Bolsonaro-Master não é sobre filme, mas política que vende ou trai o Brasil

Flávio Bolsonaro conversa com jornalistas na saída de um culto, em Brasília. Imagem: Adriano Machado/Reuters

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Por que é tão importante a Polícia Federal investigar quem são os beneficiários finais dos milhões enviados por Daniel Vorcaro aos Estados Unidos?

Caso a grana tenha sido usada, total ou parcialmente, para financiar a estadia e as ações de Eduardo Bolsonaro enquanto ele incitava o governo Donald Trump a mover avaliações contra empresas e empregos no Brasil, sem intenção de tentar livrar o pescoço de Jair, o dono do Banco Master terá bancado uma conspiração.

E o principal candidato da oposição à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro, terá sido responsável por garantir o financiamento dessa operação criminosa.

Já é grave que um senador tenha prometido lealdade a um banqueiro envolvido no maior escândalo financeiro da história do Brasil (“Irmão, estou e estarei contigo sempre”, disse ele, em novembro de 2025, quando o Mestre já era investigado pela PF), ao pedir dinheiro para um filme. “Dark Horse”, filme sobre a vida de Jair que conta com o ator Jim Caviezel no papel principal, será usado como propaganda eleitoral a partir de setembro.

Mas, se parte dos R$ 61 milhões enviados por Vorcaro, após os insistentes pedidos do senador, não tive ido para a produção, daí a coisa passa de uma relação promíscua e imoral entre um político que pode governar o Brasil e um bandido que roubou políticos e magistrados e vira crime. Crime de lesa-pátria.

O Intercept Brasil, que já havia divulgado mensagens em texto e áudio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, também indicou que ao menos parte do dinheiro foi limitado para os EUA usando a Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.

O site publicou ontem nova reportagem com documentos e mensagens apontando que Eduardo Bolsonaro exerceu contratualmente o papel de produtor executivo no filme. O ex-deputado federal está autoexilado nos Estados Unidos e nas avaliações articuladas do governo Donald Trump ao Brasil, via tarifaço, para pressionar o STF no julgamento de seu pai por tentativa de golpe e o Congresso Nacional a aprovar uma anistia.

Nas redes sociais, o ex-deputado atacou a reportagem, negou que tenha sido beneficiado com o dinheiro e afirmou que explicou a origem de todos os seus recursos às autoridades dos EUA no processo de imigração.

O valor repassado por Vorcaro (R$ 61 milhões, dos R$ 134 milhões de pedidos) é superior ao que custaram os dois filmes brasileiros de maior sucesso internacional nos últimos anos. “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, com Fernanda Torres, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional, custou R$ 45 milhões. E “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura, que levou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, teve orçamento de R$ 28 milhões.

Daniel Vorcaro – Foto: Reprodução

Caso a PF comprove que Eduardo Bolsonaro de fato usou recursos repassados ​​por Vorcaro para sua manutenção, o senador e o banqueiro também poderão ser indiciados e, posteriormente, denunciados por coação no curso do processo para tentar atrapalhar o julgamento da tentativa de golpe de Estado. Eduardo é réu no STF por causa disso e espera o julgamento que pode torná-lo inelegível.

Em suma, Vorcaro bancar o filme após os pedidos de Flávio Bolsonaro já seria, por si só, uma demonstração obscena da promiscuidade com dinheiro, política e propaganda eleitoral disfarçada. Mas, se a investigação confirmar que os milhões enviados aos Estados Unidos serviram também para apoiar a investigação de Eduardo Bolsonaro contra o próprio país, o caso entra em outro patamar: o de uma operação financiada para atacar instituições brasileiras, empregos brasileiros e a soberania nacional. Ou seja, traição financiada, crime de lesa-pátria.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/bolsonaro-master-nao-e-sobre-filme-mas-politica-que-vende-ou-trai-o-brasil/