Três perguntas para Anne Carson, ganhadora do Nobel de Literatura

 

A tradutora e ensaísta canadense Anne Carson, 76, foi anunciada hoje como vencedora do Nobel de Literatura de 2026. Seu último livro lançado no Brasil é Antigonick, uma releitura ousada de Antígona, de Sófocles. Em entrevista exclusiva à Cult, ela defende a tarefa do tradutor como uma tarefa pessoal — “uma relação” — e propõe que, em vez de tornar os gregos relevantes para nós, tentemos nos tornar relevantes para eles.

 

Você traduziu Antigonick cerca de 2.400 anos depois da escrita de Antígona, de Sófocles, e, quatorze anos mais tarde, o público brasileiro passa a ter acesso à sua versão em português, em um contexto histórico e político muito diferente daquele de 2012. Em 2026, temas centrais da peça, como a tirania e o machismo, parecem ganhar novamente uma força particular. Como essa peça reage ao tempo e qual é a tarefa do tradutor perante ela?

Tentei descrever a tarefa do tradutor no prefácio à peça (“Querida Antígona…”). Parece-me uma tarefa pessoal. Uma relação. Como a relação que tenho, digamos, com o inverno. Tanto o inverno quanto Antígona são coisas reais e imensas, com sua própria mentalidade e suas próprias regras. Tento encontrar meu caminho até o centro dessa mentalidade e trabalhar de acordo com suas regras. O objetivo é a precisão. Preciso chegar ao centro exato.

 

Considerando as intervenções que você propõe no texto original, como traçar (ou não) os limites entre tradução, reescrita e adaptação? Em certa medida, parece se tratar de uma tradução-ensaio. Como você classifica essa forma/método?

Sempre me agradou a economia — de linguagem, de processo, de estilo pessoal. Acho que minha forma/método é resultado de um esforço em direção a esse ideal. E, também, veja acima sobre encontrar o centro exato.

 

Por que continuar propondo novas traduções para os gregos na atualidade e o que significa continuar traduzindo na era da IA e dos “monólogos”, como diria Gospodinov?

Fundamentalmente, esta é a mesma pergunta da questão 1. Ela diz respeito à “relevância”. Não me vejo muito interessada em exigir que os antigos gregos sejam relevantes para nós. E se tentássemos nos tornar relevantes para eles? Mas não rápido demais. Você menciona também Gospodinov, que parece ter interesse na moralidade do detalhe e na ética da hesitação. Eu também.

 

(function(d, s, id) {
var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];
if (d.getElementById(id)) return;
js = d.createElement(s); js.id = id;
js.src = “//connect.facebook.net/pt_BR/sdk.js#xfbml=1&version=v2.7&appId=1200972863333578”;
fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);
}(document, ‘script’, ‘facebook-jssdk’));

Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/tres-perguntas-para-anne-carson-ganhadora-do-nobel-de-literatura/