Para borrar as fronteiras entre videoarte e cinema

 

Em um sistema baseado na máxima reprodução e difusão de vídeos curtos, o que garante o valor de uma videoarte? Desde o surgimento da mídia digital e sua consequente popularização, a própria definição de videoarte foi colocada em cheque pela diversidade de suportes imposta ao audiovisual. Afinal, se uma videoarte já não é mais realizada em fita magnética, mas em uma câmera de celular, o que lhe distingue de outros vídeos? E se ela for exibida na telona do cinema, ao invés de uma galeria de arte, vira um curta-metragem? Algumas dessas questões de forma são colocadas em questão pela mostra MAM na Cinemateca: corpo e cidade em movimento, que exibe em sessão única na Cinemateca Brasileira, na quarta-feira, 16 de julho, uma seleção de 15 vídeos recém integrados ao acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

A sessão celebra a doação de 75 videoartes ao MAM São Paulo, feita por Vera e Miguel Chaia, professores da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP e colecionadores de arte contemporânea desde a década de 1970. Cauê Alves, curador-chefe do MAM, vê na exibição uma possibilidade positiva de borrar as fronteiras entre a videoarte e o cinema: “encarar os suportes de modo experimental colabora tanto para o cinema como para as artes visuais.”

Miguel Chaia, que assina a curadoria da mostra ao lado de Alves, defende que o audiovisual – termo por ele escolhido para englobar o vídeo, o cinema e os conteúdos da internet – é essencial na sociedade do espetáculo, pois se uma imagem estática já é potente, uma imagem em movimento é mais ainda. “Com as novas tecnologias de informação, a tela do cinema pode perder público, mas não importância ou qualidade. O audiovisual – o vídeo e o cinema – é permanente e atende à necessidade do nosso olhar contemporâneo”, define.

O título “Corpo e cidade em movimento” guia a curadoria e a organização da sessão, que se divide em três eixos temáticos: “retratos poéticos”, protagonizado por representações do corpo do artista; “paisagens políticas”, com foco nas relações entre cidade e vida social; e “experiências da linguagem”, que destaca aspectos formais do vídeo enquanto suporte. Se o movimento é próprio do cinema, o foco em aspectos do corpo e da cidade abrem caminhos explorados de diversas formas pelos artistas que integram o conjunto das obras.

A primeira seção, por exemplo, inclui a obra Dandara, de Rafaela Kennedy. Artista visual manauara radicada em Campinas, no interior de São Paulo, Kennedy explora a intersecção entre “fotografia, imagem-magia e testemunho de vida”. O vídeo, cujo título homenageia Dandara dos Santos, travesti que morreu após ter sido espancada até a morte em Fortaleza, nasce como um projeto do ateliê TRANSmoras, um espaço de produção de arte voltado à comunidade trans da Unicamp.

Para a artista, exibir o vídeo na tela da Cinemateca representa “uma conquista da trancestralidade”. Além de uma resposta à violência contra pessoas trans e travestis no Brasil, Kennedy define: “O filme honra a possibilidade de estar viva no agora porque outras travestis vieram antes de mim. É um exercício imagético de pensar nossa força para estar viva em um país que nos quer mortas.” Nesse sentido, a artista celebra a inclusão do filme na coleção dos Chaia doada ao MAM enquanto uma ruptura dentro do mercado de arte, pois “quem é a pessoa que vai ter a coragem de comprar uma obra com a cara de uma travesti preta e botar na sala de casa?”

Também sobre a violência na realidade brasileira, Americano, de Berna Reale, é exibido na seção “paisagens políticas” da mostra. Exibido no Pavilhão do Brasil na 56ª Bienal de Veneza, o vídeo da artista e perita criminal paraense denuncia os abusos e a precariedade do sistema carcerário. O objeto-choque da arte de Reale é seu próprio corpo, pois “carrega uma simbologia capaz de capturar olhares e questionamentos”, em suas palavras. Os vídeos curtos, que variam entre 3 e 4 minutos, são usados como suporte pois ela julga serem o “ideal para sintetizar a mensagem e capturar a atenção do espectador num mundo cada vez mais ansioso”.

Captar a atenção total do espectador é o que moveu Cauê Alves a escolher a sala de cinema, ao invés do museu, como ambiente de exibição da mostra. Se, em geral, a videoarte é exibida em pequenas televisões ao longo de espaços expositivos, a sessão na Cinemateca é um convite para encarar essas obras de outra forma, quem sabe em sua totalidade, na sala escura do cinema. Chaia celebra ainda os diálogos que os vídeos promovem entre si, exibidos lado a lado: “Os vídeos são cenas autônomas que dialogam dialeticamente uma com a outra. É uma experiência muito interessante colocar unidades numa sequência de tempo, criando uma narrativa específica.”

A escolha da Cinemateca para a exibição também parte de uma ligação histórica entre as instituições: foi dentro do MAM que nasceu, em 1954, a filmoteca que deu origem à Cinemateca Brasileira, sob o comando do seu idealizador, conservador-chefe e diretor Paulo Emílio Sales Gomes. Com seu espaço fechado temporariamente devido à reforma da marquise do Ibirapuera, o MAM busca parcerias para movimentar seu acervo durante o período. O retorno do museu ao parque está previsto para o segundo semestre de 2025.

Vídeos de Cinthia Marcelle, Lia Chaia, Thiago Rivaldo, Sara Ramo, Lia Chaia, Carmela Gross, Guilherme Peters e Sansa Rope, Rodrigo Cass, Giselle Beiguelman, Marcelo Cidade, Lucas Bambozzi, Nicole Kouts e Cao Guimarães, completam a mostra. A sessão única “MAM na Cinemateca: corpo e cidade em movimento” é gratuita e ocorre das 19h às 21h30 na Sala Oscarito da Cinemateca Brasileira. Ela será precedida por uma sessão com acessibilidade de legendas, janela Libras e audiodescrição, às 17h.

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/para-borrar-as-fronteiras-entre-videoarte-e-cinema/