mapa Autores e livros inéditos no Brasil, por Felipe Franco Munhoz
Conheci o trabalho de Özge Baykan Calafato por um conto de título “Cihangir”: mesmo nome de um bairro de Istambul.
Não longe do bairro Cihangir, fica o Pera Museum – que, em 2023, inaugurou a série Today’s Stories: autores escreveram ficção inspirada em fotografias da então vigente exposição Istanbuls Today (com narrativas visuais contemporâneas, por diferentes artistas, apresentando várias hipóteses de representação da cidade). Baykan Calafato, nascida em Esmirna, escreveu a partir de uma fotografia de Ci Demi (e produziu duas versões similares do texto: uma em inglês, outra em turco).
Flores, caixa de força, ramos e cabos unidos – e a entrada de um prédio, o ingresso em um apartamento disponível para aluguel; e a protagonista encontra, no apartamento, uma caixa com fotografias antigas. O parágrafo derradeiro da narrativa, em terceira pessoa, descreve algumas das imagens encontradas. Na última, feita em estúdio, há um casal apaixonado; atrás, construindo uma surpreendente (e, na prática, impossível) ponte para o romance Madona com casaco de pele, de Sabahattin Ali, a inscrição: Istambul, 1923, Maria & Raif.
(Impossível, na prática, pela incompatibilidade cronológica e geográfica em relação aos personagens de Madona com casaco de pele, às anotações no caderno de Raif; impossível pelo desfecho do – tardio – clássico turco do século 20, que frisa a inexistência de fotografias do jovem casal. Ou seria a inscrição falsa, gravada a posteriori por personagens leitores do romance de Ali? Ou seria o caderno de Raif desonesto, e a ficção de Calafato sugere essa interrogação? Ou seriam somente personagens homônimos?)
Entrelaçando o artístico e o documental, a autora parte de uma fotografia da Istambul contemporânea e chega à cidade (e seus habitantes – reais ou inventados?) de cem anos antes. Uma proposta em diálogo também com a pesquisa acadêmica de Calafato: ela estabeleceu, na New York University Abu Dhabi, um arquivo de mais de 16 mil imagens do final do Império Otomano e da República da Turquia moderna.
Autora, em turco, de livros de ficção e de ensaios, Calafato publicou (escrito diretamente em inglês) no Reino Unido, pela Bloomsbury, em 2022, depois lançado na Turquia pela Doğan Kitap, em 2024, a não ficção Making the Modern Turkish Citizen: Vernacular Photography in the Early Republican Era [Formando o cidadão turco moderno: Fotografia vernacular no início da era republicana], obra que analisa a sociedade (questões de classe, de gênero, de religião) alicerçando-se em fotografias de família.
Através das fotografias (muitas das quais, inclusive, análogas ao suposto retrato de Maria e Raif descrito no conto “Cihangir”) e de seus detalhes, marcas, inscrições, Calafato vai revelando, aos poucos, um universo: iluminando o que aparece em cena, escavando elementos subjetivos. Pergunto-me se, de maneira implícita, a obra de Calafato – voltada à análise de álbuns de família – não provoca no leitor de hoje – que vive as ambiguidades do início da era da inteligência artificial e das deep fakes – certa sensação transgressiva.
E assim prosseguimos; “barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para dentro do passado”?
Quando recuo para observar o trabalho de Calafato, enxergo uma autora (de não ficção) que analisa habitantes do passado, que guarda memórias alheias, e uma autora (de ficção) capaz de explorar as – reais ou inventadas? – memórias alheias; e ainda uma autora (de não ficção e de ficção) capaz de compreender sutilezas em dinâmicas socioculturais; mas enxergo, sobretudo, uma autora (de não ficção) que encontra e (de ficção) que esconde preciosidades nas mais improváveis entrelinhas.
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