Gerson fazia lançamentos de 40 metros, perfeitos. Pelé e Coutinho faziam tabelas mortais, por vezes duplas. Além dos 1283 gols, Pelé, como Zico, como Sócrates, como Didi, participou de inúmeras jogadas que resultaram em gols, tocando na bola ou abrindo espaços, sem bola, para seus companheiros. Sócrates criava espaços e pensamento tático pela bola no meio de campo, desmontando defesas duras com um passe de costas, de calcanhar. Bolas divididas e espirradas, que eram transformadas em dribles fantásticos por Pelé, também participam de jogadas de gol. Falcão certa vez fez um gol decisivo contra o Palmeiras, desde uma bola espirrada, em que seu pé bateu na bola e recuou rapidamente, como um chicote, para evitar o pé de Jorge Mendonça que vinha ao seu encontro. E também, noutro ano, o número 5 do Internacional tricampeão nacional, desmontou inteira a defesa do Atlético Mineiro com uma tabela feita pelo ar, de cabeça, de rês toques com Escurinho. Zidane começou a desmontar o Brasil de forma humilhante em 2006 “abrindo a chapelaria”, bem antes do passe de 30 metros da cobrança de falta no pé de Henry, quando o time inteiro da França se deslocou e iludiu a defesa brasileira e o atacante, sozinho, pegou no ar, de primeira, fuzilando Dida. O ótimo lateral brasileiro Roberto Carlos contribuiu muito com o gol, ao se concentrar mais na própria meia do que no atacante adversário, ficando parado, enquanto Henry aparecia no segundo pau, por traz da zaga brasileira, sem marcação.
No léxico real e sensível do futebol, articulando a notícia estética de seu mundo de tempo e espaço único na experiência cultural humana – só superado em grandeza e complexidade pelo tempo e espaço em escala geográfica da anticultura da guerra – temos passes, lançamentos, tabelas, sobras, levantadas, divididas, cruzamentos, contra-ataques, rebotes. Assim como os dribles podem ser curtos, cortes, elásticos, chapéus, carretilhas ou lambretas, meia luas, da vaca, passou por todo mundo, tirou dois zagueiros, limpadas, de chaleira, e outras artimanhas mais. Essa linguagem foi criada quando o futebol estava se apresentando a si mesmo e ao mundo, durante o século XX, e era cultivado nas ruas, na várzea, nos clubes e nos campeonatos locais, apresentando o repertório brasileiro ao mundo, sobre as metáforas gerais da arte (téchne) e da poesia (poiesis). O gol era construído, criado, por jogadas, amplas e complexas, que iam do pé do craque ao movimento do time, à forma singular do artilheiro; as jogadas eram movidas internamente por lances, nos quais ficávamos de olho, nos quais dribles, chapéus, dribles da vaca reinventados (Pelé, Romário), tabelas, fortes disputas pela bola, toques, lançamentos curtos ou longos eram a matéria viva do jogo. A qualidade única de cada processo de um gol era o que importava (“o gol contra a Inglaterra devia estar no museu de arte moderna” dizia a respeito Nelson Rodrigues em 1970), que se percebia e que se nomeava, nos máximos elementos constitutivos do lance, a sua pluralidade de objetos técnicos, do toque do pé na bola à estrutura tática do todo, coisas que fazem o futebol, sem as quais ele não existe.
Percebia-se o futebol no nível da sua expressão e invenção, do gesto e da técnica, como matéria rica movente e imanente do próprio gol. Entre o passe, o drible e o gol o jogo acontecia por inteiro. Como Tostão, por exemplo, desmontando três ou quatro marcadores ingleses na ponta esquerda, com dribles de corpo, cotoveladas, janelinhas no meio das pernas, cruzando quase caído, girando como uma espécie de anjo barroco, para o pé de Pelé, na marca do pênalti, que, de frente para o gol, atrai os dois últimos desolados defensores, terminando de desmontar a eficácia racional inglesa do time de Bob Moore, passando com a nonchalance de quem diz calmamente, no corpo, que tudo está resolvido, a grandeza dos maiores, para o furacão Jairzinho, livre, sem mais nenhum inglês pela frente, fuzilar Gordon Banks e fazer o gol.
Transformar esse espetáculo de saberes futebolísticos, em todos os níveis do corpo, que envolveu três grandes jogadores juntos e sincronizados – nos diferentes modos de ser do craque para fazer o gol dito “do museu de arte moderna” de Nelson Rodrigues – em uma assistência de Pelé e um gol de Jairzinho, não apenas apaga a força da visão e dos saberes futebolísticos de todos os tempos, mas é um ato de colonização de lógicas discutíveis, no limite e diante das amplas possibilidades do jogo, de reducionismo bárbaro a uma nova monocultura.
A assistência é uma noção esportiva advinda do basquete, um jogo em que ataque e defesa se contabilizam diretamente como pontos, feitos ou perdidos – como acontece no vôlei, o mais estrito dos jogos em que jogada e ponto são imediatamente correspondentes. Como se sabe bem, o futebol não funciona assim. Não há 98 gols em futebol, nem 21. O gol é um evento raro no próprio jogo, um acontecimento, de modo que não é incomum no futebol um monótono e algo triste zero a zero – para desespero e desprezo dos excitados espectadores norte-americanos. Nada mais distante das possibilidades vitais do futebol, que implicam a famosa grande graça de que nem sempre o melhor vence, do que a lógica fundamental do basquete, de que não se pode desperdiçar ataques sem cestas.
São razões esportivas de outra ordem que distinguem os dois esportes. O futebol, além do espetáculo plástico das dimensões do maior tempo e espaço de um jogo, como o descreveu teatralmente Décio de Almeida Prado, também é metáfora concreta de coisas da vida, na medida mesma em que excitações intensas, conquistas e realizações de desejo se dão, em geral, em fundos de continuidade neutros, rotineiros ou trabalhosos, que antecedem no tempo vivido o valor das satisfações. Para que possa existir, há uma anulação, pela rotina e pelo trabalho, do princípio do prazer, enquadrando e projetando a realização do desejo no tempo, desta forma mediando a graça da vida. Por isso, muito tempo se passa em um jogo de futebol em que nada, e tudo, estão acontecendo, menos o ponto, o gol. É neste tempo, de potencial e esperança, que a fé da torcida se exercita, como parte constitutiva do próprio jogo, dando lugar e modulando o velho pensamento mágico humano.
Por isso, no basquete se fazem assistências e cestas, pontos sequenciais e constantes. O nome do “lance” é abstrato, e tende desde o princípio à contabilidade: a assistência. Já no futebol, acontecem jogadas, surpreendentes, plásticas, mágicas e únicas. “E de repente ele chegou (…) tabelou, driblou dois zagueiros, deu um toque, tirou o goleiro… só não entrou com bola e tudo porque teve humildade…” explica bem o artista a natureza incomum do fenômeno gol, do corpo bola do craque, técnica e estética como forma única de sentido. A unicidade dos gols, por assim dizer – como a unicidade dos craques, os homens gols – é uma das características mais própria do mundo do futebol. No vôlei, por exemplo, não há caráter especial na repetição contínua dos pontos baseados no mesmo repertório técnico, a não ser o último, aquele que encerra o jogo e a repetição. No futebol, ao contrário, cada gol tende ao irreprodutivel, acontece como um pequeno milagre intramundano. O futebol mantém vivo o caráter aurático do seu acontecimento, agonístico. O gol faz com que tudo o que existe nele, o drible, o passe e o lançamento, o modo de correr e de dominar a bola, a disputa de bola, a disposição do time no jogo, se torne de certo modo também único, incorporando a espécie e a categoria ao modo. É um mundo em que o coletivo e o indivíduo trabalham para que surge a marca singular no tempo.
Por isso a linguagem estrangeira da assistência, tomada em si mesma, pode ser uma grosseria no entendimento do futebol. Ela sublima mal o concreto e o estético, o fato iluminado, uno e aberto de sentidos, que necessita antes ser descrito. Ela olha para jogo, desde o gol e sua periferia, como abstração, como algo a ser contabilizado e sem forma. Ela nos faz dizer que Messi deu x assistências e Olise x-y assistências, o que é força dos números contra a vida sensível do jogo. E não diz nada sobre as jogadas de Messi e de Olise, suas funções para seus times, sua beleza, sua fineza e sua inteligência, a natureza de seus passes, enfim, não dizendo muito sobre quem são estes jogadores no quadro da história viva do futebol. A chamada assistência, noção comprometida com contabilizar o esporte por princípio, em nenhum jogo de futebol é função de um único jogador. O que importa, de fato, para quem ama o futebol são os times, os lances, os craques, as contingências e os gols, que são formas e acontecimentos singulares. Um último, preciso e belo, passe para um gol, na dança de todo um jogo, é um passe para um gol, belo e preciso. Não uma mera assistência. Por isso, se pode até pensar o futebol como correlato à arte, e não como mera produção.
Homens que calculam, que tiram conceitos de um esporte em que a quantidade do crescimento constante dos pontos é o que importa, não descrevem uma partida, uma jogada, um lance e um gol. Eles vão reclamar que um jogador, de forma absolutamente ética e lisa, dê um chapéu ou um drible humilhante em seu adversário, o que é do jogo, festejados pela torcida como pródromo imaginário de um gol. Aqueles homens vão transformar a maravilha do acontecimento improvável que é todo gol, o que ele implica de esperança, vida e abertura dos sentidos ao nunca antes visto, em uma assistência e um gol.
Tales Ab’Sáber é psicanalista e ensaísta, doutor em Psicologia Clínica pela USP e professor da Unifesp. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
(function(d, s, id) {
var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];
if (d.getElementById(id)) return;
js = d.createElement(s); js.id = id;
js.src = “//connect.facebook.net/pt_BR/sdk.js#xfbml=1&version=v2.7&appId=1200972863333578”;
fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);
}(document, ‘script’, ‘facebook-jssdk’));
Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/contra-a-assistencia-em-futebol/

