Nise da Silveira participa como pioneira inquestionável de séries históricas que transformaram o Brasil. Formou-se com uma dissertação que criticava o entendimento psíquico que o meio médico tinha das mulheres em 1926; participou de movimentos progressistas pelos direitos das mulheres na década de 1930, o que ocasionou sua prisão; desenvolveu um conjunto de práticas que antecipou o movimento antipsiquiátrico no país. Finalmente, foi a responsável pela recepção estruturada da psicologia analítica, da obra e da proposta terapêutica de Carl Gustav Jung no Brasil, desde os anos 1950.
Ainda que tenhamos registros de leituras de textos esparsos de Jung por indivíduos no campo da medicina e das artes, especialmente notados na obra de Arthur Ramos na primeira metade do século 20, a história da psicologia analítica no Brasil e na América Latina se organiza a partir de 1953, com a publicação do tomo Psicologia e alquimia de Jung em inglês, adquirido e estudado por Nise da Silveira. A psiquiatra alagoana teve papel destacado e relevante na implementação e na disseminação das ideias de Jung. As primeiras exposições anuais que realizou no Museu de Imagens do Inconsciente apresentavam, em seus conteúdos, estudos de pesquisas de biografias clínicas, como Nise preferia nomear o percurso de pessoas adoecidas que frequentavam o Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro.
Nise estava à frente de seu tempo quando rompeu com o pensamento tradicional da psiquiatria da época. Desenvolveu, intuitivamente, um movimento próprio, de vanguarda, nas áreas da psiquiatria e da psicologia. Em 1946, dois anos depois de cumprir um autoexílio fundamentado pelo medo de ser presa novamente, foi reintegrada ao serviço público e decidiu que não faria uso das técnicas psiquiátricas de tratamento então vigentes, consideradas modernas e arrojadas. A profunda experiência da prisão teve como consequência uma aversão aos métodos agressivos, levando a psiquiatra a se questionar se estaria apta à prática médica. Nise, entretanto, não se intimidou. Inconformada com tais práticas, recusou-se a utilizá-las por considerá-las brutais.
Nise precedeu em muitos aspectos a antipsiquiatria, ao criticar o emprego de métodos de tratamento mental questionáveis e sombrios, como as séries de eletroconvulsoterapia (ECT), que deixavam sequelas irreversíveis na capacidade cognitiva e psicomotora de doentes que eram submetidos à técnica na época. Leu dezenas de testemunhos de pessoas que passaram por sessões de ECT, como o de Antonin Artaud, o qual a influenciou profundamente. Denunciou, de forma obstinada, o abuso na prescrição de psicofármacos – “uma verdadeira camisa de força química”, como escreveu em seu livro de 1979, Terapêutica ocupacional –, que deixaria os doentes petrificados ou cada vez mais dependentes da medicação. Nise nunca contestou o uso de tratamento medicamentoso, porém mantinha uma atitude crítica a respeito do excesso prescritivo que considerava existir na prática médica.
Em 1946, após recusar o alinhamento com a psiquiatria tradicional e toda tecnologia adotada naquela época, foi convidada a dirigir e organizar as atividades ocupacionais do Pedro II. A Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR), então implementada recentemente, tinha seus altos e baixos, e funcionava de modo descontínuo devido a inúmeros fatores. Nise aceitou o convite de comandá-la e a desenvolveu com liberdade e criatividade. Um dos princípios básicos de seu funcionamento era o reconhecimento científico de que as atividades expressivas não constituem meios de “distração dos doentes”. Em vez disso, são verdadeiros agentes terapêuticos eficazes se bem conduzidos. Previamente, em 1911, o renomado psiquiatra suíço Eugen Bleuler já afirmava: “No momento presente, o único tipo de terapêutica para esquizofrenia que pode ser seriamente tomado em consideração é o método psíquico”.
Com a implementação do método ativo das atividades ocupacionais, foram introduzidas as mudanças nos ambientes insalubres das instituições psiquiátricas. As áreas das enfermarias masculina e feminina ficavam superlotadas de pessoas amontoadas, fumando compulsivamente, encolhidas em posturas cada vez mais regressivas em um ambiente hostil que não contribuía para restabelecer o contato com o mundo exterior. Nise apostou na mudança do ambiente opressivo dos hospitais psiquiátricos. Edificou seu projeto pioneiro de reforma psiquiátrica, transformando esses espaços em territórios livres. Para espanto de seus detratores, abriu as portas do hospital a fim de que os internos pudessem circular livremente pelas ruas do bairro. Organizou festas comemorativas com música, dança, coral, peças de teatro, além da criação de diversos ateliês de desenhos e pinturas, modelagem, artes aplicadas, xilogravura, entre outras atividades de grupo. Dentre elas, houve espaço para música e percussão de instrumentos, teatro, contos de fada, poesias, passeios em museus, parques, praias, jardins e tantas outras atividades culturais. Tais atividades passaram a ser cada vez mais procuradas, tirando pessoas adoecidas de uma condição submissa e mórbida, do estado de passividade em que se encontravam. Para surpresa de seus colegas psiquiatras, Nise ainda teve a ousadia de introduzir animais como “agentes coterapeutas” no tratamento dos doentes mentais. Dizia ela: “Tudo isso me alegrava profundamente”, enfatizando: “Precisamos de uma nova psiquiatria!”.
Em sua convivência diária com pessoas em sofrimento psíquico, Nise observou a importância da construção de um vínculo afetivo no campo da relação médico-cliente. Percebeu que, em geral, “os psiquiatras não olham no olho do doente”. Para Nise da Silveira, esse olhar é fundamental, constituindo-se num “tesouro preciosíssimo”, na medida em que, se não houver uma relação empática, não haverá possibilidades de cura ou de transformação da pessoa adoecida.
Um fato significativo sucedeu em 1950. Nise recebeu um convite oficial de um representante do governo da França para expor trabalhos dos clientes brasileiros que frequentavam a STOR no I Congresso Mundial de Psiquiatria de Paris. Doentes de outros 17 países também exibiriam suas obras. A exposição, que foi denominada L’Art Psychopatologique [Arte psicopatológica], não pôde contar com a presença da psiquiatra brasileira. Nise foi considerada persona non grata nos meios acadêmicos e por grande parte dos colegas de profissão do Brasil, que foram seus maiores críticos. Foi grande o desapontamento de Nise, que se havia esmerado na organização de todo material a ser exibido. Ao se aproximar do dia da viagem, foi informada de que sua participação havia sido vetada por grupos de colegas psiquiatras, que não eram favoráveis à sua participação, considerada “uma presença não desejável”, tendo seu trabalho sido julgado como “meras brincadeirinhas não científicas”.
Ao desenvolver um novo paradigma em psiquiatria, empregando técnicas expressivas não verbais como modelo científico para a compreensão do complexo processo da psique, mais uma vez Nise foi rejeitada e excluída. Entretanto, as demonstrações de solidariedade e reconhecimento por parte de colegas psiquiatras desconhecidos que moravam em outros países contribuíram muito para incentivar a psiquiatra brasileira. Em 1960, para surpresa e alegria de Nise, ela foi agraciada com o título de membra fundadora da Societé Internationale de Psychopathologie de L’Expression, com sede em Paris, em reconhecimento ao seu destacado trabalho nas diversas áreas da saúde mental.
Percebemos nas ideias pioneiras de Nise e em suas práticas metodológicas de tratamento psiquiátrico-psicológico as sementes do que hoje é conhecido como o movimento da antipsiquiatria, surgido na década de 1960. Esse movimento inovador desafiou a legitimidade de algumas teorias e práticas da psiquiatria tradicional, como as dosagens maciças de medicalização da loucura, uso de métodos coercitivos, de descrição de categorias diagnósticas que reduzem o doente a um mero objeto de investigação. O trajeto de Nise se dava por outras veredas: o cultivo do potencial interno existente nessas personalidades fragmentadas que, aparentemente, pareciam estar em ruínas. Ao vivenciarem o doloroso processo dos assim chamados transtornos mentais, essas pessoas também podem nos surpreender. Daí que Nise, como uma velha sábia, afirmava: “Nunca perca a capacidade de se surpreender com esses seres tão marginalizados!”.
Em 12 de novembro de 1954, Nise decidiu enviar uma carta a Jung. Havia muito tempo, observara e arquivara as diversas séries de imagens produzidas, espontaneamente, pelos frequentadores do Museu de Imagens do Inconsciente. Evidenciou em suas pesquisas diversos temas e imagens arquetípicas que confirmavam as teses desenvolvidas por Jung. Contudo, o que mais a impressionou foi observar nas produções dos doentes o surgimento de diversas imagens circulares. Eram mandalas harmoniosas em conjunto com outras formas complexas, irregulares e fragmentadas. A tese da psiquiatria dominante sinalizava que uma importante característica da esquizofrenia é a cisão das funções psíquicas que realmente se refletiam, com frequência, nas produções psíquicas de pessoas doentes. Desse modo, o esperado seria apenas a manifestação dessa cisão, na expressão de formas fragmentadas. Mas como explicar o surgimento espontâneo de imagens circulares harmônicas nas pinturas e nos desenhos dos esquizofrênicos? As imagens geradas apresentavam correspondências com imagens sânscritas da filosofia e das religiões orientais. Isso não só a surpreendeu, como também a levou a investigar e a realizar uma análise minuciosa sobre a dinâmica da psique.
Em 15 de dezembro de 1954, chegou a carta-resposta de Jung, na qual ele não apenas agradecia o envio das “interessantes fotografias de mandalas desenhadas por esquizofrênicos”, como também solicitava que as fotos fossem doadas ao acervo de imagens da Associação Internacional de Psicologia Analítica (IAAP), em Zurique, conforme Luiz Carlos Mello registra no livro Nise da Silveira: Caminhos de uma psiquiatra rebelde. Elas seriam de grande valia para o aprofundamento dos futuros estudos e pesquisas. As imagens foram doadas por Nise e permanecem até hoje disponíveis para pesquisas que são realizadas no acervo da IAAP. Na celebração dos 40 anos do Grupo de Estudos C. G. Jung, Nise concedeu uma entrevista ao jornalista Bernardo Horta afirmando: “Eu não sou uma pessoa que tenha muita bossa histórica, a minha bossa é para o futuro”.
Nise era filha única do jornalista e diretor do Jornal de Alagoas, Faustino Magalhães, que também exercia a função de professor, e da pianista autodidata Maria Lídia, que pertenciam a famílias da tradicional burguesia alagoana. Seus pais eram considerados progressistas para a época, inserindo-se e promovendo diversos movimentos culturais. Desde muito cedo, Nise teve contato com pessoas que trabalhavam na imprensa e com artes, como jornalistas, artistas nacionais e internacionais, escritores e poetas. Todos esses eventos contribuíram para forjar a personalidade e a visão de mundo da pequena Nise. O mundo familiar era excepcionalmente rico e criativo. Seu avô, funcionário público, recitava poesias de Castro Alves para ela, que escutava com atenção e tinha a sensação de serem enigmáticas. Com apenas seis anos, incentivada pela mãe, Nise estudava piano e sabia as letras de grandes trechos de óperas, como La Bohème, de Puccini, e La traviata, de Verdi.
Na casa de Nise, havia uma rica biblioteca com muitos livros de escritores brasileiros e estrangeiros. Era um dos lugares favoritos da família, que se reunia para ler os grandes clássicos da literatura. Nise foi uma leitora voraz. Considerava-se uma “rata” de biblioteca, devido à sua grande paixão pelos livros. Em sua casa, no Rio de Janeiro, havia uma magnífica biblioteca com coleções dos grandes pensadores ligados às filosofias orientais e ocidentais, obras de diversos poetas e escritores, obras completas de psicanalistas, das diferentes abordagens da psiquiatria, de autores das artes, da literatura, das mitologias, de contos de diversas culturas, das religiões comparadas, das alquimias árabe e egípcia, da literatura de povos não ocidentais, da sociologia, das distintas psicologias, da antropologia, da política… Em especial, havia a obra completa de Jung, na qual ela localizava facilmente o volume e o parágrafo do tema que queria ler ou do qual precisava para elaborar algum texto.
Como observamos, as personalidades de Nise e de Jung se aproximavam da vanguarda. Ambos foram antecipadores de novos paradigmas, de pontos de vista inovadores, tanto na psicologia quanto na psiquiatria. Tal como Jung, Nise também observou a si própria e aos seus clientes de maneira intuitiva, e desenvolveu seus principais construtos teóricos a respeito dos enigmas da alma humana de forma empírica. Ambos se definiam como empiristas e construíram suas obras, mesmo sob a acusação de seus detratores que não os conhecem em profundidade. No entanto, como qualquer pessoa à frente de seu tempo, Nise e Jung foram antecipadores de novos modelos de subjetividade nos campos da psiquiatria e da psicologia que, para nós, se alinham à necessidade urgente de nossa contemporaneidade em que flertamos com as ameaças, o sofrimento e a ansiedade derivados de nossas imagens apocalípticas de fim do mundo.
A expansão da psicologia analítica de Jung em centros de formação foi iniciada com o estudo sistematizado de Nise da Silveira. O tempo tem revelado que o pensamento de Nise excede sua contribuição a uma única abordagem psicológica. Mais: trata-se ainda de uma mulher que repensou o ser e o sofrimento humanos, rejeitou a ciência positivista de uma época e trabalhou para aprofundar a fissura ontológica que relegava os sujeitos a meros objetos da intervenção médica. O legado de Nise da Silveira é de todos os que se interpõem a um paradigma naturalista-racionalista que rejeita os afetos e ignora nossos inumeráveis estados de ser. Invocamos o desejo de Nise: “Quero ser lembrada como uma psiquiatra humanista”. Você foi mais, Nise: sua bossa do futuro é revolucionária. Você nos fez ver outros mundos.
Vera Macedo é analista junguiana pelo IJRJ/IAAP, psicóloga e diretora da Casa das Palmeiras, colaboradora direta de Nise da Silveira por mais de 20 anos
Gustavo Pessoa é analista junguiano pela SBPA/IAAP, mestre e doutorando em psicologia clínica pela USP, psicólogo e escritor. Coorganizador e coautor do livro Escutando dissidências (Sattva, 2024)
O post Em busca da bossa do futuro apareceu primeiro em Revista Cult.
Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/em-busca-da-bossa-do-futuro/

