Depois da chuva: drama conjugal expõe  violência silenciosa e hipocrisia das relações

 

Existem casamentos que parecem resistir ao tempo justamente porque seus conflitos nunca são enfrentados. É sobre essa aparente estabilidade, sustentada pelo silêncio e pela distância emocional, que se constrói Depois da chuva, drama psicológico escrito pelo filósofo Marco Casanova [leia a seguir entrevista exclusiva com o autor]. Em cartaz no Ágora Teatro, em São Paulo, até 22 de novembro, o espetáculo reúne Tatiana De Marca e Clóvis Gonçalves em uma história que explora a violência velada, a hipocrisia burguesa e as contradições das relações afetivas.

A trama acompanha Lígia e Alberto, um casal que se prepara para ir a um casamento, mas é impedido de sair de casa por uma forte tempestade. O confinamento involuntário transforma uma noite aparentemente banal em um confronto inevitável. À medida que a conversa avança, ressentimentos antigos, desejos reprimidos e frustrações acumuladas vêm à tona, revelando as fissuras de uma relação que parecia funcionar apenas porque seus protagonistas haviam aprendido a evitar um ao outro.

O estopim do conflito é uma frase ouvida por Lígia durante um encontro casual na rua. A partir desse episódio, a personagem passa a questionar não apenas seu casamento, mas também as escolhas, concessões e silêncios que moldaram sua própria existência.

Professor titular de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Casanova faz sua primeira incursão na dramaturgia depois de uma extensa trajetória acadêmica e literária. Autor de obras dedicadas a pensadores como Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger, ele transporta para o teatro algumas das inquietações filosóficas que atravessam sua produção intelectual, especialmente aquelas relacionadas à existência, à temporalidade e às possibilidades de transformação individual.

Cult Por que você se interessou em escrever uma obra para o teatro?
Marco Casanova Minha relação com a escrita literária e com a dramaturgia é peculiar. Costumo dizer que há muitos caminhos que levam alguém à filosofia: a ciência, a política, a religião e a arte são quatro desses caminhos. No meu caso, foi antes de tudo a literatura que me trouxe onde estou. O teatro e o cinema sempre foram extensões desse meu interesse literário. Com isso, durante muito tempo alimentei o anseio por escrever não apenas textos teóricos, mas também ficção em sentido amplo. Esse anseio me levou ao meu primeiro romance, intitulado Copacabana e lançado em 2021, e aos outros dois livros, um romance e um livro de contos, que publiquei em 2023 e 2025, respectivamente. Depois da chuva, minha primeira peça teatral, é parte desse novo campo de experiências com minhas obsessões, assim como com o caráter em certa medida polimorfo de minha vida imaginativa. Dito de maneira sintética, tanto na escrita filosófica quanto na literária, eu encontro um campo de exercício constante de liberdade e de encontro comigo mesmo, encontro esse indispensável, me parece, para conseguir produzir a mim mesmo.

Cult Como a sua formação de filósofo se encontra com o teatro?
Gilles Deleuze disse certa vez que a maior aliança do século 20 tinha sido firmada entre filosofia e cinema. Acho que ele tem, de certa forma, razão. O que eu adicionaria, contudo, é que essa aliança pode ser estendida para as artes em geral. Nesse sentido, literatura, teatro, dança, arquitetura, artes plásticas, música, todas as artes envolvem de alguma forma a filosofia porque sempre mobilizam potencialidades inauditas de pensamento. Minha literatura e minha dramaturgia, com isso, estão atravessadas até os limites mais profundos de seu ser por meu caminho na filosofia, e não têm como ser dissociadas dele. Isso não significa, porém, que estaria de alguma forma defendendo teses nos textos e na peça. Não. Pensamentos são capazes de se concretizarem ficcionalmente e de aparecerem confundidos com uma posição de uma personagem singular. Encontrar a vida dos personagens nessas concreções é dos momentos mais felizes na escrita.

Cult Sua peça é o ajuste de contas de uma relação conjugal que perpassa dores e mentiras. É linda, mas um soco. Por quê?
Certa vez, em conversas com amigos, nós estávamos diante de uma constatação um pouco desagradável: se os divórcios proliferaram na pandemia de Covid, é porque as pessoas foram obrigadas a passar muito tempo juntas. A conclusão incontornável desse fato é que a maioria das pessoas só não se separa porque não se encontra. Foi justamente a partir daí que surgiu a ideia central da peça: obrigar duas pessoas há muito tempo casadas a ficarem inesperadamente confinadas em casa e obrigadas a olharem uma para a outra. Nesse contexto, duas referências importantes da peça logo surgiram: A noite, de Michelangelo Antonioni, e Noites de Cabíria, de Federico Fellini. E isso por razões diversas. A noite porque o filme trata precisamente de um casamento que tinha acabado e que precisava de uma festa para que o fim do amor viesse à tona sem travas. Noites de Cabíria porque a obra de Fellini é uma sonata para uma mulher sofrida. Minha intenção inicial, com isso, era juntar as duas coisas. Obrigar um casal a se olhar e construir uma sonata para uma mulher cuja existência tinha sido apagada pelo destino. No meio do caminho, contudo, havia uma última peça do quebra-cabeça: o bolsonarismo e a violência imanente ao corpo social e histórico brasileiro. Era preciso falar não de fim do amor, mas de um casamento armado, fundado pela hipocrisia e pela naturalização do horror. Esse é o pano de fundo da peça. Se ela choca, é pela realidade crua que ela expõe e pela veracidade de seus acontecimentos. Trata-se de uma história de muitas mulheres brasileiras narrada a partir de uma heroína determinada, a minha adorada Lígia.

Cult Quais foram os desafios para escrever palavras que seriam interpretadas no teatro?
Escrever é sempre difícil. Para ser lido, para ser encenado, para ser filmado, para ser declamado… A palavra teatral, no entanto, é diferente. Não apenas porque o teatro é um espaço mágico nas suas contradições. É ficção que se passa diante de nossos olhos com pessoas reais. E, ainda assim, ele só funciona se conseguirmos ver, não os atores, o diretor e o cenário, mas a peça em si. Billy Wilder afirmou outrora que o cinema só acontecia quando a tela desaparecia. No teatro, o desaparecimento não pode ser da tela, tem de ser do mundo objetivo. É preciso tragar dramaticamente o espectador para o interior da cena e obrigá-lo a ver o que se apresenta como um mundo aberto pela verdade cênica. Isso não depende apenas do autor, por mais que ele tenha um papel importante. Isso depende, antes de tudo, da direção e dos atores. Costumo dizer que sou realmente um sujeito de sorte. O destino esteve comigo uma vez mais. A direção de Bárbara Bruno e as atuações de Tatiana De Marca e Clóvis Gonçalves são primorosas. Sem eles, nada seria possível.

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> Serviço: Depois da chuva

Texto: Marco Casanova
Direção: Bárbara Bruno
Elenco: Tatiana De Marca e Clóvis Gonçalves
Local: Ágora Teatro, Rua Rui Barbosa, 664, Bela Vista, São Paulo
Temporada: Até 22 de novembro de 2026
Sessões: Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h
Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia), à venda pela Sympla
Classificação indicativa: 14 anos
Realização: Iason Cultural

 

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/depois-da-chuva-drama-conjugal-expoe-violencia-silenciosa-e-hipocrisia-das-relacoes/