A guerra espiritual de Flávio Bolsonaro é contra seus próprios fantasmas

Flávio Bolsonaro durante a Marcha para Jesus. Foto: Divulgação

É difícil crer que, em pleno 2026, essa conversinha de “guerra espiritual” ainda sirva para ganhar votos. Mas, como Flávio Bolsonaro afirmou acreditar nisso durante a Marcha para Jesus, vale a pena tentar esclarecer exatamente a que ele se refere.

Seriam demônios que o atentaram a pedir 134 milhões ao “irmão” Vorcaro?

Ou a insistir com Trump por mais medidas contra o Brasil?

Quem sabe a contratar tantos familiares de milicianos no seu gabinete?

Estariam, na sua visão espiritual, seres das trevas também por trás das propostas de fim da escala 6×1, que o senador e seus colegas de partido rejeitam?

Da isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais?

Seria tudo obra de espectros comunistas diabólicos, obstinados em propor a taxação de grandes fortunas e a cobrança de imposto sobre lucros e dividendos milionários?

Hereges!

Flávio Bolsonaro durante o agrishow. Foto: Divulgação

Aqueles em busca de reforma agrária, certamente. Afinal, foi Deus quem distribuiu latifúndios do tamanho de pequenos estados a meia dúzia de famílias abençoadas. Assim como deu à família Bolsonaro 51 imóveis comprados em dinheiro vivo.

É muita benção!

O senador pode desconfiar que Satanás esteja por trás ainda da luta por mais investimentos em ciência, cultura, tecnologia, arte. Pela expansão das universidades públicas e escolas técnicas. Pela política de cotas, demarcação das terras indígenas, campanhas de vacinação, fiscalização de detergentes contaminados.

Pelas investigações da Polícia Federal contra os esquemas do PCC na Faria Lima, ou de rachadinha no seu gabinete.

Por uma política de segurança pública inteligente. Pelo fim do extermínio nas periferias. Por menos misoginia, racismo, LGBTfobia, intolerância religiosa…

O fato é que ele precisa deixar mais claro quem são os inimigos nessa guerra espiritual e por quê.

Caso contrário, corre-se o risco de concluir que os demônios combatidos pelos Bolsonaros possuem um hábito curioso: lutam por melhores condições para a classe trabalhadora, por justiça tributária, reparação histórica, democracia, tolerância. Uma pauta social surpreendentemente ampla para agentes das trevas.

Jean-Paul Sartre escreveu que o inferno são os outros. Talvez seja a isso que ele se refira.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-guerra-espiritual-de-flavio-bolsonaro-e-contra-seus-proprios-fantasmas/