Pete Hegseth, secretário de Guerra dos Estados Unidos, anunciou no último dia 10, na base naval da Baía de Guantánamo, que Washington está “retomando o nosso hemisfério” — e que, para isso, já mobiliza na América Latina a mesma inteligência, as mesmas redes e a mesma força militar usadas contra a Al-Qaeda e o ISIS no Oriente Médio, em articulação com países aliados do “Escudo das Américas”.
“Estamos caçando vocês como caçamos a Al-Qaeda e o ISIS no Oriente Médio — com as mesmas redes e a mesma inteligência”, declarou Hegseth às tropas, em trajes de exercício, invocando a Doutrina Monroe do século XIX e o que chamou de novo “Corolário Trump”, uma atualização da Doutrina Roosevelt que trata o hemisfério ocidental como “terreno-chave” da segurança nacional americana.
No Brasil, essa nova arquitetura deixou de ser abstração em 5 de junho. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram designados pelos EUA como “Organizações Terroristas Estrangeiras” (Foreign Terrorist Organizations — FTO) e “Terroristas Globais Especialmente Designados” (Specially Designated Global Terrorists — SDGT), categorias jurídicas também aplicadas à Al-Qaeda e ao ISIS.
A OFAC — Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos EUA, responsável por aplicar sanções econômicas e bloquear ativos de pessoas e entidades sancionadas — atualizou a lista de sanções. Enquanto a designação criminaliza como terrorista a entidade em si, o alerta implica que qualquer individuo, banco, empresa ou instituição — dentro ou fora dos EUA — com qualquer exposição às organizações designadas passa a estar sujeita a sanções secundárias e persecução criminal. Esse instrumento garante o isolamento financeiro global de qualquer entidade designada, estendendo o alcance da doutrina muito além das fronteiras norte-americanas.
Com isso, o Brasil, passa ser inserido na mesma arquitetura jurídica de contraterrorismo aplicada a esses grupos no Oriente Médio, em um cenário de expansão da presença militar norte-americana no entorno regional, incluindo Paraguai e Argentina. E empresas brasileiras, órgão brasileiros e indivíduos brasileiros passa a ser potencialmente alvo das sanções do OFAC mesmo fora dos EUA, e sujeitos a leis arbitrarias de imigração e segurança nacional dentro do país.
Não é improviso retórico quando a família Bolsonaro vem tentando associar Lula e o PT ao PCC desde 2022 — afirmação falsa que levou o TSE a mandar apagar publicações e a multar Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro agora reativa a mesma estratégia em escala internacional, para transformar a oposição ideológica em suspeita criminal e abrir caminho para a criminalização internacional do adversário, inclusive de Lula pessoalmente.
Secretary of War Pete Hegseth visited Cuba and U.S. Central Command yesterday, meeting with service members conducting operations on behalf of the United States.
Hegseth described the troops as embodying “the definition of deterrence.”@DeptofWar pic.twitter.com/bQ5rsSoDel
— Open Source Intel (@Osint613) June 11, 2026
A nova Guerra ao Terror
Hegseth não fez essa declaração na baía de Guantánamo no papel de ex-apresentador do programa Fox & Friends Weekend, mas como chefe civil do Pentágono — a maior máquina de guerra do mundo — e responsável por todo o aparato militar americano. É o segundo cargo mais alto da cadeia de comando militar, abaixo apenas do presidente.
O que Hegseth descreve não é uma metáfora. É a transferência literal da doutrina, método e infraestrutura da guerra ao terror do 11 de Setembro à nova guerra ao terror de Trump ao “extremismo violento de esquerda” transnacional. Essa nova arquitetura foi inaugurada pela Estratégia Nacional de Contraterrorismo de 2026, assinada por Trump em 6 de maio.
Esse documento fundiu pela primeira vez na história norte-americana três categorias oficiais de ameaça terrorista em uma única categoria: “narcoterroristas e gangues transnacionais”, “terroristas islamistas legados” e — inédito — “extremistas violentos de esquerda, incluindo anarquistas e antifascistas”.
Hegseth citou a estratégia como a magna carta doutrinária da ofensiva para “retomar o nosso hemisfério”, afirmando que presidentes anteriores “ignoraram por tempo demais a Doutrina Monroe” e “fingiram que o nosso quintal não importava”.
Não é por acaso que Hegseth exalta, por 45 minutos, na baía de Guantánamo, centro de tortura e ocupação ilegal americana do território cubano, a operação militar que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro em 45 minutos. Ele descreve o sucesso como o grande balão de ensaio da implementação prática desta doutrina: a Venezuela.
A nova guerra ao terror sob Trump se afasta da doutrina do terrorismo “árabe-religioso” para transferir a guerra ao jihadismo para o âmago da disputa ideológica contemporânea do pós-7 de outubro dentro da sociedade civil, inclusive contra o “extremismo de esquerda”. Vários documentos e atos oficiais da administração Trump elucidam uma doutrina clara, bem documentada e oportunista contra um novo terrorismo ideológico: “extremismo violento de esquerda”.
A estratégia é global. Enquanto domesticamente, nos EUA e na Europa, essa doutrina se traduz em campanhas de segurança e criminalização da sociedade civil — sobretudo da solidariedade palestina e da imigração —, na América Latina ela se expressa numa ruptura ainda mais radical.
A arquitetura legal e militar para invadir a América Latina
Juridicamente, a estratégia para a América Latina consiste em fundir o “narcoterrorismo” e “extremismo de esquerda” numa única categoria e atribuí-la a governos e governantes eleitos considerados hostis a Washington — abrindo passagem, inclusive, para intervenção militar.
A designação de cartéis na mesma categoria jurídica que a Al-Qaeda, como é o caso do PCC e do CV, abre os mesmos poderes de ação militar extraterritorial usados no pós-11 de Setembro.
A América Latina apareceu como prioridade política do governo Trump já no primeiro dia de seu mandato. Em 20 de janeiro de 2025, dia de sua posse, Trump designou Cuba como Patrocinadora Estatal do Terrorismo — em inglês, State Sponsor of Terrorism (SST) — enquanto a Venezuela foi deliberadamente excluída dessa lista.
Deliberadamente, porque nesse mesmo dia Trump assinou uma ordem executiva que inaugurou uma outra estratégia a ser testada na Venezuela: um processo formal para designar, a partir de linguagem genérica e expansiva, “certos cartéis” e “outras organizações” como Organizações Terroristas Estrangeiras ou Terroristas Globais Especialmente Designados. O mais importante: o documento alterou a própria definição de cartéis, estabelecendo que eles vão além do crime organizado tradicional — por sua convergência com atores extrahemisféricos, inclusive governos hostis.
Em novembro de 2025, Hegseth designou o Cartel de los Soles como Organização Terrorista Estrangeira e insistiu publicamente que Maduro era “o líder desse cartel” — exatamente nos termos da nova definição da ordem executiva. O Cartel de los Soles nunca existiu. O termo é uma gíria venezuelana dos anos 1990 para designar genericamente líderes corrompidos pelo narcotráfico. O próprio Departamento de Justiça (DOJ) admitiria em juízo que a organização não existe, e órgãos técnicos do governo americano — DEA, Departamento de Estado, Serviço de Pesquisa do Congresso e o Relatório Mundial sobre Drogas da UNODC — contradizem a mentira que justificou a invasão, não identificando produção nem rede de distribuição de fentanil na Venezuela.
Também não foram necessárias as armas de destruição em massa — mentira contada por Bush e Tony Blair em seus respectivos parlamentos — para a invasão e destruição do Iraque. A designação foi suficiente para abrir o caminho jurídico para a invasão de um Estado soberano. Como admitiu o próprio Hegseth em entrevista à One America News Network, declarar o Cartel dos Soles uma organização terrorista inserida no Estado venezuelano traria “um monte de novas opções” para a forma como os EUA lidam com os narcoterroristas na região.
Redes de inteligência e coalizões de países aliados
Em seu discurso, Hegseth anunciou ainda a expansão do “Escudo das Américas” — a coalizão antinarcoterrorismo — como mecanismo para operar dentro de países aliados, e “encontrar onde esses terroristas designados operam, onde produzem suas drogas”, replicando o modelo de operações especiais usado no Afeganistão e no Iraque.
As mesmas estruturas de vigilância, fusão de dados e operações especiais construídas no Oriente Médio estão sendo replicadas no Caribe, na Amazônia e no Pacífico Sul — com o Escudo das Américas como equivalente da coalizão da “guerra ao terror” pós-2001, e com Bukele e Milei no papel que Musharraf e o rei Abdullah jogaram no Oriente Médio.
Dois meses após a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher Cília Flores, em 7 de março, Trump reuniu chefes de Estado de 12 nações latino-americanas em seu clube de golfe em Doral, na Flórida, para uma reuniões.
Os líderes das maiores economias independentes da região — Brasil, México e Colômbia — não foram convidados, mas o autocrata Nayib Bukele, de El Salvador, e Javier Milei, da Argentina, faziam parte da lista. O discurso oficial era o combate aos cartéis, mas a proclamação falava em repelir “influências estrangeiras” e “interferências no hemisfério” — linguagem dirigida à China, cujo comércio com a região saltou de 12 bilhões de dólares em 2000 para 515 bilhões em 2024. A coalizão reúne 18 países com o objetivo de expandir o compartilhamento de inteligência e a interdição marítima no Caribe e no Pacífico.
What’s Pete Hegseth doing? pic.twitter.com/eqnBNSeq0l
— Republicans against Trump (@RpsAgainstTrump) June 12, 2026
Bases avançadas
Guantánamo, as bases argentinas do Decreto 264/2026, o FBI no Equador e o SOFA paraguaio se tornaram equivalentes funcionais das bases americanas no Kuwait, Catar e Bahrein. Cuba ainda resiste.
Nos dias seguintes ao encontro, a arquitetura regional do “Escudo das Américas” começava a se materializar. Em 10 de março, num acordo negociado entre Marco Rubio e o chanceler paraguaio Rubén Ramírez Lezcano, a Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou um acordo de forças americanas (SOFA) que permite a presença de militares e civis dos EUA no país, com imunidade criminal equivalente à de pessoal diplomático. O presidente Lula expressou preocupação com a possibilidade de soldados americanos serem desdobrados na fronteira Paraguai-Brasil.
Um dia depois, em 11 de março, os Estados Unidos abriram seu primeiro escritório permanente do FBI no Equador, coroando uma cadeia de acordos de segurança assinados em apenas duas semanas entre Washington e Quito — incluindo, em 3 de março, a primeira operação militar antidrogas conjunta em território latino-americano liderada pelo Comando Sul. Analistas observam que a posição estratégica do Equador — com acesso direto ao Pacífico e às Ilhas Galápagos — o torna um ponto privilegiado de projeção de inteligência americana na região.
No processo de substituição do que resta de diplomacia pela militarização, Milei se revelou para a América um aliado obediente e estruturalmente indispensável para a arquitetura do Escudo das Américas. O Decreto de Necessidade e Urgência 264/2026, assinado por Milei em 17 de abril e publicado no Boletim Oficial, autorizou a entrada de pessoal e meios das Forças Armadas dos EUA para o exercício “Daga Atlântica”, entre 21 de abril e 12 de junho de 2026, nas instalações da Base Naval Puerto Belgrano, da Guarnição Militar Córdoba e da VII Brigada Aérea em Moreno, Buenos Aires — em paralelo ao desdobramento do porta-aviões de propulsão nuclear USS Nimitz em águas do Atlântico Sul.
Enquanto a arquitetura jurídica era formalizada, Washington já havia destacado navios de guerra, posicionado caças F-35 em Porto Rico e enviado o porta-aviões USS Gerald R. Ford ao Caribe — armamento claramente desproporcional para combater cartéis sem força aérea. Desde 2 de setembro de 2025, os EUA conduziram ao menos 44 ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental, no que a ONU classificou como execuções extrajudiciais. Em março de 2026, um oficial de defesa confirmou ao Congresso que 47 embarcações foram atacadas e ao menos 157 pessoas mortas, incluindo pescadores de Trinidad e Tobago e da Colômbia. A ONU classificou que ação militar encoberta ou direta contra outro Estado soberano representaria “violação ainda mais grave da Carta da ONU”.
O próprio chefe do Comando Sul (SOUTHCOM) — estrutura militar responsável pelas operações dos EUA na América Latina e no Caribe —, o Almirante Alvin Holsey, levantou internamente preocupações sobre a legalidade das operações e ofereceu sua renúncia numa reunião tensa com Hegseth em 6 de outubro.
Tecnologia de supervigilância em massa em território estrangeiro
A dimensão tecnológica dessa arquitetura chegou, no entanto, com outra figura do mundo corporativo com raízes sedimentadas nos serviços de inteligência dos Estados Unidos e de Israel. Em 12 de abril de 2026 — exatamente quando as tropas americanas começavam a se instalar nas bases argentinas —, Peter Thiel desembarcou em Buenos Aires acompanhado de família, assessores e segurança pessoal. Em 23 de abril, foi recebido na Casa Rosada por Milei e pelo chanceler Pablo Quirno. Milei descreveu o encontro como uma conversa “maravilhosa” entre “anarcocapitalistas”.
Thiel, ex-sócio de Jeffrey Epstein, é cofundador e presidente da Palantir Technologies, empresa construída em torno da integração de dados, análise de inteligência e contratos governamentais. É a mesma empresa que, nos EUA, acumulou contratos com o ICE avaliados em 287 milhões de dólares entre 2011 e 2025, fornecendo o sistema que dá a cada agente de imigração acesso a uma rede de bancos de dados públicos e privados sobre qualquer pessoa. Como já reportado pelo DCM, a Palantir se infiltra no Brasil através de Luciano Huck e do ministro Barroso.
Os Estados Unidos estão inaugurando diante de nossos olhos uma doutrina de segurança hemisférica e global, perigosamente incompreendida como simples continuação — mais explícita e agressiva — do expansionismo americano tradicional. Uma grande arquitetura legal, política e militar está sendo desenhada pela administração Trump e seus parceiros internacionais, sobretudo do sionismo, para a chamada Nova Guerra ao Terror ao “extremismo transnacional de esquerda” mundial do pós-7 de outubro.
Há uma mudança de paradigma do pós-7 de outubro, expressa como política de Estado pela própria administração Trump, que equipara sistematicamente protesto pró-Palestina ao terrorismo e ao antissemitismo. Um exemplo inquestionável é o Projeto Esther, concebido pela Heritage Foundation — o mesmo grupo por trás do Project 2025, espécie de manual ideológico do trumpismo —, que consolidou esta retórica em política institucional e explícita nos campi universitários. Ações como participar de protestos pró-palestinos foram enquadradas como antissemitismo e fornecimento de apoio material ao terrorismo, para que os manifestantes pudessem ser deportados, enfrentar prisão, penalidades civis ou outras consequências graves.
Uma tentativa de reorganizar a hegemonia americana e do Norte Global por meio da expansão do vocabulário antiterrorista ao “extremismo de esquerda” e ao dissenso na sociedade civil — abrindo o que o direito chama de “estados de exceção” transnacionais, desacreditando as garantias democráticas e pavimentando o caminho para a ascensão da ultradireita e sua interseção com o libertarianismo americano: corrente que prega a dissolução do Estado e a soberania absoluta do indivíduo como princípio político.
O Brasil parece se iludir sobre a gravidade do que se desenha — ou, como diz o ditado inglês, acredita ser too big to fail: grande demais para sucumbir.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/chefe-do-pentagono-anuncia-nova-guerra-ao-terror-com-o-brasil-entre-os-alvos-por-sara-vivacqua/

