pressão do tempo, mas consegui terminar e foi uma alegria para nós que comemoramos com vinhos e vinhos – pois o José Paulo também era dado a um bom vinho. Nessa época, então, ele escreveu grandes poemas e escreveu alguns poemas que vão ficar para sempre na nossa memória, não apenas na dos amigos. São depoimentos desse homem comum que foi poeta e que contou a sua história de algum modo através da poesia. Um dos últimos poemas que ele escreveu se chama “Auto-epitáfio nº 2”, que é um dístico:
para quem pediu sempre tão pouco
o nada é positivamente um exagero
Assim pode se encerrar a vida de um poeta. Essa foi a vida do José Paulo Paes e é o que eu tinha para dizer.
Davi Arrigucci Jr. é ensaísta e professor de literatura na USP, autor de O escorpião encalacrado, Humildade, paixão e morte: A poesia de Manuel Bandeira (ambos pela Companhia das Letras) e O cacto e as ruínas (Livraria Duas Cidades), entre outros
Texto originalmente publicado na Cult 22. Maio de 1999
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/no-minimo-poeta/

