Like de milhões: o negócio da violência da nova internacional fascista

 

 

“Se as ruas se calam, as palavras se tornam tiros.” (Maiakoviski, Ao camarada Netchaieve)

 

“Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; que fazem do amargo doce, e do doce amargo.” (Isaías, 5:20)

 

Quando um influenciador de extrema-direita é morto a tiros em plena luz do dia nos Estados Unidos, o que se vê não é luto, mas espetáculo. As plataformas digitais — esse novo Leviatã sem rosto — transformam o corpo ainda quente em conteúdo, e o crime em cliques. Em minutos, a desinformação tenta escrever sua própria narrativa: o assassino é um esquerdista, um “agente woke”, um bode expiatório perfeito para manter acesa a chama da seita. Só que a verdade — sempre mais prosaica e menos rentável — revela que o autor do crime também era republicano, também pró-armas, também alimentado por essa dieta de ódio que circula nos mesmos ecossistemas.

Aqui se encontra a ironia mais cruel: o morto defendia a proliferação de armas e a violência como forma de “defesa da liberdade”. Morreu por essa mesma lógica, vítima do próprio fetiche. Mas o que importa não é a morte em si — é o que ela produz na economia da atenção: mais polarização, mais engajamento, mais lucro para as plataformas. Este é o capitalismo de plataforma em sua expressão mais perigosa: ele não apenas espelha o fascismo, mas o engendra. Como o capitalismo industrial do início do século XX foi combustível para o nazifascismo e duas guerras mundiais, este novo capitalismo — baseado em vigilância, captura de dados e modulação de afetos — é o motor da nova extrema-direita global.

Venho chamando de subjetividade de seita esse estado psíquico-político em que indivíduos não apenas consomem desinformação, mas encontram nela o próprio sentido de pertencimento. Não se trata de mera crença equivocada: é uma forma de vida. O pertencimento a essas seitas digitais — seja QAnon nos EUA, seja o bolsonarismo no Brasil — substitui vínculos sociais, famílias e instituições. Produz uma identidade totalizante, impermeável ao diálogo, e disposta ao sacrifício — inclusive o da própria vida ou da vida alheia. Foi essa subjetividade que levou multidões a invadirem o Capitólio, em Washington, e a Praça dos Três Poderes, em Brasília. Foi ela que colocou nas ruas de Londres, nesta semana, dezenas de milhares em uma marcha anti-imigrantes sem precedentes, liderada por Tommy Robinson, figura central da extrema-direita britânica. E é a mesma lógica que alimenta os tumultos no Nepal, onde grupos nacionalistas hindutva — conectados ao BJP de Modi e inspirados pela retórica anti-muçulmana — têm promovido ataques a minorias étnicas e religiosas, importando táticas e narrativas das redes de desinformação globais.

No Brasil, esse ecossistema é bem conhecido: o MBL (Movimento Brasil Livre), junto com Nikolas Ferreira, Carla Zambelli e Allan dos Santos, compõe uma rede profissional de disseminação de desinformação e linchamentos virtuais, articulada com think tanks e grupos de influência internacionais. Nos Estados Unidos, Ben Shapiro, Jordan Peterson e Steve Bannon alimentam diariamente as massas digitais com conteúdo que mistura ressentimento, moralismo punitivo e supremacismo travestido de defesa da liberdade. Na Espanha, Isabel Díaz Ayuso e Santiago Abascal são os títeres perfeitos de um projeto que combina lawfare, guerra cultural e xenofobia. No Reino Unido, Nigel Farage reaparece sempre que necessário para insuflar o ódio aos imigrantes e manter viva a chama do Brexit. Na França, Marine Le Pen se apresenta como “moderada” para normalizar o que antes era inaceitável. Na Itália, Giorgia Meloni, hoje primeira-ministra, transforma em política de Estado aquilo que antes era apenas retórica da extrema-direita: xenofobia, misoginia e culto à família “tradicional”.

A falsolatria — conceito que desenvolvi em meu livro de mesmo nome — é o culto coletivo à mentira quando esta se torna mais funcional e prazerosa que a verdade. No capitalismo de plataforma, a mentira tem valor de troca: ela circula mais, engaja mais, monetiza melhor. O templo dessa religião são os algoritmos. A desinformação sobre o assassinato do influenciador americano é exemplar: antes mesmo de a polícia divulgar o nome do atirador, já circulavam memes, vídeos e threads no X e no TikTok associando o crime à esquerda, a imigrantes, a minorias. A checagem posterior não tem a menor chance contra o prazer que se tem em compartilhar a “versão” que confirma o ódio pré-existente.

O jornalismo tradicional, que poderia funcionar como barreira civilizatória, caiu na armadilha da falsa simetria. Nos EUA, jornalistas se sentem obrigados a dar “os dois lados”, mesmo quando um deles é a negação do próprio regime democrático. No Brasil, o padrão se repete: Bolsonaro e Lula são colocados como polos equivalentes de uma mesma “polarização”, quando um deles foi responsável por mais de 700 mil mortes evitáveis na pandemia, tentou um golpe de Estado e instalou um gabinete paralelo de ódio. Essa mesma lógica opera no nível internacional. A cobertura ocidental do genocídio em curso na Faixa de Gaza — e aqui uso o termo “genocídio” com base no processo que a África do Sul move contra Israel no Tribunal de Haia — insiste em igualar o Estado de Israel, potência nuclear que ocupa e bombardeia, a um grupo terrorista como o Hamas. As imagens de crianças soterradas são enquadradas como “tragédias colaterais” enquanto colunas de opinião falam em “complexidade do conflito”. O resultado é anestesia moral.

O jornalismo que se financia por cliques está condenado a seguir a mesma lógica das plataformas: priorizar o conteúdo que causa reação. Daí a aposta no escândalo, no “toma lá dá cá”, na caricatura. A consequência é a erosão da própria ideia de verdade factual — aquela que, como disse Hannah Arendt, é condição para qualquer política. Sem ela, resta o “vale-tudo” discursivo em que a extrema-direita prospera.

O que poderia deter esse ciclo? Primeiro, a contenção das plataformas digitais: regulação que imponha auditoria de algoritmos, desmonetização de desinformadores contumazes, transparência radical sobre critérios de recomendação. A União Europeia já começa a trilhar esse caminho com o Digital Services Act — ainda tímido, mas um começo. Segundo, o fortalecimento das instituições democráticas. O Brasil dá um exemplo ao levar Bolsonaro e seus cúmplices a julgamento. Isso não é “revanchismo”, é defesa do Estado de Direito. Sem accountability, a impunidade se converte em convite para novos atentados à democracia. Terceiro, o resgate do jornalismo como serviço público, financiado não pelo clique, mas pelo interesse coletivo. Sem isso, seguiremos reféns do algoritmo.

Nos EUA, já se fala abertamente em guerra civil. No Brasil, o extremismo segue ativo e armado. Na Europa, a extrema-direita cresce no vácuo da social-democracia. No sul da Ásia, o nacionalismo étnico ameaça mergulhar países inteiros no caos. A história nos ensinou que quando a barbárie se organiza, a democracia sozinha não basta: é preciso ação coletiva, resistência e coragem intelectual. O capitalismo de plataforma transformou a violência em negócio. Cabe a nós decidir se continuaremos consumidores passivos desse espetáculo ou se erguemos — agora — as barreiras que podem salvar o que resta de nossa frágil civilização democrática.

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/like-de-milhoes-o-negocio-da-violencia-da-nova-internacional-fascista/