Vorcaro muda delação e cita propina a Ciro Nogueira e Cláudio Castro, mas PF ainda vê proposta como fraca

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, apresentou uma segunda proposta de delação premiada à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR), mudando sua versão sobre pagamentos ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e ao ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) para classificá-los como propina.

A nova proposta foi entregue na semana passada e está sob análise dos dois órgãos, mas investigadores avaliam que o material não traz avanços relevantes diante do volume de provas já obtido nos celulares apreendidos do banqueiro. A tendência na PF é rejeitar o acordo, o que colocaria Vorcaro de volta a um presídio após meses em cela especial na Superintendência da PF em Brasília.

A nova proposta de delação e a mudança de versão

Na primeira proposta de delação, rejeitada pela PF e pela PGR, Vorcaro descrevia os benefícios concedidos a Ciro Nogueira, como viagens e festas pagas pelo banqueiro, como expressão de uma “relação de amizade”, sem contrapartida. Na segunda versão, coordenada pelo advogado Sérgio Leonardo após cerca de 15 dias de trabalho, o banqueiro passou a narrar os mesmos repasses como propina em troca da apresentação da chamada “Emenda Master” no Congresso Nacional. A emenda, apresentada por Ciro Nogueira em 2024, propunha elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF em caso de quebra de instituição bancária. Ela não foi aprovada.

Em relação a Cláudio Castro, Vorcaro afirma, na nova proposta, ter pago propina em troca de aportes milionários da Cedae, estatal de saneamento do Rio de Janeiro, e do Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores públicos do estado, no Banco Master. A segunda proposta também incluiu detalhes sobre supostas irregularidades na captação de recursos de regimes de previdência municipais e estaduais para o banco. Vorcaro acrescentou ainda informações sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a vida de Jair Bolsonaro, embora não trate esses pagamentos como propina. Segundo apuração do Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu dinheiro a Vorcaro para a produção, e o banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões pela obra.

Reação da PF e PGR: proposta ainda é fraca

A PF e a PGR analisam o novo material, mas investigadores avaliam que ele não representa avanço relevante diante do volume de provas já extraído dos celulares de Vorcaro. Na avaliação de fontes ligadas ao caso, o banqueiro ainda não teria “virado a chave”: não reconheceu crimes em sua relação com políticos e autoridades de forma suficiente para justificar a concessão de benefícios de colaboração premiada. A proposta não traz novos fatos que permitam ampliar o escopo das investigações, segundo essa avaliação. A tendência na PF é rejeitar o acordo. A PGR ainda conclui sua análise.

A primeira proposta de delação já havia sido rejeitada pelos dois órgãos. A defesa de Vorcaro não recebeu comunicação formal sobre rejeição ou continuidade das tratativas, mas a expectativa é que PF e PGR se pronunciem ainda nesta semana. O prazo tem peso prático: a autorização para que Vorcaro tenha mais tempo de visitas de seus advogados na prisão vence na sexta-feira, o que torna a resposta urgente. Procurada, a defesa do banqueiro não se manifestou publicamente sobre a avaliação dos investigadores.

O contexto das acusações contra Ciro Nogueira e Cláudio Castro

A mudança de versão sobre Ciro Nogueira não surgiu de forma espontânea. Ela ocorreu depois que a PF deflagrou uma fase da Operação Compliance Zero que apontou suspeita de pagamento de mesada a uma empresa ligada ao parlamentar. Segundo apuração do G1 e do Estadão, esse valor seria de R$ 500 mil mensais, com contrapartida de benefícios ao Banco Master em propostas que tramitavam no Congresso Nacional. Aliados de Vorcaro indicam que a decisão de endurecer a versão tanto sobre Ciro Nogueira quanto sobre Cláudio Castro veio depois que a PF encontrou trocas de mensagens entre o banqueiro e os dois políticos no celular apreendido.

O padrão é revelador: Vorcaro não mudou sua narrativa por iniciativa própria, mas em resposta ao que a PF já havia descoberto. Ciro Nogueira negou ter apresentado projeto com o objetivo de beneficiar diretamente o Banco Master e negou irregularidades nos pagamentos. Cláudio Castro negou qualquer recebimento de propina e desafiou o banqueiro a provar as acusações. Procurado por meio de sua assessoria, Ciro Nogueira não havia se manifestado sobre a nova versão de Vorcaro até o fechamento desta reportagem.

Próximos passos e implicações da provável rejeição

Caso a PF recuse a proposta, deve pedir a transferência de Vorcaro de volta a um presídio. Desde março, o banqueiro permanece em cela especial na Superintendência da Polícia Federal em Brasília para preparar o acordo com seus advogados, condição que depende diretamente da continuidade das negociações. As idas e vindas da negociação desgastaram a relação entre a defesa e a PF e colocam em dúvida a permanência do banqueiro na superintendência.

A investigação, porém, avança independentemente da colaboração. A PF apreendeu mais de oito celulares de Vorcaro, e a perícia inicial de parte desses aparelhos já revelou que o esquema vai além das fraudes financeiras, envolvendo corrupção, organização criminosa e uso de milícia privada. Mesmo diante de uma eventual recusa da PF, a defesa de Vorcaro pode tentar fechar acordo diretamente com a PGR, que é o órgão responsável por apresentar as denúncias. A expectativa é de que a PGR encaminhe sua manifestação até sexta-feira ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/vorcaro-delacao-propina-ciro-nogueira/