Vivemos um tempo em que a experiência cotidiana já não permite qualquer ilusão de simplicidade. As tragédias climáticas deixaram de ser projeções abstratas: enchentes devastadoras no sul do Brasil, ondas de calor extremo na Europa e na Índia, incêndios florestais de escala inédita no Canadá e na Amazônia compõem um cenário de colapso ambiental progressivo. Ao mesmo tempo, a ordem geopolítica global se torna mais instável, com a intensificação de conflitos armados e o risco — ainda que não inevitável — de escalada para confrontos de maior amplitude envolvendo potências nucleares, no contexto das políticas externas dos Estados Unidos e de Israel. Paralelamente, os dados de desigualdade social atingem níveis obscenos: uma concentração extrema de riqueza convive com a persistência da fome e da precariedade em escala planetária. E, no coração desse paradoxo, assistimos ao investimento massivo em inteligência artificial — tecnologia intensiva em energia e água — enquanto vastas regiões do mundo enfrentam escassez hídrica. Não se trata de crises isoladas, mas de um entrelaçamento de processos econômicos, tecnológicos, ecológicos e políticos que se reforçam mutuamente.
Diante desse quadro, Donna Haraway recusa duas respostas que se tornaram quase reflexos automáticos do nosso tempo. A primeira é o tecno-otimismo redentor, que aposta que as mesmas forças tecnocientíficas que contribuíram para a crise serão capazes de resolvê-la. A segunda é o catastrofismo paralisante, que reconhece a gravidade da situação, mas conclui pela inevitabilidade do colapso, produzindo imobilismo político e existencial. Contra essas duas saídas, Haraway propõe uma terceira via: ficar com o problema. Em entrevista recente, ela formula isso de maneira incisiva ao questionar o imaginário dominante que organiza nossas expectativas de futuro e reprodução social: vivemos, diz ela, em um mundo “pronatalista e anti-infância”, no qual se naturaliza a expansão indefinida enquanto se negligenciam as condições concretas de vida; por isso, “ter filhos deveria ser algo raro e precioso”. A provocação não é demográfica no sentido estrito, mas ética e política: desloca o foco da expansão para a responsabilidade, da promessa de solução para a prática de cuidado em condições adversas.
Essa tese se articula de forma rigorosa com seus dois textos fundamentais anteriores. No Manifesto Ciborgue, Haraway desmonta as fronteiras entre humano e máquina, questionando a ideia de um sujeito autônomo e coerente. No Manifesto das Espécies Companheiras, o foco se desloca para as relações entre humanos e outros seres vivos, enfatizando processos de coevolução e interdependência. Em ambos, há um núcleo comum: a crítica aos dualismos clássicos e a recusa de essências fixas. Os seres são compreendidos como efeitos de relações, e não como unidades originárias. O que Ficar com o problema faz é expandir essa lógica para a escala planetária. A interdependência deixa de ser apenas uma tese ontológica e se torna uma condição incontornável de ação em um mundo ecologicamente degradado.
Essa concepção encontra respaldo decisivo na biologia de Lynn Margulis. Ao formular a teoria da endossimbiose, Margulis demonstrou que a evolução dos organismos complexos resulta de processos de cooperação entre diferentes formas de vida. A célula eucariótica — base da vida complexa — é um composto simbiótico. Essa evidência empírica desestabiliza leituras reducionistas da obra de Charles Darwin, frequentemente apropriadas por ideologias neoliberais sob a forma de um “darwinismo social” centrado na competição individual. A biologia não sustenta essa caricatura: a vida evolui por associação tanto quanto por seleção. Haraway transpõe essa constatação para o plano teórico e político, mostrando que o individualismo competitivo não descreve o real, mas uma construção ideológica.
É nesse ponto que introduzo, inspirado diretamente em Haraway, a noção de política ciborgue. O ciborgue não é aqui uma fantasia futurista, mas uma figura que nomeia nossa condição concreta: somos composições de natureza e cultura, de biologia e tecnologia, de humano e não humano. Pensar politicamente a partir dessa condição implica rejeitar tanto o otimismo ingênuo em relação às tecnologias quanto a nostalgia de um passado supostamente puro. Essa nostalgia aparece, sob formas distintas, no pensamento de Jean-Jacques Rousseau — com sua idealização do estado de natureza — e, em chave contemporânea e indígena, em autores como Ailton Krenak e Davi Kopenawa, quando evocam a perda de um mundo não capturado pela técnica. Evidentemente, não se trata de equiparar contextos históricos ou experiências incomensuráveis, mas de reconhecer um traço comum: a figura de um paraíso perdido e a suposição de uma exterioridade possível em relação à tecnologia. Haraway parte de outro diagnóstico: não há fora. Estamos implicados, de maneira irreversível, nas redes tecnocientíficas e ecológicas que constituem o presente.
A política ciborgue que proponho parte exatamente desse reconhecimento. Ela exige um pensamento interseccional e transdisciplinar, capaz de articular diferentes campos do saber de forma composicional. Mais do que isso: exige a articulação das múltiplas identificações que nos atravessam — de classe, de gênero, de raça, de sexualidade, de pertencimento cultural — sem reduzi-las a um único eixo explicativo. Trata-se de superar tanto a fragmentação estéril quanto os universalismos abstratos. Nesse sentido, estou convicto de que apenas uma política ciborgue pode dar conta dos impasses do século XXI.
Essa convicção não é recente. Desde meu primeiro mandato como deputado federal, venho praticando — ainda que sem nomeá-la nesses termos — uma política dessa natureza: articulando saberes, compondo alianças, recusando a lógica binária que empobrece o debate público. Minha atuação sempre foi, também, híbrida e simbiótica: jornalista, escritor, ativista de direitos humanos e artista visual. Sou, nesse sentido, metaforicamente um ciborgue. E foi justamente essa prática que se revelou um antídoto eficaz contra a polarização política odiosa e contra o avanço de um conservadorismo reacionário.
Ao mesmo tempo, essa proposta implica uma crítica necessária a certas heranças da própria esquerda. Refiro-me aqui a uma tradição marcada por aquilo que poderíamos chamar de fetiche da “revolução viril”, centrada quase exclusivamente na luta de classes e frequentemente atravessada por imaginários patriarcais. Essa política — que ainda encontra eco em setores que poderíamos nomear, sem concessões, como “esquerdo-machos” — mostra-se insuficiente diante da complexidade contemporânea. A política ciborgue não abandona a análise de classe, mas a insere em uma rede mais ampla de determinações e lutas, recusando hierarquias rígidas entre elas.
A trajetória de Donna Haraway ajuda a compreender a coerência desse horizonte. Nascida em 1944, nos Estados Unidos, ela se formou em biologia e história da ciência, com doutorado pela Universidade de Yale. Sua obra transita entre estudos de ciência e tecnologia, feminismo, teoria crítica e filosofia da biologia, sempre marcada por uma recusa de fronteiras disciplinares rígidas. Desde o Manifesto Ciborgue até Ficar com o problema, desenvolve uma reflexão que combina rigor conceitual e atenção às transformações materiais do mundo contemporâneo.
Se hoje ofereço estas “flores em vida” a Haraway, é porque reconheço em seu pensamento não apenas uma elaboração teórica sofisticada, mas a formulação mais precisa de uma prática que venho buscando construir ao longo da minha trajetória. Em um mundo atravessado por crises múltiplas, por desigualdades extremas e por uma polarização que empobrece a política, a política ciborgue se apresenta como uma exigência. Pensar como ciborgue, agir como ciborgue: sustentar a complexidade, articular diferenças, recusar soluções fáceis. Não há exterior ao problema — há apenas a possibilidade de compor, com outros, modos de existência mais justos dentro dele.
Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Autor, entre outros livros, de “Falsolatria” (Editora Nós e Edições Sesc SP, 2024) e “O anonimato dos afetos escondidos” (Tusquest Editores, 2025). É pré-candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/uma-politica-ciborgue/

